
Nelson Veríssimo
Entre a escarpa e o oceano, a fajã foi povoada e recebeu o nome de Jardim do Mar. O topónimo é já referido por Gaspar Frutuoso no ‘Livro Segundo das Saudades da Terra’, escrito em 1584.
Acerca do Jardim do Mar, escreveu Alberto Artur Sarmento: «Debruçado numa prateleira de alto e fundo recosto, alinda-se, mirando o espelho das águas – o Jardim do Mar.» (‘Freguesias da Madeira’, 1953, p. 85). Em poucas palavras, e recorrendo a uma metáfora topográfica, ao apelidar de ‘prateleira’ a plataforma geológica onde assenta a localidade, o autor traduziu o relevo abrupto numa imagem poética.
Não se conhece a data da instituição da paróquia do Jardim do Mar. Provavelmente, ocorreu em 1836, pois, a partir de novembro deste ano, os termos de batismo já a mencionam.
Por alvará de 15 de novembro de 1734, fora estabelecido um curato no Jardim do Mar com sede na Capela de Nossa Senhora do Rosário, a pedido dos moradores que, então, alegaram a distância da Igreja do Paul do Mar e a «dificuldade da passagem de umas fráguas montanhosas».

Em 1906, iniciou-se a construção de uma nova igreja paroquial, por iniciativa do padre César Martinho Fernandes (1878-1920), apoiada por Francisco João de Vasconcelos do Couto Cardoso (1870-1928), que contou com a mão-de-obra dos paroquianos, a sua contribuição monetária e a dos emigrantes. A nova igreja foi benzida pelo bispo D. Manuel Agostinho Barreto (1835-1911) em 19 de outubro de 1907.
Enquanto decorreu a obra de edificação do novo templo, o serviço religioso realizou-se na Capela de Nossa Senhora da Piedade, adossada à quinta com a mesma denominação.

A Quinta da Piedade ou Solar de Nossa Senhora da Piedade é uma vetusta casa senhorial com capela, que se distingue na paisagem pela sua volumetria e cor. Serviu de residência dos últimos morgados do Jardim do Mar, vínculo instituído no século XVI, e dos seus descendentes.
Foi classificada, em 1977, como imóvel com interesse municipal do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira. O Governo Regional, em 2008, expropriou a Quinta da Piedade aos herdeiros de Francisco João de Vasconcelos do Couto Cardoso. Na verdade, houve duas expropriações: a primeira para a obra de um estacionamento e de um novo arruamento; a segunda para a construção do Centro de Dia para a terceira idade do Jardim do Mar. O segundo processo de expropriação encontra-se em Tribunal, desde 2009, devido à interposição de um recurso por parte dos antigos proprietários. Dezassete anos depois, não temos notícia de o litígio estar resolvido. A Justiça tarda, mas a degradação do edifício classificado avança.
A escritora Luzia (1875-1945) costumava passar três meses de inverno no Solar de Nossa Senhora da Piedade. Deixou registos dessas estadas no seu diário, ‘Caminhos da Vida, um jornal’ (2023) e em ‘Almas e terras onde eu passei’ (1936). Luzia fora casada com Francisco João de Vasconcelos do Couto Cardoso, filho do último morgado do Jardim do Mar.

Do diário de Luzia deduz-se que gostava da paisagem, sobretudo do seu «grande amigo mar», mas sentia repugnância pelas pessoas que habitavam nesta freguesia.
«Sinto-me no fim do mundo! Há tantos dias não chega aqui um eco do que vai pela civilização. O grande temporal interrompeu todas as comunicações com a cidade. E quase gosto do meu completo isolamento. Parece-me que morri e tornei a nascer neste abençoado cantinho, onde a vida é tão simples, tão fácil.» (‘Caminhos da Vida, um jornal’, 27-03-1903, p. 43).
«Tudo lhe dei e tudo o mar me deu, até o que estava longe, o que ficava para trás, no domínio da nostalgia!
Em tardes serenas, veladas por um brando nevoeiro, a sua superfície lisa, estendendo-se indefinidamente, a confundir-se com o céu, restituía-me as longas planícies da minha querida província…
E se tinha saudades de Lisboa, ele fazia, do poente, sobre as ondas, um jardim de olaias, uma velha catedral, uma torre rendilhada…

E se desejava sedas, joias, flores – essas mil futilidades que amam as mulheres – logo me depunha aos pés entre a franja do seu vestido, um colar de opalas, uma rosa de prata…
Quantas, quantas razões tive para querer-te, e quanto te quis, mar bravo, mar manso, mar azul, verde, cinzento, mar que rugias, mar que choravas, mar que cantavas, mar do Jardim do Mar – Oh! meu tesoiro encontrado, oh! meu tesoiro perdido!» (‘Almas e terras onde eu passei’, agosto de 1931, pp. 222-223).
O topónimo Jardim do Mar serviu de designação para uma mercê régia. De facto, em 1896, o rei D. Carlos agraciou Tristão Vaz Teixeira de Bettencourt e Câmara (1848–1903) com o título de Barão do Jardim do Mar. Foi diretor do ‘Diário de Notícias’, da Madeira, administrador do concelho de Santa Cruz, presidente da Câmara desta vila e presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia do Funchal. A sua ligação à freguesia vinha por parte da sua esposa, D. Sara de Vasconcelos do Couto Cardoso, filha de Francisco João de Vasconcelos do Couto Cardoso, morgado do Jardim do Mar.
Nesta localidade, a agricultura e a pesca foram, no passado, atividades que garantiam a sobrevivência dos habitantes. Hoje, têm diminuto significado económico.

A chaminé de um engenho em ruínas testemunha a cultura da cana sacarina e o fabrico de aguardente no início do século XX. Um moinho recuperado atesta a produção de cereais. O cultivo de hortícolas, vinha e bananeiras é prática de reduzido número de agricultores seniores.
Com a prática desportiva do surf, internacionalmente divulgada, e a procura turística, o Jardim do Mar modificou-se. As unidades de alojamento local e as residências de estrangeiros proliferam na freguesia. Há quem afirme que «metade do Jardim do Mar já é dos estrangeiros» (DN, Funchal, 23-07-2025).

A segurança da estrada de acesso à freguesia, a partir do Estreito da Calheta (14 de dezembro de 2022), e a ligação, por túnel, ao Paul do Mar (9 de julho de 2000) fizeram com que o Jardim do Mar vencesse definitivamente o isolamento de séculos, quando o mar e a vereda íngreme eram as únicas vias de entrada ou saída.
Nos ‘Censos de 2021’, esta freguesia do concelho da Calheta apresentava 215 habitantes, ou seja, 42,5% da população existente em 1960. O Recenseamento Eleitoral, de 15 de junho de 2025, registou 227 cidadãos nacionais e 2 outros cidadãos estrangeiros residentes na freguesia.
Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de azul, semeado de rosas naturalistas de prata, tendo em chefe, rosário de ouro; campanha ondada de quatro burelas ondadas de prata e verde. Coroa mural de prata com três torres aparentes. Listel de prata com a legenda a negro “JARDIM DO MAR” (Diário da República, n.º 102, 2.ª Série, Parte H, de 27-05-2016).

A representação heráldica acolhe referências às abundantes flores na Natureza, que originaram a designação de Jardim, ao mar e ao orago da freguesia, Nossa Senhora do Rosário.
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