Caixa Geral de Comissões – receita para milionários prémios de produtividade

Abel Torres

A associação de defesa dos consumidores Deco critica a decisão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) de alterar os seus preços, aumentando os encargos das contas mais baratas, ao mesmo tempo que reduz as comissões das contas de clientes com maior património. De acordo com Nuno Rico, da Deco, “É lamentável esta decisão da Caixa Geral de Depósitos” de penalizar contas mais baratas e baixar preços a clientes com mais rendimentos.

A mesma associação receia que outros bancos sigam a decisão do banco estatal de atualizar os seus preçários de forma que a Deco classifica, e bem,  como “injustificada e desproporcionada”

porque “por um lado temos um aumento de 14% dos custos da conta Sénior, que foi apresentada como uma alternativa com custos mais baixos e depois temos uma descida de 30% para os clientes que têm maior património financeiro“, conforme declarou o responsável da Deco, admitindo que outras entidades financeiras poderão seguir o caminho do banco estatal, o maior do sistema financeiro português. “Quando um aumenta, depois temos um conjunto de outros bancos a seguir”, sublinhou o economista.

Em causa está a decisão da CGD de subir o custo mensal da Conta S em 14%, de 2,8 para 3,2 euros mensais. Porém, clientes que tenham um património superior a 50 mil euros ou domiciliação de ordenados acima de 2250 euros mensais irão beneficiar de uma descida de 30% no custo da conta, de 7 para 5 euros mensais. Veja-se a “rigorosíssima” noção de proporcionalidade e de justiça!!!

Não satisfeita com o seu “quero, posso e mando”, a CGD decidiu também passar a cobrar uma comissão de 88,4 cêntimos em cada transferência MBWay, a partir de 25 de janeiro.

Quando questionado sobre o aumento de comissões na Caixa, que afeta sobretudo os mais idosos, que ainda se vêm obrigados a pagar a recapitalização da Caixa, quando deveriam estar protegidos na estratégia da empresa aprovada pelo acionista Estado, o primeiro-ministro  respondeu que o acionista Estado não deve imiscuir-se nos atos de gestão do banco público. Importa-se de repetir??? Nem aqui, nem em Marte. Em bom rigor, o Governo não pode continuar a colocar-se na posição de que existe um regulador e, por isso, persistir em não intervir na gestão do banco público, impedindo que se mantenha uma gestão de natureza privada, que mais não foi que a verdadeira responsável pelo processo de reestruturação em curso.

Certo, isso sim, seria a CGD centrar-se na atividade bancária, na captação de poupanças e empréstimos, prioritariamente para o apoio às famílias e à economia, privilegiando as Pequenas e Médias Empresas, e não procurar resultados pela via mais fácil.

A ajudar à “festa”, Paulo Macedo tem vindo a revelar-se olimpicamente um administrador “de mão cheia”. Cada vez que é preciso esmifrar os portugueses, nas finanças, na saúde, e agora na CGD, os sucessivos governos vão buscar Macedo, que por onde passa deixa sempre um rasto de “cobrador de fraque”. Bem feitinhas as contas, os contribuintes financiam a CGD duas vezes: por fora, com a injeção a fundo perdido de 4 mil milhões de euros; por dentro, em comissões.

E quais são as “geniais” medidas de Macedo? Elementar, caro Macedo! Reduzir balcões, despedir trabalhadores, diminuir os juros dos depósitos e aumentar as comissões. Logo, logo, virão os milionários prémios de produtividade!!! Merecidíssimos!!! Assim, também eu!!!

Como se não bastasse, os efeitos das medidas fazem-se sentir no imediato. O tempo de espera e atendimento que se verifica em todas as Caixas é mais que sensível e absolutamente lamentável. Não olhar a meios para que sejam os clientes da CGD a pagar os desmandos dos gestores anteriores durante pelo menos duas décadas, quando deveriam ser os contribuintes, não deixa Paulo Macedo bem na fotografia, mas isso é coisa de somenos. O que importa é cumprir o objetivo. A bem ou a mal. Mais a bem que a mal. Pagar os cinco mil milhões roubados, continuando a deixar de fora a ladroagem graúda que os subtraiu é que está nos reais propósitos.

Por um lado, entendeu o Governo que era fundamental impor à Administração pagar salários e benesses exponenciais para aproximar-se de uma empresa privada, sendo que não há “despedimentos”, só “mútuo acordo”. Por outro, e quanto aos “respeitadíssimos” depositantes, em lugar de serem remunerados pelos depósitos, ainda têm de pagar por terem dinheiro. Nada mais justo e compensador!!! A continuar o esbulho, o regresso ao passado do colchão e cofres pessoais parece ter muito futuro.

Macedo tem como meta aumentar as receitas provenientes das comissões em 100 milhões de euros até 2020, de forma a cumprir o plano acordado com a Comissão Europeia na recapitalização do banco, o que tem vindo a ter generosa correspondência nas centenas de milhões milhões com comissões líquidas, o que faz parecer angelicais  bancos na nossa praça que até são menos gulosos que a CGD.

Porém, se fosse possível a toda a gente (que tivesse essa mais que legítima vontade) transferir o que tem na CGD para outro banco e encerrasse a conta, a CGD e Paulo Macedo ficariam a “piar” mais fininho. O problema é que a maioria dos clientes não pode “bater em retirada” deste “fogo cruzado”.

Poderão perguntar: mas, então, a CGD é uma imposição a alguém?! Só é lá cliente quem quer, não será? E se não quiser, que mude. Que pague forte e feio, subindo ainda mais o preçário dos serviços e operações, dirão os adeptos da cegueira da privatização, que tanto “SUCESSO” tem feito com a TAP, com os CTT, com a energia entregue aos chineses, entre outros “edificantes exemplos”.

O problema é que muitas famílias estão reféns da Caixa, por via da prestação da casa ou do carro, e não têm como escapar a esta estratégia de cerco legalizada.  Quem contratou empréstimos à habitação, por 20, 30, 40 anos, com condições (comissões e afins),  está inevitavelmente sujeito à “extorsão” e à mudança das “regras do jogo” quando a Caixa quer, porque quer e como quer. Ele é “livre-trânsito” para subtrair dinheiro porque as pessoas não podem mudar facilmente o empréstimo, sob pena de serem insuportavelmente pressionados e sufocados com custos, chatices, burocracias, entre outros entraves, que lhes fazem da vida um verdadeiro Inferno.

Sim, sem dúvida que a Caixa sabe perfeitamente com quem está a lidar e há muito que tem conhecimento, quase “de raposa a guardar o galinheiro”, de que a maioria dos clientes não tem escapatória, razão pela qual usa e abusa, contando alegremente com a mal disfarçada conivência do poder político.

Em suma, enquanto alguns se ocupam de massacrar os desprotegidos, outros garantem a cobertura dos assaltos de colarinho-branco à Caixa, numa espécie de modelo de negócio de “cobrança de proteção”, à maneira dos Dons Corleones desta vida.

Uma coisa é certa: alguém tem de pagar as centenas de milhões do golpe que, alegadamente, Berardo deu à CGD. Tudo em nome de piedosa caridade, pois, como bem se sabe e  se “chora de cara lavada”, afinal o senhor Joe (ou será Jó?) só tem uma estreitinha garagem, mas ainda assim sempre vai conseguindo pagar (com as necessidades e misérias que só Deus é que sabe que os “indigentes” passam) um poucochinho de renda de casa, o que naturalmente não estica para loucuras, tais como jantar fora todos os dias, ter carruagem de luxo e motorista sempre à porta do restaurante de contas “gourmet” ou do hotel mais estrelado, entre outras excentricidades milionárias que Berardo desconhece em absoluto…!

E que dizer dos pensionistas mais velhos que não estão informados a respeito das contas de serviços mínimos e não sabem/podem/têm condições para mudar de instituição?

E que dizer das povoações onde só há um balcão (CGD)? Ou vão ao balcão da Caixa, ou vão ao  balcão da Caixa. Têm sempre alternativa! Enquanto ainda houver balcão… É que por este andar, balcão é já uma “espécie” em risco de velocíssima extinção.