Sítio do cabo da freguesia, enroscado na montanha e sempre a vigiar o mar, era o melhor lugar do mundo para quem ali continuava a viver. Agora eram uns trinta. A idade pesava a quase todos, mas a sua alegria impressionava. Raramente saíam daquele lugar, ou como perguntava a Serafina «Para quê caminhar daqui?». Concordei, de imediato, lembrando que o caminho ficava distante, havia uma escadaria irregular e as forças já lhe iam faltando. Serafina não apreciou os meus argumentos e franziu a testa. «Ó Senhor, a gente tem quase tudo aqui no Cerrado do Castanheiro. Caminhar só para ir ao Doutor, de vez em quando à Igreja – à festa da Graça não se pode faltar – e para fazer umas comprinhas, lá de mês a mês». Com um «pois sim», condescendi.
Davam-se todos bem. Por ali, não havia desavenças. Viviam como bons vizinhos. De vez em quando, reuniam-se para uma «brincadeira». Assim chamavam a um convívio com comida e bebida.
Pois em Novembro, com a abundância de castanhas, acontecia sempre um magusto, num domingo aprazado.
Este ano, a Ti Maria, sempre com aquele ar divertido e gargalhada desprendida, teve a ideia de dar um nome à «brincadeira das castanhas». Haveria de ser dos 600 anos, pois, quase de repente, tinham deixado de falar deles, e no Cerrado ainda nada se fizera. Mas só o magusto era pouco. Deram-se então a pensar em que mais podiam fazer nesse dia. «Então se por essa ilha fora se serviram de tudo e mais alguma coisa para os 600, cá a gente não vai ficar atrás» – dizia com entusiasmo a Ti Maria. De boca em boca, o programa começou a ficar composto.
Seiscentos anos era muito tempo, de modo que tinha de ser uma «brincadeira» a valer. Ficou combinado que, depois do almoço, fariam uma corrida de cachorros. Um bom osso era o prémio para o mais veloz. Adivinhava-se que seria para o «ratazana», o cão do João Fogueira, conhecido pela sua habilidade em tratar da rataria do sítio. Depois haveria uma briga de palheiros. Para quem não sabe, palheiro é um galináceo especial, mais pequeno do que um galo, muito estimado nos quintais e fazendas. São aves atrevidas, e um frente a frente de machos dá briga certa. A contenda seria interrompida quando um deles corresse o risco de ficar bastante ferido. De seguida, teria lugar o brinco das cabaças. Enchiam-nas com água, carregavam-nas na cabeça e, com equilíbrio, percorriam a levada até ao tornadouro do poio do José Vinagre. Ganhava quem, no final, mais água mantivesse na cabaça ou, como costumavam dizer, «mais água tivesse na cabeça». Por fim, realizariam o magusto, com castanhas apanhadas durante a semana. À noitinha, no terreiro da casa da Ti Maria beberiam o licor dos 600 anos.
Dito e feito. Os cachorros foram valentes, os palheiros honraram a sua fama, o jogo da cabaça fez sucesso, as castanhas não tinham bicho e o vinho seco rodou bem.
O melhor, segundo eles, estava para vir. O licor dos 600 anos era segredo bem trancado. Só se sabia que não levava pós nem essências. Aquilo era à base de ervas. Maria tinha percorrido sozinha a serra à procura do que precisava. Depois foram dias de infusão na aguardente. Há uma semana acrescentara-lhe calda de açúcar.
No terreiro, provava-se e gabava-se o famigerado licor. Ti Maria, sentada na sua cadeira de vimes, sentia-se honrada com a presença dos vizinhos. Do licor ela não tinha dúvidas que estava bom. Por precaução, não fosse a sua rica bebida se acabar no domingo, já o vinha provando, mesmo antes de apurado. E, nesse mesmo dia, voltou a degustá-lo várias vezes pela manhã, para se certificar da sua qualidade.
Beberam e voltaram a encher os copos, enquanto cantavam e riam. Quem mais cascalhava era a Ti Maria. As suas gargalhadas pegavam rapidamente, principalmente nas mulheres. Era uma galhofa. Ti Maria estava a ficar com a face mais rosada. De repente, sem qualquer discrição, levantou um pouco a volumosa nádega esquerda e deixou escapar um estrondoso pum. Fez-se algum silêncio, mas logo uma mulher lhe disse «Ti Maria, olhe que esse foi forte». E ela, de imediato reagiu:
– O que é que tu queres, Serafina? Olha foi o fogo dos 600 anos.
Muito riram com o pum da Ti Maria. Festa mais alegre e genuína dos 600 anos do que a do Cerrado do Castanheiro ainda não se tinha visto. Até dias depois, quando lhes vinha à cabeça aquela lembrança, era gargalhada certa. O traque da Ti Maria ficará para a posteridade.
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