Aeroflot – Salvar as malas ou a vida?

Há duas semanas um Sukhoi Superjet da Aeroflot fez uma aterragem de emergência em Moscovo Sheremetyevo, carregando 75 passageiros, 2 pilotos e 3 tripulantes de cabine. Teve um desfecho calamitoso onde pereceram 41 pessoas.

(SSJ 100. Fonte: Aeroflot)

A entidade russa responsável pela investigação, já conseguiu ler os dados de ambas as “caixas negras” e divulgou alguns dados interessantes durante o fim de semana passado.

Recapitulando: Segundo comunicou o piloto, logo após a descolagem o avião foi atingido por um relâmpago, que provocou danos nos sistemas de comunicação, e induziu degradação funcional no Sistema de Controlo de Voo.

O comandante decidiu regressar ao aeroporto, de imediato, apesar de estar demasiado pesado para aterrar. A voar em modo manual, porque o piloto automático desligou-se, na aproximação o sistema de deteção de Windshear deu um alerta sonoro para “borregar”. Ou seja, indicação para não aterrar devido a ventos fortes e de direção variável, tal como sucede por vezes cá na Madeira. Ao aterrar tocou no chão uma vez com ambos os trens, e regressou ao ar. Tocou uma segunda vez com o trem do nariz, e voltou ao ar a uma altitude 6 metros, novamente sem os “spoilers” ativados porque a ativação automática não ocorreu, devido ao problema técnico.

Tocou uma terceira vez de maneira violenta. Nesta, o trem principal colapsou, dá-se uma fuga de combustível, e a cauda arrasta-se pelo asfalto, com as chamas rapidamente a envolverem toda a traseira da aeronave. Não havendo saídas de emergência por cima das asas, só restavam as portas da frente para a evacuação.  Mal abertas, os slides estenderam-se, e começaram os passageiros a sair. Nesse momento o fogo intenso já envolvia toda a metade traseira do avião. É desesperante ver a cadência lenta dos passageiros a deslizar, com as malas na mão.

A especulação possível, num “mindset” saudável, incide sobre duas linhas de análise. O processo de evacuação e segurança intrínseca deste modelo de aeronave.

A mais polémica é a questão de os passageiros terem o impulso de agarrar as malas antes de evacuar, empatando o que deve demorar menos de dois minutos, limitando as hipóteses de sobrevivência dos outros, correndo o risco de morrerem eles mesmo. É obrigatório, por lei, cumprir com as ordens da tripulação, quando estas se justificam pela segurança de voo. Mas será aceitável punir pessoas em pânico, numa situação de aflição em que são também vítimas sem qualquer responsabilidade? Será que sequer lhes foi comunicada intenção de evacuar? Ou mesmo de deixar a bagagem a bordo? Estaria sequer essa indicação no safety card, em mencionada durante alguma comunicação da tripulação? Desafio o leitor a encontrar um safety card, de qualquer companhia ou tipo avião, que explicite de maneira evidente a obrigatoriedade de deixar os objetos a bordo durante ume evacuação.

Dias depois deste acidente, fiz um voo num Airbus A319 da British Airways. Nas instruções de procedimentos de segurança feitas pela tripulação em ambos, foi explicitamente dito para deixar as malas a bordo durante as evacuações. Não se pense que esta atitude está restrita a culturas específicas de algumas nações, ou níveis de riqueza. Há vários bens cruciais, como documentos (passaportes), medicação, bens de estimação jóias de família), computadores (dados sensíveis, inclusive), ou valores (dinheiro).

No A340 da Air France que saiu pela pista fora no meio de intensa pluviosidade em Toronto, e que acabou consumido pelo fogo, apesar de não haver registo de vítimas, viu-se imensa gente a sair pelo seu próprio pé com a bagagem na mão. Simultaneamente advogo que se insista na sensibilização a bordo para a necessidade de sair do avião, abandonando os pertences, e em que se deixe de pensar em soluções impulsivas como trancar as bagageiras automaticamente em caso de aterragem de emergência. O mais provável é fazer com que os passageiros se debatam com os trincos ou tentassem arrombá-las antes de evacuar a fuselagem.

Na vertente técnica, será importante perceber ao pormenor como se comportou a aeronave, e como geriram os pilotos a situação. Por norma, uma descarga de um relâmpago não deveria incapacitar a aeronave a ponto de uma aterragem tão catastrófica. Pode dar-se o caso de haver também outros danos nos controlos e isso explicar o comportamento errático da aeronave na aterragem. Contudo, segundo o vídeo, motores, flaps, slats e trem de aterragem parecem estar a operar. Não se sabe se os controlos funcionavam em correspondência com aquilo que os pilotos comandavam, e se foram formados devidamente. Só a analise contextualizada dos FDR/CVR poderá ajudar a compreender o que se passou.

(SSJ 100. Fonte: Superjet International)

O ceticismo perdura sempre em torno da segurança de aeronaves concebidas e fabricadas pelos russos. Reveste-se essa análise de alguma injustiça porque o Sukhoi Super Jet (SSJ) resulta de uma parceria com os italianos da Leonardo. O track record do SSJ inclui apenas um acidente fatal, em voo de demonstração do próprio construtor, devido a erro crasso de pilotagem. O magro sucesso do avião fora do círculo de influência da antiga União Soviética deve-se ao fraco serviço de pós-venda da Sukhoi, e não à engenharia e performance. A Interjet mexicana opera duas dezenas de SSJ, adquiridos em condições financeiras muito vantajosas, mas, segundo um responsável da companhia, o não terem cumprido com a promessa de instalar um centro de manutenção na América do Norte torna a sua operação insustentável. Foram fabricadas cerca de 150 unidades desde 2011, tendo sido satisfeitas metade das quase 300 encomendas. Não será a maior referência da história dos jatos regionais, mas eu consideraria um sucesso.

Dos dados revelados surgem mais perguntas que respostas, há agora que esperar pelo relatório oficial.