Crónica de Viagem: Nas Molucas, no rasto de Fernão de Magalhães

O sagrado canhão portugues de Si Ja Pur

No ano em que se comemoram os 600 anos da Madeira, e os 500 do início da viagem de Fernão de Magalhães, também eu lancei mim próprio um desafio: porque não uma viagem às Molucas, na senda da ambição circum-navegadora de Magalhães. Para a minha idade é estar no “fio da navalha”, um eremita-viajante tendo por companhia Camões, que nos diz  no Canto X de Os Lusíadas:

«Olha cá pelos mares do Oriente

Ás infinitas Ilhas espalhadas:

Vê Tidore e Ternate, co fervente
Cume, que lança as flamas ondeadas.
As árvores verás do cravo ardente,
Co sangue Português inda compradas.»

Lâminas na igreja de Santa Cruz, remetendo para a família de Jordão de Freitas

Já em território Indonésio, na capital Jacarta, após cerca de 24 horas que deixei a seguna Ilha descoberta pelos portugueses no Atlântico, assento arraiais durante pouco tempo. Uma maratona aérea que não alterou a minha agenda. Instalado no centro de Jacarta o meu objectivo era visitar o Museu Nacional, onde se encontra um padrão de Jordão de Freitas, natural de Santa Cruz que nasceu em 1487 e serviu na corte portuguesa. Á porta do hotel aguardava-me o meu habitual transporte, o tuk-tuk….

Museu de Jacarta: padrão português

Jacarta no idioma local significa “Fortaleza Gloriosa”. Foi fortificada pelo madeirense Jordão de Freitas, de que resta o padrão de Sunda Kalapa, com a inicial nome do lugar, datado de 1522 e com a esfera de D. João III. Neste museu também existe o sagrado canhão de Si Japur (Macau, Manuel Tavares Bocarro,1640 c.). No Museu das Cruzes há um porta-paz que nos que passa despercebido dos visitantes, mas que foi cedido a Santa Cruz por Jordão de Freitas. Uma sugestão: porque não homenagear estas figuras madeirenses ligadas á nossa história nestas comemorações dos 600 anos? Recordar o seu papel? Jordão de Freitas já foi alvo de estudos, inclusive publicados na revista da DRC, “Islenha”, da autoria de João José Abreu de Sousa.

Porta.paz do Museu das Cruzes, oferecido por Jordão de Freitas
Jordão de Freitas nasceu em Santa Cruz no ano 1487. Era filho de João Freitas Fidalgo da Casa  Real de El -Rei  D. Manuel bisneto materno de João Fernandes de Lordelo e de Isabel Teixeira, filha de de Tristão Vaz, primeiro Capitão Donatário de Machico. Casou com D. Maria da Silva, de quem teve um filho António de Freitas, que faleceu solteiro na Índia, segundo rezam as crónicas.

Este ilustre Madeirense notabilizou-se servindo El-Rei D. Manuel e D. João III e distinguiu-se em África  e na Índia, quer capitaneando naus e fortalezas, quer lutando esforçadamente contra os inimigos de Portugal. Não admira que Manuel Tomás assim o cantasse na «Insulana»: «César nas armas bem afortunado será Jordão de Freitas militando, Por valor alto, em brios sinalando; Em empresas, que várias foram tentando; do Grão Rei das Malucas, tão presado, Em seu prudente zelo então pagando Lhe dota de Ternate o Senhorio , Favor bem merecido de seu brio».
Catedral de Jacarta
Em 1517 deixou Santa Cruz  e embarcou para o Reino e depois para África. Bateu-se contra os mouros e tão valorosamente por lá se portou que El-Rei D.Manuel lhe entregou a capitania de cidade de Safim, onde serviu muitos anos, como capitão e governador. Foi em África que Jordão de Freitas casou com D. Maria da Silva, nos fins do primeiro quartel do século XVI. O seu primogénito António de Freitas nasceu antes de 1528, ano em que Jordão de Freitas partiu para a Índia na armada. Passou a sua lua-de-mel no Benim, paragens por onde também já andei…
Entre 1530 e 1536 participou nas lutas contra os rumes (mercenários turcos) realizando várias viagens à Molucas, onde travou relações com Tabarija, rei de Ternate. Acaba por se transformar em senhor das ilhas de Amboino e Sião, numa doação assinada em Goa em 1537. Regressa a Santa Cruz-Madeira em 1539. Volta a Lisboa em 1543, recebendo a capitania de Maluco, onde chegara em 1544.
Interior da catedral
O filho de Jordão de Freitas, Gonçalo de Freitas, que também serviu na Índia, acabou os seus dias em Santa Cruz e fez à igreja local doação de boas peças da Índia. O próprio Jordão de Freitas fez a doação de um porta paz  em prata dourada, hoje  existente no Museu das Cruzes Funchal. Os especialistas salientam que este objecto tem o seu sentido precioso exponenciado pela aplicação, em disposição simétrica de engastes de gola de grandes dimensões que guardam grandes cabochões de granadas, safiras, ametistas e uma ágata. No verso do engaste do cabochão observam-se gravadas as armas dos Freitas, idênticas ás que se podem ver na sepultura laminada na capela mor da Matriz de Santa Cruz de João Freitas e de Guiomar de Lordelo. e a circundar o verso da peça surge a inscrição IVRDAM DE FREITAS.
Mesquita de Jacarta: aqui assisti de tribuna a uma oração reservada apenas às mulheres. O número de fiéis muçulmanas, como se nota, é muito maior que as católicas.
Na Igreja de Santa Cruz encontra-se a lâmina sepulcral de João de Freitas e de sua mulher Guiomar Lordelo, oficina flamenga  c. 1533-1544, As lâminas expostas encontravam-se embutidas na moldura e ao centro de uma laje de pedra calcária de Muse sobre a sepultura de João de Freitas e de Guiomar, sua mulher na capela mor na Igreja de Santa Cruz. São executadas em latão ,sendo três epigrafas e uma brasonada. Aquelas têm gravado em relevo, no sentido dos ponteiros do relógio, sobre um fundo xadrezado e emoldurado, a seguinte inscrição SEPULTURA / DE IHOÂO DE FREYTAS / E DE / ; São acantonadas  por medalhões quadrilobados  com a representação dos símbolos dos quatro evangelistas. A inscrição está incompleta, pois continuava numa quarta lâmina ,desaparecida com o nome de Guiomar de Lordelo .
Imagens curiosas captadas em Jacarta, na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo.
Por toda esta grandiosidade deste ilustre filho da terra, e estando a decorrer as comemorações dos 600 anos da descoberta da da Madeira, tendo como centro destas festividades o município vizinho de Machico, daqui do Oriente, por onde ele andou, alerto: porque não um busto, uma placa nos jardins anexos à matriz de Santa Cruz de Jordão de Freitas, esta figura que honra a história da Madeira?

Entretanto, abordemos um pouco de história para sabermos a importância das Molucas:

Uma questão litigiosa, conhecida por “Questão das Molucas”, foi levantada entre D. João III, rei de Portugal, e Carlos V, imperador da Espanha, à voltad os direitos de posse das Molucas.
A Espanha fora informada por Portugal da conquista de Malaca e da descoberta das ilhas Molucas, numa altura em que muitose especulava sobre os lucros do comércio das especiarias que começavam a chegar à capital portuguesa. Estes lucros eram cobiçados pela Espanha. Esta, em segredo, preparou uma armada que,em Agosto de 1519, partiu de Sevilha para atingir as Molucas pelo ocidente. Esta armada, comandada por Fernão de Magalhães, um navegador português, era constituída por cino navios e tinha uma tripulação de 237 homens.
Também há templos budistas, E nestes, a largada de passarinhos pode ser paga, como uma oferenda.
Todas estas notícias chegaram até aos Portugueses, que, embora a tentassem boicotar, não impossibilitaram a chegada dos navios às ilhas Molucas, onde os espanhóis se abasteceram de especiarias, que trouxeram para Espanha em 1522.
D. João III protestou contra este comércio e contra esta navegação em território português à luz das determinações do Tratado de Tordesilhas, através do seu embaixador junto do imperador Carlos V. Este considerava que as Molucas lhe pertenciam, e por esse motivo tentou chegar a um acordo, propondo para esse efeito como mediador do conflito o Papa Adriano VI. Apesar da sua intervenção, a contenda prolongou-se, sendo agravada pela apresentação de argumentos por ambas as partes e pelos interesses pessoais, intrigas e cobiças que esta questão levantava.
A questão começou a ser resolvida por vias diplomáticas na Conferência de Badajoz e foi concluída com o Tratado de Saragoça, em 1529.
Templo budista
Por ele, as ilhas Molucas, Malucas ou de Camela, como foram conhecidas, passaram a integrar, em definitivo, os domínios de Portugal, embora este tivesse de pagar uma avultada indemnização por se considerar (erradamente) que as ilhas ficavam em território da Espanha. Todavia, o usufruto das ilhas em termos económicos foi pequeno e o negócio revelou-se um “fiasco” para Portugal.
Porém, não estou aqui no Oriente à procura da localização exacta do antimeridiano de Tordesilhas que dívidia o mundo ao meio e que se situava nos antípodas das Américas, ou seja, no Extremo Oriente, dividindo as Molucas ao meio. Vou iniciar uma viagem para as ilhas das Especiarias de modo descontraído.
Monumento nacional à “glória da Indonésia”. No seu interior está um museu.
A maioria dos turistas não conhece Jacarta: praticamente só o aeroporto, aguardando voo para Bali. Porém, nesta capital vivem 10 milhões de habitantes é vale a pena ver esta urbe grande e caótica, com ruas cheias de motorizadas por  todos os lados. Faço questão de conhecer cada lugar por onde passo e reservei três dias para conhecer esta “Fortaleza Gloriosa” e os seus museus!
Jacarta é uma cidade segura, mesmo com a máquina fotográfica ao pescoço. O maior cuidado é não ser atropelado. Fiz algumas visitas ao Monumento Nacional que celebra a independência do país, o MONAS, que devido ao seu formato, ficou popular e jocosamente conhecido  como “A última erecção de Sukarno” presidente que o inaugurou.
Museu Nacional
Fica no centro de uma bonita praça e tem um museu anexo. É possível subir ao topo do monumento , pagando. Ao lado temos o Museu Nacional com 4 andares.
Ali há também uma mesquita com lugar para 200 mil pessoas a maior do sudoeste asiático e a terceira maior do mundo. Foi construda em frente à igreja católica, como forma de mostrar que as religiões podem conviver pacificamente na iIndonésia. Aliás, foi construda por um arquite´cto cristão.
Culinária: rãs à venda em Chinatown
A herança do período colonial, a Catedral de Jacarta, possui uma bonita arquitectura e foi erguida em 1901. A uma pequena caminhada de distância está o bairro Glodok a Chinatown de Jacarta. Aqui há uma feira movimentada com artigos exóticos. É mesmo possível comprar rãs vivas para cozinhar. Nesta rua estão dois templos budistas. Há centros comerciais de luxo em edifícios altíssimos.
Quadro vivo, no Museu. A lengenda diz: “Em 1522 o rei Pajajaran assinou um tratado com Henrique Leme, que dava aos portugueses o direito de construir uma fortaleza em Sunda Kelapa. Para evitar a influência portuguesa, o sultão Trengonno de Demak enviou Fatahillah a Java Ocidental com um exército e em 1527 Fatahillah conseguiu ocupar o porto de Sunda Kelapa. O cerco da baía de Sunda Kelapa começou quando os portugueses tentaram desembarcar à força para construir a fortaleza. Fatahillah derrotou a frota portuguesa a 22 de Junho de 1527 e o nome de Sunda Kelapa foi mudado para Jayakarta, que significa “cidade da vitória”.

O primeiro português que aqui chegou, Francisco Serrão, nunca mais pensou ir embora. Para quê regressar… Francisco Serrão acordava de manhã cedo, descia do palácio até à orla do mar, mergulhava nestas águas esmeraldas, olhava a perspectiva sobre o vulcão que regula o olhar de todos os homens das «Ilhas das Especiarias» desde sempre, respirava fundo mergulhava, feliz da vida. Será esse também o meu objetivo! Já no aeroporto, com destino a Ternate, no meu olfacto tenho a sensação de estar na presença do cravinho e da noz-moscada. São 3h05  de voo com a visibilidade acinzentada, talvez pelas poeiras de alguns vulcões em actividade. Em todo o caso faz-se aqui sentir uma forte neblina.
As artes da pesca