Bispo do Funchal deixa apelo ao Amor no Dia Diocesano da Família

O Bispo do Funchal, D. Nuno Brás participou hoje no Dia Diocesano da Família, celebrado na igreja paroquial do Campanário.

A cerimónia decorreu esta tarde, a partir das 15h30, com a bênção de mais de 200 casais que celebram bodas matrimoniais.

Na homilia, o Prelado Diocesano apelou ao amor de Deus no seio das famílias.

Leia aqui a homilia na íntegra:

“1. Hoje Jesus convida-nos à abundância: “Se a vossa justiça não abundar [πλεῖον] mais do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). Jesus convida-nos a abundar na justiça. E dá-nos por comparação negativa (mostrando como não devemos ser) a justiça dos escribas e fariseus, quer dizer: a Lei do Antigo Testamento e o modo como ela era compreendida e vivida.

Em que consiste a justiça dos escribas e fariseus? “Não matarás; quem matar será submetido a julgamento”. A justiça dos escribas e fariseus é aquela que se satisfaz em ver cumprida a letra da Lei. Os escribas e fariseus preocupavam-se com aquilo que deviam realizar para pôr em prática a letra da Lei, na sua vida quotidiana.

É uma atitude também muito frequente entre nós: “Não matei ninguém”, escutamos tantas vezes. Ou seja: “não tirei a ninguém a sua vida biológica”, como que a dizer: posso estar satisfeito comigo e descansado. “Não infringi a Lei”, dizemos.

Mas será que verdadeiramente não mataste? Não tiraste a vida física a ninguém; mas não hesitaste em dizer ou em pensar, que “aquela pessoa morreu para mim”, como tantas vezes escutamos. Quer dizer: vou tomá-lo como morto; vou actuar, vou pensar como se ele já não existisse. Para mim, aquela pessoa deixou de contar. Não matámos, infringindo a Lei (de Deus e dos homens). Mas será que, verdadeiramente, não matámos?

A justiça dos escribas e fariseus é a justiça daqueles que se contentam com aquilo que já conseguiram, e que dizem: “já chega; consegui os meus objectivos, agora posso viver descansado. Basta-me quanto consegui”. A justiça dos escribas e fariseus é a justiça de alguém que se considera a si mesmo justo porque cumpriu a letra da Lei — da Lei civil, da Lei divina ou até da Lei (das regras) que nos damos a nós mesmos. É aquilo a que S. Paulo, na II leitura, chamava “a sabedoria deste mundo”.

No entanto, aos seus discípulos, Jesus convida a ir muito mais longe: “Eu, porém, digo-vos: ‘Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento”. De facto, muitas vezes acontece que matamos o nosso irmão no nosso coração e no nosso pensamento. A justiça de Jesus não é aquela que cumpre apenas a letra da Lei; vai muito mais além (é abundante): a justiça de Jesus e dos seus discípulos é aquela em que deixamos que Deus nos torne justos. O mesmo é dizer: a justiça de Jesus é aquela em que damos espaço a que Deus actue em nós. A justiça de Jesus e dos seus discípulos é aquela em que vivemos “com os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Filp 2). Ou seja: já não somos nós a amar; é Deus que ama em nós. Já não somos nós a tornar-nos justos; é Deus a tornar-nos justos. A justiça deixa de ser uma conquista nossa; passa a ser um dom de Deus. E, assim, o nosso pensamento, as nossas palavras, o nosso modo de agir e de ser alargam-se de tal modo que assumem a grandeza do próprio Deus. Como diz Jesus noutra passagem evangélica: “ser-vos-á dada uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante; pois com a medida com que medirdes, sereis medidos” (Lc 6,38). A justiça de Jesus e dos seus discípulos é aquela que abunda em bondade, e que, desse modo, nos torna verdadeiramente espelho, eco, presença dessa abundância de amor; que nos torna justos, não na simples perspectiva dos homens, mas na justiça de Deus.

Jesus convida-nos, portanto, não a uma justiça humana, mas a assumirmos para nós e para todos a justiça de Deus — quer dizer: aquele olhar do Pai sempre pronto a acolher e a perdoar; aquela atitude divina que nunca se contenta com o bem já realizado, mas antes procura fazer sempre cada vez melhor, em cada dia que passa. Essa é a abundância que caracteriza o Pai; essa é a abundância que caracteriza Jesus. Essa é a abundância de justiça a que somos chamados — porque essa é a justiça que transforma, que muda, que converte (a nós e aos que estão ao nosso lado). A justiça de quem não lhe basta parecer mas que nunca desiste de ser verdadeiro e sempre bom,  que não desiste de ser melhor em cada dia que passa.

  1. Neste Dia Diocesano da Família queremos, antes de mais, dar graças a Deus por tantas famílias boas que vivem e marcam a nossa Ilha — de entre as quais se destacam aquelas que hoje aqui estão para celebrar e renovar diante de Deus e da Igreja (e com Deus e com a Igreja) os seus 10, 25, 50, 60 ou mais anos de casados. Damos graças a Deus por tudo aquilo que estas famílias têm significado e têm realizado: para os seus filhos, netos, e demais familiares; para as suas terras; para as suas comunidades paroquiais; para a nossa diocese e para a sociedade madeirense no seu todo. Como seriam diferentes a Igreja e a sociedade madeirense se estas famílias não existissem!

As famílias cristãs mostram o rosto de uma Igreja diocesana que é família e que quer ser cada vez mais família. O rosto de uma Igreja que acolhe o amor de Deus e que é rosto do amor de Deus, ainda que por entre dificuldades, sofrimentos, tristezas e pecados. O rosto de uma Igreja que não desiste do outro, do próximo — o rosto de uma Igreja que se aproxima e que se torna próxima e que nos ajuda a ser próximos uns dos outros. O rosto de uma Igreja fraterna, quer dizer: formada por irmãos que reconhecem e vivem a vida do Pai.

Estamos gratos a Deus e estamos, também, gratos a todos vós, esposos que aqui vos encontrais. O amor de Deus não é uma teoria ou um sonho: o amor de Deus tem assumido, ao longo de todos estes anos, o rosto, o olhar, as palavras e as mãos de todos vós e de tantos outros. Agradecemo-vos o testemunho; agradecemo-vos o facto de, não apenas hoje mas em cada dia que passa, interpretarem e mostrarem, por entre alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, sofrimentos e conquistas aquilo que é o amor — a única realidade que dá sabor, sentido e coragem à vida humana.

Mas queremos também fazer-vos um pedido. Um pedido à abundância. A nossa Ilha não é rica em matérias primas, nem é rica em recursos naturais. Mas a nossa Ilha é abundante em humanidade; é abundante em acolhimento; é abundante em amor, em entrega. E essa característica depende, em grande parte, da vida das nossas famílias — porque é na família que se aprende essa abundância de generosidade e de amor. Por isso, queremos pedir-vos, hoje e sempre, esta abundância cada vez maior. Queremos pedir-vos que não vos canseis nunca de abundar no amor: aquele amor de Deus que é o cimento da vida familiar e do amor que vos uniu e continua a unir, fazendo com que o homem deixe seu pai e sua mãe para se unir a sua mulher, e que os dois sejam uma só carne (cf. Mc 10,7-8).

O pedido que vos fazemos é o de continuar sempre a viver nesse amor que tem a sua origem e a sua fonte contínua em Deus. É o pedido a semear com abundância, à vossa volta, o amor, de modo a que todos possamos receber sempre esse testemunho de vida.

O Senhor, que vos uniu, sempre vos abençoe!”