Manuel Campanário: em memória de um importante promotor da leitura na Região

Foi hoje a sepultar Manuel Abreu Campanário, inspector das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian na Madeira. Uma perda da qual apenas tomámos conhecimento pela participação publicada no DN-Madeira, que nos surpreendeu e que muito lamentamos.

O FN vem, pois, hoje recordar publicamente a importante função desempenhada com zelo e dedicação pelo senhor Manuel Abreu Campanário à frente das bibliotecas itinerantes na Madeira, durante anos e anos, contribuindo de forma decisiva para a divulgação da leitura junto da população desta região autónoma. Foi um verdadeiro agente do conhecimento, fazendo chegar livros aonde eles não estavam tão facilmente disponíveis, nomeadamente em muitas áreas rurais, onde a chegada regular da biblioteca itinerante era aguardada com ansiedade.

Recordamos com particular prazer o momento em que nos apercebemos do real impacto e importâncias destas bibliotecas itinerantes na formação pessoal das pessoas em zonas onde os livros eram menos acessíveis e que na altura não estavam dotadas de bibliotecas fixas. Acompanhando, há anos, então em reportagem para outro órgão de comunicação social regional, a circulação das bibliotecas itinerantes pela Madeira, parámos numa determinada zona afastada dos centros populacionais e onde pouco mais se praticava que a agricultura. Ficámos a observar, com curiosidade, a afluência dos leitores e as suas escolhas. Reparámos então nos livros que escolhia para empréstimo uma jovem de dezasseis anos: entre eles contavam-se obras do filósofo alemão Friedrich Nietzche e “O Príncipe”, de Maquiavel. Claro que imediatamente metemos conversa e entrevistámo-la para a nossa reportagem.

Marcados por um inconsciente preconceito de natureza urbana, não imaginávamos que houvesse quem, naquele local, fizesse tais escolhas literárias. O incidente abriu-nos os olhos para a relevância daquelas bibliotecas instaladas em carrinhas automóveis, que levavam as suas prateleiras repletas de pensamentos, cultura e conhecimento a quem estivesse preparado para as absorver. E essas pessoas, compreendemos então, encontram-se em todo o lado.

Manuel Abreu Campanário dedicava-se ao seu trabalho com muita aplicação e mesmo paixão. Era um homem muito simpático e educado. Lembramo-nos de ter conversado a seu respeito, em Lisboa, com Vasco Graça Moura, um homem da Cultura também entretanto desaparecido e que era, na altura, responsável pelo serviço das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian em todo o país.

Nascidas em Portugal ainda no tempo do Estado Novo, por iniciativa do escritor Branquinho da Fonseca, estas bibliotecas móveis emprestaram aproximadamente 97 milhões de livros a uns 29 milhões de leitores. Quantos não beneficiaram delas, para sua formação pessoal e inclusive para os seus estudos. Aqui deixamos, pois, a homenagem ao labor e ao pioneirismo de Manuel Campanário na sua acção de promoção da leitura no arquipélago.


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