José Manuel Coelho diz que Albuquerque é igual a Jardim e que Cafôfo não é a mudança mas o mal menor para fazer cair o PSD

José Manuel Coelho
“O voto de protesto é casual, não é permanente, tem um momento, vale para altura. O eleitorado desencantou-se e votou em mim, fui uma válvula de escape da população”. Foto Rui Marote

José Manuel Coelho tem o seu nome ligado à atividade política madeirense, naquela componente mais revolucionária, mais musculada, de oposição. A forma, mais do que o contéudo, levou-o a patamares de discussão pública inigualáveis, foi protagonista de episódios, vários, no Parlamento Regional, para passar a mensagem de crítica contra o sistema, com alvos definidos, ontem como hoje, nisso o seu posicionamento não mudou. Há quem goste, há quem não goste, não é uma figura que gere consensos, nem próximo disso. Contra o poder político, antes de Jardim, agora de Albuquerque, contra grupos económicos, contra a Justiça.

O efeito surpresa

No enquadramento de entrevistas que o FN vem desenvolvendo com políticos que já foram cabeças de lista nas Legislativas Regionais, surge a figura que ganhou protagonismo pelo efeito surpresa, a novidade, juntou-se ao protesto do eleitorado, essa “mistura” levou-o à eleição quando em 2011 foi cabeça de lista pelo PTP às “Regionais” e elegeu três deputados, foi Coelho e mais dois, a sua filha Raquel Coelho e José Rocha. Um feito que, a esta distância, coloca no lugar que, na realidade teve, “um voto de protesto tem o seu tempo”, reage como quem tem noção do que é a política e o voto volátil do momento e dos fenómenos. “Olhe o que se passou com o PAN, nas europeias, que elegeu um eurodeputado”, lembra para quem estiver menos atento a estas alterações comportamentais do eleitorado, para explicar que estes resultados podem ter dias contados.

“A política é como no futebol, vem um treinador faz um bom trabalho e ganha, mas na época seguinte pode não ter o mesmo sucesso e vai de santo a diabo. Eu captava o voto de protesto, por parte das pessoas que estavam desencantadas com os partidos do sistema. Mas o voto de protesto é casual, não é permanente, tem um momento, vale para altura. O eleitorado desencantou-se e votou em mim, fui uma válvula de escape da população”.

Não estou desencantado, sei que é assim

José Manuel Coelho sabe aquilo que são as “regras do jogo eleitoral”, sabe que são o que são e nada é para sempre. Estará desencantado? “Nada disso, não estou desencantado. Sei que é assim mesmo. Veja o que se passa agora, as pessoas estão na expetativa da eleição do PS e do seu candidato Paulo Cafôfo, não vai mudar nada porque também estão comprometidos com os grandes grupos económicos, como se prova com a passagem de um técnico do grupo Sousa para fazer a campanha por Cafôfo. Não vai mudar nada, Albuquerque também cedeu a este grupo económico quando afastou o secretário Eduardo de Jesus e quando este achou estranho a exploração de portos sem pagar um cêntimo, nem nos países do terceiro mundo. E nisto, mesmo com Cafôfo, não muda”.

Comunicação social dominada, os dois jornais muito iguais

Coelho está, como sempre esteve, contra o sistema. Define alvos, que são os de outrora, “mudam os nomes mas as políticas mantêm-se”. Albuquerque igual a Jardim, grupos económicos com supremacia de influência sobre o poder político, comunicação social “dominada”, os dois jornais “estão muito iguais”, poder judicial fragilizado. Um retrato de um homem que enfrenta vários processos, que tem a reforma parcialmente penhorada e ainda tem um grande percurso para fazer nos corredores dos tribunais. Já nem se lembra quando começou, não sabe quando isto acaba. Mas deixar de lutar, nunca. Vêm aí eleições importantes, as regionais e as nacionais. Não vai com Albuquerque, não vai com Cafôfo. Vai pelo mal menor, por aquilo a que podemos chamar de voto estratégico, não quer manter o PSD-Madeira no poder e por isso, se Cafôfo ganhar, fica meio objetivo conseguido. Mais ou menos isto. Não quer os dois, mas um pode ir se for para afastar o PSD do poder.

Regionais 2019

“Uma coisa é certa, o PSD tem que cair. Já está há muitos anos no poder e estão arrogantes. Olhe, o partido Juntos Pelo Povo conquistou o impensável, o que nenhum outro partido tinha conseguido, ganhou as eleições em Santa Cruz e já se respira outro ar. A gente sabe que é difícil o Paulo Cafôfo ganhar, mas se houver uma alternativa concertada em setembro, é positivo para acabar com a perseguição às pessoas e esta asfixia”, diz José Manuel Coelho.

Desistir, nunca. Como diz, com determinação que lhe é peculiar. “Mário Soares dizia que só está derrotado aquele que desiste de lutar. E sigo esse princípio. Veja o Miterrand, que concorreu tantas vezes e perdeu até que teve o seu momento de glória. A persistência é qualidade de um lutador, de um revolucionário. Como dizia Betolt Brecht, dos lutadores, ganharão a batalha os que estiverem menos cansados. Eu espero ganhar a luta, sou o menos cansado”.

Era difícil ao PTP encontrar uma mulher para candidata

Olha para 2011 e para o momento alto do PTP, com votos suficientes para eleger três deputados. Para quem diz que “meteu” a filha, esclarece que foi uma terceira escolha depois de falhar as duas opções anteriores, ambas mulheres devido à lei da paridade, mas envolvendo desistências. “As pressões exercidas eram muitas, não só sobre os eventuais candidatos mas também sobre familiares. A filha, Raquel Coelho, foi a alternativa encontrada para contornar a situação. “Era difícil encontrar uma mulher que assumisse esse compromisso, uma vez que na altura eu estava em alta e havia uma forte possibilidade de eleger deputados. Não era para eleger e depois as pessoas desistirem”.

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José Manuel Coelho diz que “a abertura da “panela de pressão” não se dá quando o revolucionário quer, mas sim quando estão reunidas as circunstâncias. Ainda não estão, mas um dia, quando o povo quiser, leva tudo à frente”. Foto Rui Marote

Partidos do arco do poder “não prestam”

José Manuel Coelho diz que os pressupostos que levaram a essa candidatura, são muito atuais. “A Madeira precisa de alguém fora dos partidos do sistema. Os partidos do chamado arco do poder, PSD, PS e CDS, não prestam, são mais do mesmo, estão feitos com os grandes grupos económicos, recebem dinheiro das empresas para as campanhas e, por isso, nunca vão contra isso. Os interesses de dois ou três grandes empresários da Região vêm colidir com a própria economia do arquipélago”.

Fala nos portos, como sempre falou. Nem sabia que tinha a reforma penhorada para pagar ao grupo Sousa, num dos processos que teve pela frente. Mas tem. Não poupa, por isso, aquele grupo empresarial, diz que o monopólio dos portos “faz com que os custos de produção das pequenas e médias empresas subam. Os custos de transporte de mercadorias de e para a ilha, são elevadíssimos. E os madeirenses não podem suportar este fardo. No continente, tanto faz, existem alternativas pelo meio terrestre, mas aqui é tudo diferente, não temos essa alternativa”.

Politicamente falando, não tem dúvidas que “não há democracia na Madeira, Albuquerque é igual a Jardim. Até havia um blogue “os renovadinhos”, que atacava o Miguel Albuquerque e de repente deixou de atacar. Albuquerque e Jardim fizeram as pazes, mas não sei se já vêm tarde.

Não tarda muito para haver colapso em Portugal

Já naquilo que tem a ver com o eventual regresso de uma certa imagem de marca de José Manuel Coelho, de que o relógio ao peito é um dos momentos de “choque”, vai depender das circunstâncias. Coelho diz que “quando o povo é muito oprimido, às vezes rebenta. Uma rutura da sociedade dá-se com dois pressupostos, quando os de cima já não podem e os de baixo já não querem. Os de cima podem, têm as polícias, no mar para os pescadores e em terra para os trabalhadores, a Autoridade Tributária cada vez mais perfeita nos impostos e nas penhoras. Tem centenas de agentes de execução que só trabalham para as telefónicas. A máquina quer é extorquir dinheiro, cada vez mais. E chega a uma altura em que a panela de pressão abre”.

José Manuel Coelho diz que a abertura da “panela de pressão” não se dá quando o revolucionário quer, mas sim quando estão reunidas as circunstâncias. Ainda não estão, mas um dia, quando o povo quiser, leva tudo à frente e dá-se um colapso total na sociedade. Não tarda muito para haver um colapso em Portugal”.

Diz que, hoje, “já andamos pelo campo e não há trabalho se não for no Estado patrão, que não pode dar trabalho a toda a gente e deixa milhares de pessoas à margem. Um dia, esses que estão à margem ficam sem comer e revoltam-se”.