Volta para a tua terra!

A CEE era qualquer coisa de moderno.

Teria sete anos quando passámos a ser um dos doze. Os exclusivo doze. E isso era qualquer coisa. Não sabia bem o quê, mas sabia que era. Pertencíamos a algo maior que nós. A uma comunidade.

Com o passar dos anos, fui percebendo as nuances dessa (des)União.

Uma comuna hippie dos anos 70. Peace and love e portas sempre abertas. Mas uns ouvem Led Zeppelin e outros dançam ao som dos The Doors. Uns aceitam as regras de convivência da comuna, mas há os que as fazem. E uns hippies recebem os vizinhos com um bom charro e outros, com sorte, com um copo de água. Da torneira.

Um desses hippies, um dos fazia as regras, decidiu bater com a porta. E trancá-la à saída. Vai viver para uma quinta isolada, onde vai criar galinhas de penacho loiro. Ao fim de semana vai comer fish and chips ao pub.

Apesar dos desaires, das traições, dos avanços e recuos, o Brexit deu-se.

Custa-me pensar que possa vir a precisar de um visto para entrar num país que também é um bocadinho meu. O Globe do Shakespeare, a secção de moda do V&A, o campus de Oxford e Cambridge são meus. O West End, a comida tailandesa em Bath e os passeios pelo countryside são meus. E aquele lugar especial num recanto Escondido do Parque. Esse é mesmo só meu.

Mas o que me custa mesmo é ver é o ódio que está por detrás desta decisão. Algo latente, mas que se tem exacerbado. A xenofobia.

Li um anúncio colocado numa área comum dum prédio. Feliz dia do Brexit, dizia. Agora que recuperámos o nosso grande país, não toleramos que se fale outra língua nos apartamentos que não a língua inglesa. Se quiserem falar a língua materna do vosso país, sugerimos que voltem para esse país.

Há uns anos fui conhecer a Irlanda. Fiquei com a Andreia, minha conterrânea da Ilha Dourada, minha colega de faculdade e minha amiga. Contava-me ela que os episódios, quando vivia em Inglaterra, eram recorrentes. Uns mais mal disfarçados que outros.

Era uma avó inglesa, daquelas que cheiram a bolos e têm sempre a chaleira ao lume. Frequentavam o mesmo café e o bom dia foi dando lugar a mais longas conversas. Perguntou-lhe se estava nos seus planos casar. À resposta afirmativa, replicou, com um sorriso terno, que talvez fosse melhor casar com um dos seus. Alguém da sua terra.

A Andreia nem conseguiu responder. Acabou por casar com um irlandês. Ruivo e tudo.

Porque só aqui é que somos o máximo. País de Doutores e Engenheiros. Na casa dos outros hippies, entramos pelas portas escancaradas. Para limpar e servir.

No Brasil, as nossas mulheres são as que usam lenços na cabeça e que têm bigodes mais fartos que os homens. Na Venezuela só sabemos fazer pão. Na África do Sul só sabemos ter minimercados.

Nos Estados Unidos, nem caucasianos somos. Somos latinos, essa raça nova que os americanos inventaram. Os norte-americanos, esse povo tão antigo e de raízes homogéneas. Lembro-me de ficar desorientada quando chegava a qualquer sítio e falavam-me em castelhano. Como se eu percebesse ou soubesse responder. Logo eu, que nem Portunhol arranho. Só se já estiver digerido umas sangrias. Arriba e olé!

Somos olhados com sobranceria e desdém. Em tanta parte deste mundo. Dizem-nos para casar com os nossos. Para voltarmos para o nosso país.

Será que isto soa familiar aos brasileiros, aos venezuelanos e aos africanos que vivem em Portugal?

Mas quando somos nós, quando são os nossos? Aí já não tem tanta graça, pois não?