Crónica de viagens: em Ambom, onde o madeirense Jordão de Freitas foi rei

Forte Amesterdão

Amboina ou Ambon é uma ilha do arquipélago das Molucas. Foi descoberta em 1512 pelos portugueses António Abreu e Francisco Abreu. Evangelizada em meados do século XVI por São Francisco Xavier, teve o madeirense Jordão de Freitas como rei, na sucessão do anterior, morto em Malaca. Ou não fosse esta conhecida como a Ilha dos Reis.

Casa do governo de Maluku.

Cheguei a Ambon de avião, e na aproximação da aterragem, contemplei através da janela da aeronave a beleza das águas cristalinas. Eram de tal modo que me interroguei se este não é de facto o Éden bíblico e idílico. Ao olhar ao redor, foi como se estivesse abraçando um mar de água tão transparente que não parece real. Dentro de minutos os meus pés já estão num novo território das Molucas, um paraíso na terra. Já com o cheiro da pimenta preta, cravo e noz-moscada, estou, como na Madeira, rodeado de novo pelo mar, mas numa realidade bem diferente. Recuso-me a trabalhar: vou desfrutar de mergulho nestas águas tépidas e cristalinas, com os peixes a quererem beijar os meus dedos dos pés. Afinal, o ilustre Magalhães deixou a sua vida pelo caminho, querendo chegar às suas margens. Sinto-me como peixe na água a navegar por este arquipélago labiríntico repleto de corais, um autêntico firmamento para as estrelas do mar. Estou nas “Ilha das especiarias”. Com um pequeno exercício de imaginação, sinto-me como um comerciante indiano nestas rotas.

Forte Amesterdão.

Molucas vem do árabe Jazirat al-Muluk, isto é, “Ilha dos Reis”. Para mim a geografia é salão que me espera e onde os meus sonhos se realizam. Tudo o que vejo ao meu redor é exótico, desde os mercados cheios de peixe fresco, frutas e legumes. É difícil descrever toda esta beleza criada por Deus. Ficam as fotos para que os leitores possam desfrutar do que não consigo transmitir em palavras.

Jovens islâmicas.

Voltemos à História. Fomos à procura de construções portuguesas. As portas da Vitória são reconstruções holandesas do século XVIII (VOC) e “restauradas” recentemente ao gosto “Disnelândia”, mas pelo perímetro, subsistem portas, cisternas e baluartes reconstruídos também pelos holandeses e com inúmeras inscrições, sobre as estruturas portuguesas.

Francisco Serrão.

Fomos os primeiros a cá chegar e a evangelizar. De facto, s portugueses nunca tiveram sucesso em controlar totalmente o comércio regional das especiarias, assim como não conseguiram estabelecer a sua autoridade sobre as Ilhas Banda, o centro vizinho produtor de noz moscada, para proteger os cristãos e cobrir o comércio de especiarias para Java. Em Amboina, os esforços lusos foram minados por ataques dos nativos islamizados da costa norte da ilha nomeadamente de Hitu. Ainda assim, uma feitoria foi estabelecida em 1521, mas não houve paz até 1580.

Jordão de Freitas ergueu em 1544, em Ative, principal núcleo cristão de Amboino, uma fortificação de madeira. Entre 1546 e 1547 o jesuíta São Francisco Xavier lançou as bases de uma missão em Amboíno ,assim como Morotai e Ternate.
Monumento aos heróis, Patimura.
Com base na Wikipedia, minha fonte de documentação, fui-me informando, uma vez que em Ambon não existe documentação que fale da sua história .Viajámos numa aventura para norte da ilha, em busca do Forte português de Nossa Senhora da Anunciação   Português embora tivéssemos quase a certeza de que esta estrutura não existia. A viagem acabou por ser agradável, ao som de umas musicas dos anos 60 “Oh Carol do Paul Anka”, de 1959  e “Speedy Gonzalez” de Pat Boone, postas a tocar pelo condutor que me levou por uma estrada semelhante aos caminhos da Madeira velha, com curva e contra curva, pelo meio de uma arborização muito intensa.
Não, não é a ponte do Rio Kwai, mas o meu caminho de ida ao forte, ao som de Paul Anka…
Afinal era a fortificação era o Forte Amesterdão, e não o que procurava. O encarregado desta estrutura, no entanto, garantiu-me que era este o local onde estava o forte português, que tinha sido destruído. Segundo ele, os holandeses construíram nas bases da estrutura portuguesa .Nao sou historiador, e muito menos com conhecimentos especializados em fortalezas. Simplesmente interesso-me pela presença portuguesa nestas paragens distantes. Fotografei de todos os ângulos e regressei ao escritório anexo ao forte para assinar o livro de honra com a minha identificação e dar um donativo.
Forte Vitória, estrutura militar.
Por fim, tive uma surpresa: fui convidado a deslocar-me ao interior do escritório, onde se encontrava uma imagem de Francisco Serrão, o primeiro português a chegar às Molucas. Sempre é um indício de que a presença portuguesa não foi completamente esquecida. No centro da cidade de Ambon existe uma estrutura militar que tem algumas paredes laterais de um antigo forte, e que se chama Vitória. Porém, como é uma estrutura militar fomos impedidos de fotografar, com grande aparato. Não desisti e como tenho sempre na minha mochila uns souvenirs  da Madeira, desta vez  relativos aos 600 anos, “comprei” os militares com umas canetas, uns lápis e uns crachás em troca de uma foto do portão. Acabei por tirar seis, em disparo contínuo.
Monumento à paz mundial.
O final da tarde acabou por ser outra pequena aventura. Recorri a um meio de transporte curioso, um minibus conhecido por “kota”,  com o objectivo de visitar a Praia Pintu Kota. Durante o percurso neste transporte, muito parecido às antigas carrinhas Volkswagem “pãozinho de forma” com capacidade para oito pessoas, tive por companhia sete mulheres. Era eu o único homem.
As carrinhas tipo “pão de forma”…
…e o caótico trânsito.
As indonésias na sua maioria não falam inglês, mas mostrava-se curiosas por saber a minha nacionalidade. Mantive com elas um estrambólico diálogo em malaio, recorrendo às palavras de origem portuguesa, para designar sapato, manteiga, camisa ,cadeira, etc., cuja pronúncia é muito parecida à da nossa língua. Foi uma risada geral. Tudo para lhes dar a entender que muitas palavras portuguesas estão ainda presentes no seu dia-a-dia.
Rapariga em Pintu Kota

Falei-lhes também do madeirense Jordão de Freitas, rei de Ambon, título concedido pelo Sultão Tabaraji. Por coincidência, no interior do minibus encontrava-se uma mulher de certa idade, de sobrenome Freitas. Ainda és descendente do rei, disse-lhe. Mais umas risadas. E ainda há quem diga que as muçulmanas são muito recatadas. Ideias feitas.
Nas Molucas, encontramos placas como estas: via de evacuação em caso de erupção vulcânica…
…e em caso de tsunami.

O trânsito aqui é caótico e torna -se insuportável. Ninguém respeita as regras elementares do Código da Estrada. A moto é o veículo por excelência dos habitantes de Ambon, usado por mulheres e homens, circulando por todas as vias, entre as centenas de minibus multicolores, além das viaturas particulares e camiões. Uma nota merecida de destaque para as passadeiras com semáforos: são musicais. Isso mesmo: quando surge o verde para peões, automaticamente inicia-se uma música, somente cessando quando surge o vermelho e o verde abre para que veículos e motociclos circulem.

Os spots musicais não são canções indonésias, mas de outras nacionalidades, em especial sul-americanas, como “Guantamera” e outras. Dá vontade de rir.  Debaixo deste ritmo e de um calor e humidade insuportáveis, aceleramos o passo para outro lado. Fica aqui esta curiosidade… Como estamos nos 600 anos da descoberta do arquipélago da Madeira, e 100 anos do Max, porque não fazer os turistas atravessar a passadeira do Mercado dos Lavradores ou da Avenida do Mar ao som do “Toca a marchar o 31 “ou da “Pomba Branca” de Maximiano de Sousa?! Há cada uma…

Riquexó tradicional.