“A Europa tem andado a encher os bolsos dos ricos e por isso os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres”, aponta a candidata do PTP Elsa Mata que recusa “um voto por um cabaz de compras”

“As pessoas só conhecem os eurodeputados na altura das eleições. Vem uma candidata e publica um livrinho, vem outra faz umas ações políticas, mas de concreto nada dizem de forma clara ao eleitorado”. Foto Rui Marote

Elsa Mata é funcionária pública, educadora social, candidata na lista do PTP às eleições europeias marcadas para 26 de maio. Uma missão que assume de “corpo inteiro”, sem subterfúgios, enfrenta os desafios com a mesma humildade que a levou ao partido num momento em que precisou de ajuda. “Ajudaram-me, agora precisam da minha colaboração, cá estou, empenhada neste projeto para a Europa”, afirma sem vacilar. Todos os partidos são grandes até ao momento do voto, não se parte derrotado, não se parte vencedor. Deixa claro para quem questiona sobre as dificuldades de uma eleição.

Trabalhar de alma e coração

“Vou trabalhar de alma e coração com a equipa, o nosso grupo não é grande, é pequeno, não está ali pela ganancia do poder mas pela força do que gosta de fazer. Identifico-me com este partido, uma vez que ajuda as pessoas quando se debatem com algum problema, não é para vir pedir dinheiro nem para vir pedir um saquinho de cimento. Não temos migalhas para dar”.

Enquanto partido que desenvolve as suas ações numa lógica de proximidade, o PTP não altera a sua matriz neste período de pré campanha e mesmo de campanha para as europeias, num ano particularmente preenchido de eleições, sendo que naturalmente, por razões estratégicas, as Regionais de setembro constituam um objetivo prioritário de luta. Mas, para já, temos o Parlamento Europeu e a forma de convencer uma determinada faixa do eleitorado da necessidade de ir a votos, não ficar em casa, alterar substancialmente aquela que tem sido a marca destas eleições, a abstenção.

O risco de eleger extremistas é muito grande 

“Este é um momento importante para explicar às pessoas as razões pelas quais devem ir votar. Há cada vez mais movimentos extremistas também nas candidaturas europeias. E se as pessoas não votam, pensando que os partidos que normalmente ganham irão voltar a ganhar, justificando assim essa ausência de participação, estarão a abrir a porta a esses movimentos, cujo eleitorado vai sempre, não fica em casa. O risco de eleger deputados extremistas é muito grande, é preciso que as pessoas tomem consciência disso e tenham a perspetiva global em defesa dos seus interesses. O extremismo não interessa nada à Europa, mas se ficarmos em casa é isso que pode acontecer”.

Passar a mensagem ficou mais difícil depois depois da crise

A candidata reforça esta idéia atendendo ao cenário que já vem acontecendo há algum tempo, com fenómenos que crescem fruto do descontentamento, de um voto de protesto, mas que nasce precisamente do facto de muita gente não exercer o seu direito ao voto, permitindo que esses mesmos fenómenos assumam dimensões quase incontroláveis. “E até pode acontecer que, à conta disso, a Europa tenha uma viragem política. E acho que, em consciência, ninguém quer isso”.

Passar esta mensagem num meio pequeno como é a Madeira, com registos elevados de abstenção sempre que falamos de europeias, vendo a Europa como estando distante e, por isso, “corporizando”o provérbio “longe da vista, longe do coração”. Não é assim, mas é assim que muitos eleitores reagem nesta consulta eleitoral, não obstante a integração europeia constituir uma fonte de canalização de fundos, tantas vezes para obras e infraestruturas perto de casa. Elsa Mata admite as dificuldades em passar a mensagem, diz que essa missão ficou ainda mais difícil depois da crise em que “as pessoas ficaram muito revoltadas com a Europa, devido ao resgate financeiro imposto pela troika. E até acharam que todas as medidas penalizadoras que foram ocorrendo, tiveram a ver com a Europa. Mas é preciso que as pessoas entendam, também, que muitos dos apoios que a Madeira recebeu, ao longo de todos estes anos, vieram de fundos europeus. E nos próximos anos, virão mais. Isto é determinante em termos de desenvolvimento de uma Região como a Madeira. E já nem estou a falar se os dinheiros foram bem ou mal aplicados, estou a falar enquanto mensagem para a população, da necessidade de participarem numa eleição que ao contrário do que muitos pensam, é importante para a Madeira”.

Houve uma excessiva aposta no betão”

Da aplicação das verbas provenientes de programas europeus, diz que “houve uma excessiva aposta no betão, ainda que não tenha qualquer dificuldade em admitir a evolução que houve, na Madeira, em termos de vias de comunicação. Mas foram investidas verbas em escolas em todas as freguesias sem que antes fosse feito qualquer estudo para ver se era mesmo necessário. Isso deu votos, as pessoas gostam de ter escolas e serviços ao pé de casa, mas depois torna-se excessivo para as reais necessidades. Existem obras que foram executadas de forma megalómana, muito dinheiro deitado fora, com uma agravante que foi dar a entender que a aposta na construção civil não iria parar, que as empresas do setor iriam manter-se com os níveis anteriores de trabalho, o que de facto não aconteceu. A construção civil caíu, acabou a época de ouro e as famílias sofreram com isso sem que houvesse uma preparação com um plano B. Em muitas famílias, o homem era o único a trabalhar e quando não houve trabalho, desmoronou-se a vida de muita gente, de repente sem rendimento e com casas para pagar”.

Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres

Considera que “houve uma certa promiscuidade e muito esbanjamento, por um lado, beneficiando as grandes empresas, e a ausência de planificação para que o essencial chegasse às pessoas, por outro. A Madeira teve um desenvolvimento de grandeza e pouco sustentado”.

Para a candidata do PTP “a Europa tem andado a encher os bolsos dos ricos. E por isso, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Esta não é uma Europa da coesão. E isto revolta o povo”.

Olha para o futuro, da Europa mas não só, perspetiva que, neste momento, é preciso ver aquilo que a população precisa. Nunca foi feito um escrutíneo para avaliar as reais necessidades da população e, por isso, esta estratégia completamente desequilibrada de desenvolvimento. A candidata do PTP defende, no que diz respeito às instituições europeias, uma relação direta com as estruturas regionais, designadamente em termos de candidaturas a programas de apoio. Considera que a Madeira, enquanto Região Ultraperiférica, deveria assumir, com Bruxelas, uma relação direta na apresentação de candidaturas sem que isso implicasse passar pelo crivo de Lisboa, como acontece agora. Era importante que as especificidades da Região estivessem, também contempladas numa relação mais próxima com as estruturas de poder na Europa, como forma de aproximação das necessidades, obviamente incluídas no País, mas com pacote próprio e direcionado para as Regiões, neste caso a Madeira. E que houvesse uma estrutura regional especificamente destinada a essa atividade, bem como uma estrutura de fiscalização, que regulasse esses apoios e verificasse a respetiva execução”.

As pessoas só conhecem os eurodeputados na altura das eleições

Naquilo que se prende com os candidatos eleitos pela Madeira, ao Parlamento Europeu, Elsa Mata mostra-se crítica relativamente ao trabalho que têm feito e sobretudo às contas que não têm prestado. “As pessoas só conhecem os eurodeputados na altura das eleições. Vem uma candidata e publica um livrinho, vem outra faz umas ações políticas, mas de concreto nada dizem de forma clara ao eleitorado. Nós, PTP, desenvolvemos ações de pré campanha nesta altura e essa é uma forma de chegar às pessoas e passar a mensagem, mas as eutodeputadas eleitas, que estiveram lá todo este tempo, têm possibilidade de chegar ao eleitorado mais vezes e durante um período maior do mandato. Têm condições para exercer, mas também devem ter em conta de parar um pouco e refletir sobre o que pensam os eleitores, aqueles que deram o voto para essa eleição. Mas não é isso que acontece”.

Europa deve ir pela parte social, com formação profissional a sério”

“Temos um défice de democracia na Madeira e estou plenamente identificada com o PTP no sentido de lutar, sempre, contra o poder instalado”. Foto Rui Marote

A estratégia a seguir pela Europa, na perspetiva da candidata do PTP, “deve incidir na parte social, que neste momento está muito desprotegida. É preciso ter em conta, muito particularmente, os jovens que estão em risco de pobreza, que fazem os seus estudos e não têm trabalho, que são obrigados a emigrar. Temos que atender às famílias numerosas, às famílias monoparentais e aos idosos. É importante criar formação profissional, mas não aquela que houve no início da integração europeia, onde bastava criar uma empresa para ganhar fundos e sempre beneficiando alguns empresários. Falo de formação profissional a sério, que prepara efetivamente as pessoas, incentivando-as na criação de empresas”.

A defesa das ultraperiferias constitui, para Elsa Mata, um fator determinante para a construção do futuro em Portugal pensando nas novas gerações. “Esperemos que essa defesa se mantenha, embora exista a possibilidade de alguma redução, uma vez que Portugal já recebeu muitas verbas para se modernizar em determinados setores, ao ponto de a Europa considerar apoiar outros. Mas Portugal deve demonstrar uma precisão nas candidaturas que vier a preparar para o futuro, em determinadas áreas onde ainda é possível ganhar fundos, é preciso termos uma estratégia muito concreta. Não podemos cruzar os braços.

Quem votar PTP é porque acredita na mensagem

Neste ano de eleições, a candidata reconhece que “os grandes partidos têm mais vantagens, relativamente aos de menor dimensão, em função das verbas que dispõem para colocar publicidade nos jornais e oferecer diverso material. Nós, PTP, não temos essa hipótese, mas temos outras não menos importantes, a de contactar porta a porta para passar a mensagem e falar com as pessoas sem comprar votos. Quem votar no PTP será porque acredita na mensagem e na diversificação do voto, não dar sempre aos mesmos. E acredita sobretudo que há políticos que falam com seriedade, uma vez que a classe política, hoje, está muito descredibilizada e em decadência. Vemos isso diariamente, há pessoas que reagem mal às campanhas porque estão cansadas da política. Nós queremos contrariar isso, mas nem sempre é fácil”.

Elsa Mata diz que “os madeirenses não conhecem os deputados europeus. Eles só aparecem na altura das eleições e mesmo quando têm voz, que é todo o ano, não dizem nada, não prestam contas ao eleitorado, não dizem o que estão a fazer. Têm um papel muito apagado e acabam por não ter aquela ligação que seria desejável à Região. E agora vêm à Madeira pedir o voto. Se eu fosse eleita, gostaria de fazer políticas para a nossa terra e ser reconhecida por esse trabalho, no âmbito da luta contra a pobreza, por exemplo”.

As pessoas contentam-se com pouco, votam por uma viagem ao Porto Santo”

A candidata recusa fazer política do género “um voto por um cabaz de compras”, diz que essa postura tem sido adotada por muitos partidos dentro daquela perspetiva de fazer uma política à base do subsídio. “As pessoas contentam-se com pouco, dão o voto por uma viagem ao Porto Santo. As pessoas deviam ser livres para votar nos candidatos que apresentassem melhores propostas e não votar pelos grandes porque eles é que vão dar isto ou aquilo”.

Com o PTP, reforça, “podem contar com a verdade. Temos um défice de democracia na Madeira e estou plenamente identificada com o PTP no sentido de lutar, sempre, contra o poder instalado, que se prolonga por muitos anos e com isso vai criando uma teia da qual não conseguimos sair. É por isso que é importante dar voz aos pequenos partidos”.