Ao Miguel: não foi preciso o vírus para termos Presidente

A Madeira, como o mundo, está debaixo de uma variável terrível: a incerteza. Como tal, o medo de ser mais uma vítima desta pandemia é o sentimento dominante e é ele quem trava ímpetos, mesmo os mais racionais. Neste cenário imprevisível, e em contra corrente relativamente a outros cenários vividos por esta Região, é de enaltecer, até à data, o comportamento do Presidente do Governo Regional da Madeira e do seu Governo nas medidas que são gradualmente anunciadas à população. Temos Presidente. E não foi preciso ter vírus para termos Presidente.

Poupem-me, porventura, certos pensamentos de alguns, daquelas sacras sabedorias a dar voz à “louca” da casa, exatamente aos seus pensamentos, a sentenciarem que se tratará de um panegírico calculado ao poder. Quem me conhece sabe que não frequento, a título pessoal e muitas vezes profissional, tão olímpicas cortes como as da política, da direita à esquerda, embora as respeite, independentemente dos seus protagonistas conjunturais e já conheci tantos. Também sabem que sempre defendi o direito à verdade, com denúncias de ilegalidades ao longo de muitos anos que me valeram inenarráveis dissabores, mesmo de um patronato hipocritamente independente. Por isso, com o desprendimento de quem nasceu para ser pobre, humilde e temente a Deus, e que recusa qualquer lugar na passadeira vermelha para o oferecer a quem por ele salivar, aplaudo o trabalho presente de Miguel Albuquerque e do seu governo nesta conjuntura insular de estado de alerta. Evidentemente, que ele bem passa sem os meus encómios, mas, da mesma maneira que a pena deve correr para a denúncia, também deve ser lesta no elogio. Bem sei que isto é atípico na cultura portuguesa dominada pela linguagem do eucalipto que tudo gosta de secar à volta quando se dá de beber à frustração ou à guerrilha partidária.

Gostaria até que Miguel Albuquerque tivesse ido mais longe: fechasse mais cedo e totalmente o aeroporto. Ainda assim, marcou pontos na gestão da crise em solicitar restrições concretas a Lisboa. Não esperou por casos concretos para agir, esse foi o problema do país que enfrenta agora o contágio como “lume”. Não falte, pois, o discernimento e sabedoria divina a este Governo para, no risco, decidir em nome da segurança pública. É, justamente isso, que Miguel e a sua equipa (do PSD ao CDS) têm feito.  Não o podem acusar de governar por reação ou ao retardador. Quando assim acontece, temos líder.

Por fim, deixo um modesto e curto testemunho sobre Albuquerque que sempre me acompanha ao longo destes anos agridoces de jornalismo. É um tipo simpático para os jornalistas e tudo faz para não bloquear a liberdade de imprensa.  Esta convicção não nasceu após um virtual oferecimento pessoal de tachos ou de mordomias mas de coisas simples, contudo, para mim vitais. Durante 30 anos de jornalismo, vivi metade a enfrentar e a suportar, em silêncio, como alguns (poucos)  colegas, o enxovalho e a expulsão verbal e em direto de serviços jornalísticos por parte de um poder autoritário do passado, com o silêncio cúmplice de tantos, mesmo dos defensores da liberdade na dita sociedade civil. Neste espetro de sobranceria antidemocrática, com a complacência de certos empresários ditos independentes, mas pateticamente dependentes do subsiodiozinho para manter as portas abertas, alguém fazia a diferença: Miguel Albuquerque.  Quando os artigos jornalísticos tantas vezes o visaram como então presidente da Câmara do Funchal, e foram largos anos neste consulado, alguns deles pela minha pena, eis que ele mantinha o sorriso e as declarações sempre prontas ao jornalista que as solicitasse, mesmo o autor das prosas politicamente incorretas. Sempre admirei esta atitude de homem democrata, de, no mínimo, respeitar ou simular respeitar, nas palavras e nos atos, os jornalistas, mesmo aqueles que não lhe faziam a corte ou o ladeavam a troco de comendas ou assessorias. Eu sou assim: prefiro uma pessoa educada a um génio ditador ou dissimulado. Em contraponto e por muito menos, há mais de uma década, um outro líder partidário na oposição, com galões de arauto da Democracia, irrompeu jornal adentro para sovar a jornalista cuja notícia não lhe agradou.

Eu não sei o que o futuro nos reserva, porque não tenho a tal bola de cristal que os especuladores têm para alvitrar sobre tudo e nada. Não gosto de pensar, sequer, no que será o nosso hospital com um contágio, pois conheço alguma coisa  desta “casa” no seu estado normal, onde falta muita, muita coisa. Eis o calcanhar deste Governo, a saúde. Certamente que a procissão ainda vai no adro e o futuro a Deus pertence. Falo do presente e a cada tempo a sua preocupação e sentença. E no presente, goste-se ou não, Miguel Albuquerque faz a diferença.