Da gaguez e da saia

Todos temos opiniões.

Umas mais fundamentadas, outras menos. Umas mais consensuais, outras não. Umas mais ponderadas, pensadas e pesadas, outras mais superficiais.

Eu costumo tê-las todas. Opiniões de todo o género pululam nesta cabeça. Ainda bem. Ou não vinha cá dizer nada.

Depois há assuntos sobre os quais não consigo ter uma opinião vincada. Fico presa nas colunas dos prós e contras. Como naquelas listas que fazia na adolescência, com riscos e tudo, para decidir se era boa ideia namorar com o João ou para escolher se levava as calças de ganga que me ficavam bem ou as que me permitiam respirar.

Comecemos pela Joacine e vamos depois à saia do seu assessor.

A deputada eleita pelo Livre dispensa apresentações. O que já de si é extraordinário, se pensarmos bem. Quantos deputados, muitos deles já com várias legislaturas em carteira, conhecemos?

Claro que provavelmente não os conhecemos porque esses outros deputados não são gagos.

E a Joacine é mesmo muito gaga. Não aquele gaguez que nos faz morder a língua, porque estamos impelidos a acabar a palavra. Não. É aquela gaguez profunda, com sons quase cinematográficos – quem ainda não viu um vídeo desses -, que nos deixa confrangidos e querer desviar o olhar, ao mesmo tempo que aflitos a querer ajudar de alguma forma, para acabar com aquele sofrimento.

E pior, que nos faz perder o raciocínio do que ela quer dizer.

E a oratória é, ou pelo menos deve ser, um instrumento de trabalho basilar dum deputado, sob pena de não poder veicular de forma adequada as ideias que defende. Porque é por isso que está lá.

Portanto, temos uma gaga profunda no Parlamento. E agora?

Pois, parece-me que agora nada. Foi legitimamente eleita e é lá que pertence. Gaga ou não.

Se é uma situação ideal? Não me parece. Se é legítimo e inevitável? Parece-me que sim.

E isto leva-nos à outra questão: deverá ter tolerância ou majoração nos tempos de intervenção pela sua perturbação de fluência da fala? Sim, perturbação de fluência da fala sou eu a ser politicamente correta.

Não vejo como não.

É como se dissessem ao deputado paraplégico que tem de subir os degraus do Parlamento. Sem rampas. Porque todos os outros deputado sobem.

Tratar de forma igual o que é igual e desigualmente na medida da sua desigualdade, como expoente e manifestação necessária do próprio direito da igualdade.

Deixemos então a Joacine na sua luta e vamos então à saia do seu assessor.

Entrou um homem de saia no Parlamento. Não sei bem o que pensar sobre isso.

Não me choca, obviamente. Porque esse tipo de coisas nunca me vai chocar.

Porque ele é que usou, fazendo uso da sua liberdade individual e como manifestação da sua personalidade. Porque não é ofensivo nem lesivo do direito de ninguém.

Porque durante séculos os homens usaram saias. Porque as primeiras mulheres a usar calças foram apontadas, ostracizadas e criticadas por quase todos os setores da sociedade. Porque não era natural, não era próprio e só as “machas” é que as usavam. Que ridículo que isso parece agora.

Mas depois há o reverso da medalha. Não podemos ignorar que vivemos numa sociedade, com normas e regras, com usos e costumes. E que o Parlamento não será o local indicado para romper com essas normas, mormente quando no exercício de funções públicas.

Quanto mais não seja, porque desvia a atenção para o que não deve ser o foco da atenção. Porque passamos do essencial para o acessório. Porque, a usar saia não vai ser levado a sério e porque, quer ele queira que não, fá-lo para chamar a atenção. Uma injustiça? Talvez. Contudo, uma inevitabilidade.

Por isso não sei.

Não sei se será ideal termos uma deputada que não consegue de forma eficaz e fluente expor as ideias que a fizeram eleger.

Sei, no entanto, que ela agir como se fosse – e fazer disso bandeira – a primeira mulher ou a primeira negra a ser eleita para o Parlamento, como se tivesse descoberto a pólvora, é absolutamente enervante. Mas isso já é outro assunto.

Não sei se o seu assessor levar uma saia, ao arrepio dos costumes, num momento que sabia mediático, é uma afirmação corajosa ou uma chamada de atenção desnecessária.

Sei que gostava de viver numa sociedade em que uma deputada ser profundamente gaga só significaria que teríamos de adaptar as regras de intervenção a esta realidade. Que, ao olharmos para um homem de saia, ninguém pensaria nisso duas vezes. Que, quando muito, alguém pudesse achar que aqueles sapatos não ficavam bem no coordenado.

Mas a sociedade ainda não está aí. Eu ainda não estou aí. Infelizmente.

Por isso não sei.

Ainda tinha esperança que, ao escrever, tivesse uma epifania e chegasse a uma conclusão clara.

Mas não. Fiquei na mesma.

Foi tão útil como as listas que fazia na adolescência. Por isso é que em vez de namorar com o João, namorei com o Pedro e que, em vez de calças de ganga, usei saia. Porque me ficava bem e me deixava respirar.