Comércio dos chineses no Funchal sem efeitos negativos de nenhuma paranóia com o coronavírus

Mau grado as notícias constantes sobre o coronavírus e a consequente paranóia (que por vezes anda a par das legítimas preocupações), os comerciantes chineses na Madeira não têm do que se queixar, segundo constatou hoje o Funchal Notícias numa ronda efectuada por vários estabelecimentos da baixa funchalense. As pessoas que inquirimos, entre funcionários e proprietários dos negócios, não notam qualquer diminuição no movimento e na actividade comercial habitual. Também não dão conta de qualquer tratamento discriminatório.

No Bazar do Povo, um dos maiores estabelecimentos do centro propriedade de comerciantes chineses, são os próprios empregados quem não nota diferença nenhuma no volume habitual de compras e de procura. Um deles chegou a dar-nos conta do cancelamento de uma ou duas encomendas oriundas da China, mas sublinhou que isso é absurdo, pois o vírus não se transmite dessa forma e mesmo que o fizesse, teria tempo para morrer antes que os produtos supostamente “infectados” cá chegassem. Os empregados madeirenses com quem falámos, das lojas chinesas que visitámos (e não é difícil encontrar lojas chinesas na baixa) estão, como todas as outras pessoas, conscientes de que esta situação do coronavírus é para levar a sério e ter algum cuidado, mas sinceramente, dão conta, na sua maioria, de que há reacções, em seu entender, exageradas. Esta, sublinham, é uma doença como tantas outras que já anteriormente surgiram. Convém tomar os cuidados necessários, mas não entrar em paranóias. Se houvesse tanta razão para preocupação, “nós próprios é que nos devíamos preocupar, pois trabalhamos aqui”, dizem, referindo-se às lojas propriedade de chineses. E admitem: “Por vezes ouvimos algumas “bocas”, do género: então, trabalham lá numa loja de chineses e não estão preocupados?” Mas não. Não estão mesmo, pelo menos não irracionalmente.

Entretanto, e no centro do Funchal, parece haver quem esteja a levar tudo demasiado a sério. Nas farmácias já se começam a vender máscaras protectoras para o rosto. No Funchal o jornalista do FN já viu pessoas com rosto tapado pelas mesmas. Mas parecem casos isolados, embora os funcionários das farmácias dêem conta da preocupação das pessoas.

Todavia, e para os comerciantes chineses, essa preocupação natural não se traduz em baixa no volume de negócios e nem em tratamento discriminatório. Zhou Xiaozhong, mais conhecido como “Toni”, na Madeira desde 2007, não se importa de dar o rosto à reportagem, apesar das reticências iniciais. Bastante descontraído e comunicativo, “Toni” diz que a Madeira, felizmente, não é como a Itália, que recusou recentemente aterragem a um avião que transportava cidadãos chineses. “Quando vou a um café próximo daqui, os clientes e o proprietário começam a gozar: “Alto, um chinês, aqui não podes entrar!” Mas é tudo na brincadeira. Zhou não sente nenhuma discriminação.

Nos diversos estabelecimentos que visitámos, a conversa é a mesma. Não há diferença nenhuma no volume de negócios, nenhuma paranóia excessiva da clientela. O FN observou o público a transitar calmamente pelo interior dos estabelecimentos. Num deles, uma cidadã de origem chinesa até parecia constipada e assoava o nariz. Mas ninguém se afastava, assustado, nem procurava “proteger-se”.

Zhou Xiaozhong assegura que no continente a comunidade chinesa tem boas relações entre si e está a tomar os seus próprios cuidados relativamente às pessoas que chegam da China, inclusive disponibilizando morada para que esses recém-chegados possam isolar-se durante algum tempo, para terem a certeza de que não são portadores do vírus e, antes de mais, não infectarem os seus compatriotas, com os quais vão trabalhar. Na Madeira, actualmente não parece existir uma associação representativa dos interesses dos comerciantes de origem chinesa. Mas isso para ele não é nenhum problema. Sente-se perfeitamente integrado, nem chinês, nem português, simplesmente uma pessoa. E é como uma pessoa que se sente tratado pelos madeirenses.

“Até agora, felizmente, não sinto impacto nenhum da epidemia de coronavírus nem associação negativa aos chineses, nem reflexo nos negócios”, garante-nos.