Sílvia Ferreira, do C.A.S.A.: Bloom está a causar estragos nos jovens e a lançá-los para a rua; e “ainda há fome na Madeira”

Fotos: Rui Marote

A Madeira está a enfrentar um problema sério de consumo de “bloom”, droga “legal” que tem feito inúmeros estragos e inclusive lançado na rua gente jovem, convertida em sem abrigo pelo consumo da substância. A opinião é de Sílvia Ferreira, directora técnica do CASA – Centro de Apoio ao Sem-Abrigo, instituição pela qual Miguel Silva Gouveia iniciou hoje uma ronda de “Presidências Abertas” da CMF.

Em declarações ao Funchal Notícias, Sílvia Ferreira deu conta de que o CASA já acolheu pais desesperados com o facto de os seus filhos que “estudavam e tinham uma vida completamente normal”, terem caído na rua e passado a viver sem abrigo, devido ao consumo de “bloom”, que os transforma em seres deprimidos, alucinados e esquizofrênicos. O “bloom”, disse, é um problema que está a aumentar, a causar danos na sociedade madeirense. “E está a entrar livremente, porque é considerada uma droga legal”. Ao nível regional foram tomadas medidas para bloquear esta droga, mas basta alterar minimamente a composição química da mesma e a variante da dita droga já passa a estar legal… Porém, “os danos que provoca na cabeça de uma pessoa são incontroláveis, e já não há volta a dar. E são pessoas com 16, 17 ou 18 anos” que estão a sofrer com isto, denuncia. “Cada jovem que toma um comprimido desses, o transtorno já está feito… e não há retorno”, afirma a nossa interlocutora.

Sílvia Ferreira deu-nos conta da situação desesperada de uma senhora que viu a filha de 22 anos ingerir pela primeira vez “bloom” em Agosto. Demorou um mês até cair na rua como sem abrigo. Vive assim desde então. “Começou a ficar na rua. Os pais sabem onde está a ficar, vão lá vê-la, mas às vezes ela olha para eles e não os reconhece”.

Na cidade do Funchal, e segundo a última contagem, há 72 pessoas no Funchal em situação de sem-abrigo. Há ainda 22 pessoas que estão ou em situação de internamento, ou de alojamento temporário (por exemplo a dormir na Associação Protectora dos Pobres), ou a ficar num quarto alugado com o Rendimento Mínimo de Inserção.

O CASA tem uma cantina aberta que serve refeições todos os dias. Não contabiliza propriamente quem a utiliza, número que pode variar diariamente. Podem ser pessoas sem-abrigo, ou pessoas com casa, mas cujas dificuldades económicas obrigam a recorrer a este serviço para obter comida. No total, são servidas cerca de 50 refeições por dia.

Sílvia Ferreira já está a trabalhar neste auxílio há 11 anos. O CASA é uma instituição de inspiração budista, constituída no continente em 2002. O objectivo do Centro é promover a solidariedade social a pessoas em situação desfavorecida. Na Madeira começou a laborar em 2008, fornecendo refeições quentes e embaladas na Rua do Carmo e nos arredores do Mercado dos Lavradores. Desde 2014, começou a receber apoio da Câmara Municipal do Funchal, que facultou uma sede e melhores condições, que se traduziram depois num refeitório. As instalações ficam no sexto andar do Auto-Silo do Campo da Barca. O Grupo Porto Bay apoiou seriamente com a oferta de comida excedentária nas suas unidades hoteleiras, o Pingo Doce também e o CASA foi crescendo com a doação de uma carrinha por um particular e com a entrada de mais e mais voluntários, e também o apoio do Exército.

“Continua a haver fome na Madeira”

Colocámos a pergunta à nossa interlocutora: o discurso oficial do Governo Regional é o de que a economia da Madeira cresce há 75 meses consecutivos. A resposta sistemática dos partidos da oposição é o de que há cada vez mais madeirenses em risco de pobreza. Nota uma tendência para o crescimento do número das pessoas que recorrem aos seus serviços? A resposta é um sim inequívoco. Verifica-se uma tendência para o aumento, e inclusive existem pessoas em situação de “pobreza envergonhada” que, não vivendo na rua, pedem comida. “Todos os dias temos pedidos de ajuda alimentar e não só. Há sempre gente a bater à porta. Há famílias carenciadas que já não o são apenas: são famílias em risco. Vivem numa habitação social, estão desempregadas, têm filhos, e vivem à custa dos subsídios. Não têm um trabalho que possa proporcionar uma evolução da sua situação”.

“O que nós sentimos no terreno é que a situação não está a melhorar, e que continua a haver fome na Madeira”, assevera. “Lamentavelmente, é isto que acontece”.

Mas Sílvia Ferreira também destaca a boa vontade deste novo Governo Regional em colaborar com o CASA, ao invés dos anteriores. A sua disponibilidade para sinergias e para assumir situações, “porque antigamente não se falava de pobreza na Madeira, era como se fosse um tabu”. E nem apoios concretos chegavam ao CASA.

Em particular, salienta a acção da antiga secretária regional da Inclusão e Assuntos Sociais, Rita Andrade, e o seu interesse em facilitar melhores condições a esta instituição. “Deu-nos uma verba para nós melhorarmos este espaço”, recorda. “Isto foi um espaço da Câmara, cedido pela mesma, e com obras feitas pela Segurança Social”. O CASA concorreu, entretanto, a apoios camarários ao associativismo, obtendo uma verba de 25 mil euros por ano. A Segurança Social assegurou duas pessoas assalariadas ao Centro: a própria directora técnica, Sílvia Ferreira, que deixou outro trabalho para se dedicar por inteiro àquela obra, e uma assistente social. O CASA, entretanto, alargou a sua actividade para além do Funchal, ao Caniço, Camacha, Santa Cruz e Ponta do Sol, onde ajuda também pessoas necessitadas.