O Senhor Brecht e o Sucesso, de Gonçalo M. Tavares

Leonor Coelho, Professora na Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira / Investigadora do Centro de Estudos Comparatistas (Projeto “Viagem e Utopia”) da Universidade de Lisboa

 

Num espaço ficcionado pela criatividade de Gonçalo M. Tavares, os protagonistas da série “O Bairro” constituem uma curiosa cidade imaginária. Nela, os residentes apresentam um inventário de tempos e situações peculiares. Nesse bairro intercultural, Paul Valéry, Henri Michaut, Italo Calvino, André Breton, entre outras personalidades do cânone europeu, expoêm múltiplas situações ao leitor.

Em O Senhor Brecht e o Sucesso, cabe a Bertolt Brecht (1898-1956), uma das vozes incontornáveis do teatro alemão do século XX,  ser o “contador” das suas estórias. O livro convida o leitor a acompanhar o comportamento labiríntico do ser humano, esmagado por medidas insólitas ou por mundos incertos. Através da sua marca mais ética ou do seu traço mais caricatural, a escrita pode denunciar uma cartografia da sociabilização dissonante.

A proposta literária de Gonçalo M. Tavares apela para uma cidadania reflexiva. São quarenta e nove “apontamentos” de classificação híbrida. Podem ser entendidos como notas filosóficas, brevíssimos capítulos de teor social e político, fábulas ou micro contos. Os textos têm, contudo, um fio condutor: a radiografia barroquizante de tempos, épocas e situações é exposta pelo “Senhor Brecht”. O efeito de distanciamento proposto pela praxis teatral do dramaturgo está, pois, bem patente.

Narrando ao público algumas estórias dissonantes, os primeiros “quadros” apresentados pela voz de Brecht, nomeadamente “Um país desagradável”, “O desempregado com filhos”, anunciam uma reflexão que se desdobrará em torno de questões filosóficas, culturais, identitárias, sociais, políticas. Cada texto não perde a sua autonomização. Juntos expõem múltiplos paradoxos do Homem e inúmeras contradições da Humanidade.

Neste projecto editorial, não faltam os universos procadores de Gonçalo M. Tavares, nem o grafismo depurado de Rachel Caiano. Sob pena de não apreciarmos a importância da ilustração, a plasticidade da linguagem tem aqui um papel fundamental. O traço sóbrio da artista plástica apresenta, num primeiro momento, uma sala despojada e fria. A chegada do público é acentuada através de uma significativa mancha gráfica. A imagem, que no início do livro era discreta, move-se, paulatinamente, ao sabor da vinda dos ouvintes/espectadores. O público apodera-se do espaço.

Ao poder da palavra soma-se a força da imagem. Ao folhear o livro, o leitor poderá ver que a ilustração ganha vida. De facto, o grafismo a preto e branco “anima-se” ao jeito dos filmes animados. O efeito gráfico adquire na arte da ilustradora diferentes leituras. Estará essa malha humana atenta ao contador? Ou tratar-se-á de uma aglomeração ameaçadora? Em todo o caso, a imagem, em simbiose com o texto, (re)cria o efeito de distanciamento, ou de estranheza, que o dramaturgo alemão preconizava.

Do despojamento da imagem à consonância de cada texto, o discurso é irónico. A captação do público por este “encaminhador de propostas”, como Brecht se definia, sugere que o Verbo pode questionar os sentidos da Sociedade. São várias as situações apresentadas. O livro de Gonçalo M. Tavares evidencia o que há de mais absurdo, em particular, no que pode ser a repetição do erro. Desdobrando-se em torno da ressonância da Palavra, a escrita incentiva à utopia.

À disforia salientada no excerto:

“O governo corrigia os desequilíbrios sociais através de um reequilíbrio numérico: colocava duas sentinelas em redor de cada pobre!” (in “Medidas enérgicas”, p. 31).

Destaco a seguinte decisão:

“O mestre mais importante da cidade queria desenhar uma circunferência, mas errou e acabou por desenhar um quadrado.

Pediu aos alunos para copiarem o seu desenho.

Eles copiaram, mas por erro, desenharam uma circunferência.” (in “O Mestre”, p. 62)

 

Esta ‘inversão’ de papéis parece anunciar uma mudança de paradigma. No campo dramatúrgico europeu, Bertolt Brecht, tido como uma das vozes essenciais do teatro épico, valorizava o teatro que permitisse ao espectador problematizar o contexto histórico e social em que vivia. Existe, assim, sobretudo neste segundo excerto, uma espécie de chamada de atenção para um permanente construto. Cabe ao Homem estar à escuta do limiar do abismo. O desacerto não tem de ser perpetuado.

Gonçalo M. Tavares reelabora, pois, um mapeamento de conflitos, de dilemas e de escolhas. No diálogo com o épico, mas também com influências que tematizam o absurdo, a escrita tavariana sublinha o (des)encontro identitário, incentiva à problematização das distopias e recorda atropelos. Ao valorizar a inteligência humana na descodificação desta leitura, a escrita deste autor sugere que a indiferença não pode conformar a nossa atuação.

A essência do texto tavariano coloca a tónica nos desencontros da vida, na tensão  social e cultural, nos (des)ajustes económicos, políticos e sociais. Neste barómetro disfórico da contemporaneidade reatualizada, o receptor das estórias de Gonçalo M. Tavares é convidado a encetar múltiplos percursos e a elaborar trilhos utópicos. Neste bairro criado pela imaginação lúdica de Tavares,  eis a cultura como locus de resistência e de consciencialização.

 

(Edição utilizada: Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht e o Sucesso, [Desenhos de Rachel Caiano], Lisboa, Relógio D’Água Editores (Posfácio de Alberto Manguel), 2018.