Entrevista de Olavo Câmara ao Funchal Notícias: “Ingrato é não ter um pai como o Emanuel Câmara” (Parte I)

É um dos mais jovens deputados na Assembleia da República. Olavo Câmara foi eleito pelo PS, pelo Círculo da Madeira. Dizem que foi por ser filho de quem é mas, em entrevista ao Funchal Notícias, não se revê nas acusações do chamado ‘familygate’ e diz que tem um percurso político autónomo e com créditos firmados quer como autarca quer como líder da JS-Madeira. “Tenho muito orgulho em ser filho do Emanuel Câmara e poder fazer política ao seu lado (…) Ingrato é não ter um pai como o Emanuel Câmara”, revela.

FUNCHAL NOTÍCIAS: Qual o balanço do primeiro mês em São Bento?

OLAVO CÂMARA: O Parlamento é um mundo novo. Não é fácil chegar e perceber imediatamente o funcionamento desta grande casa da democracia. Felizmente, agora, já estou numa fase em que é possível perceber toda a dinâmica do parlamento. As comissões parlamentares já funcionam no seu todo e os plenários são cada vez mais intensos. Todos os dias continuo a aprender e a descobrir alguns segredos sobre o parlamento, mas penso que será assim durante toda a legislatura. Sempre a aprender, com uma enorme responsabilidade de representar todos os portugueses e, em particular, todos os madeirenses, o que torna a pressão enorme. Não há tempo só para parar e aprender, mas sim trabalho, muito trabalho, na procura de respostas para melhorar a vida de todos os portugueses e ajudar a desenvolver o nosso país e a nossa região.

FN: Na Assembleia da República, fará parte, como membro efectivo, da Comissão de Agricultura e Mar e, como suplente, das comissões de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas e da Cultura e Comunicação. São áreas da sua predileção?

OC: Não diria que são as áreas de predileção. São sim áreas que precisam de uma maior atenção e desenvolvimento para ajudar quer os agricultores, quer os pescadores, quer toda a economia relacionada com estes dois sectores muito presentes na nossa região. Foi a pensar neles, e sabendo que o madeirense tem uma forte ligação à terra e ao mar, que optei por esta comissão. Desde pequeno que tenho uma ligação à agricultura, no verão sempre ia à feiteira, cavar semilhas e as vindimas. Sempre fiquei impressionado com a força e vontade de homens e mulheres em trabalhar a terra, uma vida dura, e sempre os parentes pobres da cadeia de distribuição destes produtos. Tem de haver uma maior proteção dos agricultores e um aumento dos seus rendimentos, pelo que espero conseguir contribuir nesse sentido, em particular para o agricultor da Madeira, com uma maior proteção legislativa e um maior controlo do preço no mercado dos produtos agrícolas.

Depois, quanto ao mar, a aposta clara do Governo da República neste sector, que irá ter um grande desenvolvimento nos próximos anos, aliado ao potencial da nossa região, ou não estivéssemos rodeados por mar, é um sector que a Madeira poderá estar na linha da frente e espero contribuir nesse sentido. Precisamos de agarrar todas as oportunidades, na nossa ilha temos realmente um “mar de oportunidades” que precisa de ser navegado. Eu apostei nesse sentido com esta escolha.

Já a comissão dos negócios estrangeiros e comunidades portuguesas foi a pensar nas comunidades madeirenses. A Madeira é uma terra ligada à emigração, todas as famílias da Madeira têm algum familiar emigrado, pelo que precisamos ter atenção a estas comunidades que levam o nome da Madeira aos quatro cantos do mundo e que muito têm feito pela nossa região. No meu caso, não é só família emigrada, também tenho uma geração inteira de amigos, colegas de escola e vizinhos que tiveram de emigrar por necessidade e que o estado, apesar de distante, poderá intervir na resolução de alguns entraves e claro, no geral, contribuir para o seu regresso.

FN: Ter como pai Emanuel Câmara pode ser politicamente ingrato uma vez que o vão sempre apontar como “o filho de…”?

OC: Ingrato é não ter um pai como o Emanuel Câmara. Felizmente estamos na vida política ativa, não é de agora, é desde sempre. Desde pequeno que acompanho o percurso do meu pai enquanto autarca no Porto Moniz e desde pequeno que faço da sua luta a minha. Pelo Porto Moniz, pela Região Autónoma da Madeira e pelo Partido Socialista. E vamos continuar juntos pelo Porto Moniz, pela Madeira e pelo Partido Socialista, porque ainda falta fazer muito.

Tenho um bom exemplo a seguir. Como pai, como homem e como político. E em todo o meu percurso pessoal e político tenho a ele como exemplo. Do ponto de vista político, todo o seu percurso de luta no concelho do Porto Moniz, sem nunca desistir, sem nunca se vender, com várias derrotas, continuou sempre o mesmo. Ganhou, continuou o mesmo, implementou as políticas que defendia, e voltou a ganhar de forma histórica.

Mas falta fazer muito, falta fazer tudo aquilo que é feito no Porto Moniz para o resto da Madeira, e estou empenhado nesse sentido, fazer o que ele fez no Porto Moniz nos últimos anos em toda a Madeira. É o melhor exemplo que podia ter. É a minha referência.

Mas quem me conhece, sabe que tenho conquistado o meu lugar e construído o meu percurso desde muito novo. Aos 14 anos inscrevi-me na JS e ninguém se preocupou que era “filho de”. Tornei-me presidente da JS Porto Moniz e ninguém queria saber se era “filho de”. Tornei-me autarca da assembleia de freguesia do Porto Moniz e ninguém quis saber se era ”filho de”. Tornei-me membro da Assembleia Municipal do Porto Moniz e ninguém quis saber se era ”filho de”. Porque todos já me conhecem e reconhecem características e todo o trabalho desenvolvido para chegar até onde tenho chegado.

Quando tornei-me presidente da JS Madeira também ninguém quis saber se era “filho de”. O “filho de” surge devido ao meu crescimento, o espaço que conquistei e toda a dinâmica que consegui implementar na JS-Madeira. Aparece como forma de desvalorizar todo o percurso e trabalho pessoal, político e na estrutura da JS. Surge porque muita gente não gostou da força que criei à minha volta, de uma geração preparada para assumir responsabilidades e irrequieta com os poderes instalados. Surge porque passo a ser mais conhecido do que era, surge porque a JS Madeira passou a ser uma estrutura mobilizadora dos jovens madeirenses, com uma enorme capacidade de atrair novos e bons quadros, com forte presença no partido e na sociedade madeirense. O “filho de” surge quando o meu pai decide avançar para presidente do PS Madeira, mas quando isso acontece, eu já era presidente da JS Madeira há mais de 4 anos.

Todos sabem o que era a JS Madeira e o que é a JS Madeira agora, quer junto aos jovens madeirenses, quer junto da sociedade madeirense, quer dentro do Partido. E quando surge algum desequilíbrio das forças dos poderes instalados, esses poderes tentam castrar esse desequilíbrio. Tenho muito orgulho em ser filho do Emanuel Câmara e poder fazer política ao seu lado, em contribuir para fazer crescer o Partido Socialista na Madeira e mudar a Madeira para melhor.

FN: Em 2018, um projecto de Cowork de que era subscritor, foi um dos vencedores do Orçamento Participativo de Portugal (OPP). Caíram logo insinuações e críticas no chamado “familygate”. O assunto está arrumado?

Esta pergunta vai ao encontro do que respondi na última pergunta. Foi uma das consequências do crescimento da JS Madeira, da implementação na sociedade madeirense e onde alguém decidiu ‘castrar-me’ publicamente. A mim, à JS Madeira e ao PS Madeira. Se o assunto já está arrumado? Não sei, têm de perguntar ao jornalista as motivações, ou a pedido de quem, que o levaram a escrever um artigo daquela maneira. Cheio de inverdades, com conotações políticas, que queria promover um assassinato político público, mas que acabou a envergonhar toda a classe jornalística e o próprio jornal da Madeira, ao escrever um artigo sobre o OPP sem saber como este funcionava. Quiseram passar a mensagem de que o projeto que subscrevi só ganhou devido ao facto dos seus proponentes serem do PS. Mais estranho foi a sequência das notícias: primeiro fez-se a notícia naqueles moldes, no dia seguinte o próprio JM-Madeira tem a necessidade de fazer uma nova notícia a explicar o que era o OPP, como funcionava e as várias propostas apresentadas (o que devia ter feito desde o início); e uma semana depois conseguem dizer que o mérito do projeto nem o dos proponentes estava em causa.

Fui crucificado por ter participado num mecanismo de democracia participativa, de ter ido aos vários encontros, de ter difundido a minha proposta e de termos ganho e conseguido um projeto para ser desenvolvido na Madeira. E para quem não sabe, a minha intervenção e de todos os proponentes naquela proposta, acabou naquele momento, porque é assim que o OPP funciona. Agora cabe ao estado/governo regional/autarquias/entidades públicas desenvolver a nossa proposta vencedora e usar o dinheiro que vai receber nesse sentido. (Cont.)