O Pai Natal existe!

Eram 10 horas da noite duma sexta-feira. A H&M estava quase vazia e eu na secção de crianças. Pendura cabide, tira cabide. Não. Pendura cabide. Não, não, tira cabide. Uma dança absurda para  escolher entre as camisolas de bom gosto que ficariam maravilhosamente com as botas camel de uma e os mocassins de outra e as camisolas de unicórnios pejadas de lantejoulas que só brilhavam menos que os olhos delas se lhas oferecesse.

Perto de mim, uma mãe com duas crianças a fazer a conversa que já fiz tantas vezes. Hoje não pode ser. Talvez o Pai Natal….

Criança n.º 1 : O Pai Natal, mãe, a sério?

Criança n.º 2 revira os olhos com desdém.

Larguei as camisolas. As de bom gosto e as outras. Precisava de ver bem isto. Eram pequenas as crianças n.º 1 e n.º 2. Seriam só baixinhas?

Perguntei à mãe – aqui passo de maluca das camisolas a intrometida –  que idade tinha a criança n.º 1. Tem 6 anos. Congelei. Como se tivesse sido vítima da Elsa.

A idade da minha filha mais velha.

Então sussurrei. Com medo que me ouvissem na Lapónia. Sussurrei o impensável: ela não acredita no Pai Natal? E a mãe que não.

De vítima da Elsa passei a Abominável Mulher das Neves, de tão congelada fiquei.

Eu sei que um dia vai acontecer. Não que queira as minhas filhas com 30 anos a deixar bolachinhas para o Pai Natal e cenouras para as renas. Até porque a psicoterapia custa para cima de uma fortuna.

Mas tem de ser para já?

É inevitável  haver um qualquer chico esperto que, do alto dos seus 8 anos, não se vai conter.

E ela vai perguntar-me se é verdade, claro que vai. Temo esse dia há muito tempo. Temo quando lhe digo alguma coisa, acrescentando com pausa dramática, a mamã já te mentiu? Sempre que lhe digo isso sei que ela um dia vai responder-me de outra forma.

E pior, ela não se vai conter. Ao pé da irmã mais nova vai sussurrar, com aqueles sussuros que se ouvem na Lapónia, se é para continuar a dizer que o Pai Natal existe. Armada em chica esperta, inevitavelmente.

Lembro-me perfeitamente de acreditar no Pai Natal. Na magia do Pai Natal.

Lembro-me de ser raptada, numa noite de Natal, durante 30 segundos que pareceram 30 anos, por um Pai Natal que talvez tivesse bebido um Tim Tam Tum a mais. Fiquei 30 minutos que  pareceram 30 dias sem conseguir sequer falar. E nunca reparei que o Pai Natal tinha unhas compridas pintadas de vermelho. Iguaizinhas às da minha mãe.

Lembro-me de deixar de acreditar no Pai Natal e fingir que ele existia. Acho que nunca te contei isto, pois não, Pai Natal de unhas compridas pintadas de vermelho?

Lembro-me que, quando o Pai Natal passou de real a imaginário, a magia do Natal empalideceu.

Mas fica tudo o resto. O importante.

Fica a família. Ficam as biscas, os cassinos e as espadinhas, jogo novidade que importei de Lisboa, via bar da faculdade. Ficam as mesas com muita gente e muito barulho. O barulho dos pratos, dos copos e dos risos.

Ficam as conversas. Quem se lembra daquela vez que? Todos. Porque no ano passado tivemos exatamente a mesma conversa. E voltaremos a tê-la, com todo prazer, no próximo ano. E aquele que era primo da vizinha? Como é que ele se chamava? O que era gago e puxava duma perna? Ninguém se lembra, tal como já ninguém se lembrava no ano passado. Duvido até que ele tenha existido.

Ficam as broas de mel. Todos os anos feitas com a mesma receita. Para todos os anos descobrir que nos enganámos na receita, que não era aquela, era a do outro caderno. Ficam as promessas, sempre incumpridas, que vamos marcar qual a receita certa, para não acontecer o mesmo para o ano.

Ficam as charadas daquele ano que foi tão divertido. Da primeira vez que vieram os tios e primos de Inglaterra passar o Natal desde há muito tempo.

Fica o jantar no Jaquet na noite de 23, porque não há noite do mercado sem caramujos e espada de vinho e alhos.

Fica a canja que me queima a língua todas as vésperas de Natal, a carne de vinho e alhos, como a avó dali de baixo fazia. Fica a delícia de crianças, que era o pudim preferido do tio. Fica o bolo de mel que vem do Porto Santo, feito pelas habilidosas mãos da tia de empréstimo.

Ficam os telefonemas dos que estão longe e que sentimos perto. Ficam as amizades regadas dos jantares de Natal, com viagens de taxis alucinantes.

Fica tudo isto. O Pai Natal pode ir, mas o importante tem de ficar. É esse o meu desejo de Natal para as minhas filhas. Que percebam o essencial.

Mas por agora, enquanto posso acreditar na magia do Pai Natal pelos olhos de meninas de 6 e 2 anos, vou aproveitar.

Agora tenho as cartas ao Pai Natal, as visitas à sua casa mais a Sul, lá para os lados do Forum, e os calendários do Advento, onde todos os dias esta Pai Natal de unhas curtas sem verniz determina uma atividade natalícia para fazerem.  Tenho o correr para mim quando ouvem um barulho que parecem ser os guizos das trenas. Mas não é por medo. Eram só saudades da mãe. Até porque elas já são crescidas e não têm medo do Pai Natal, dizem-me elas.

Mas o  que quero mesmo que fique são as tardes de bingo e monopólio junior, os ataques de cócegas, os passeios de mãos dadas,  os bolos de chocolate na caneca feitos em conjunto, o teatro das marionetas e a decoração do pinheiro a oito mãos com a estrela que trouxemos do Rio de Janeiro, o sítio menos natalício possível.

Como sei que ficará o passeio do dia 1 para comer gelado e ver as luzes acender. Luzes que só brilham menos que as camisolas de unicórnios pejadas de lantejoulas que elas têm vestidas. Pirosas mas felizes.

A todos uma Festa de Luz e Amor!

Feliz Natal!