“Que maravilha – o Funchal antigo com um belo aspecto, limpo, novo e a brilhar!”

Rui Marote
O escrito de hoje não é um Estepilha, crónicas de viagem, crítica nem, em rigor, um verdadeiro artigo de opinião. É antes uma partilha, nostálgica. Recebi no meu whatsapp, a partir da Alemanha, uma prenda maravilhosa para os olhos, uma autêntica relíquia: um vídeo datado de 1946 da Ilha onde nasci e cresci. Vim ao mundo a 15 de Setembro de 1945  e a Segunda Guerra Mundial finalizou a 2 de Setembro. Terminara o maior conflito armado da história, envolvendo a maioria das nações e dividindo o mundo entre os Aliados (EUA, Reino Unido ,URSS, França) e o Eixo (Alemanha, Itália, Japão). Causada pelo expansionismo  nazifascista, o conflito resultou em cerca 60-80 milhões de mortes incluindo os eventos do Holocausto e o uso de armas nucleares.
Não sei quantos meses depois este curto filme 16mm ou 35mm foi realizado: hoje, recuperado e melhorado, é transformado num vídeo que suscita uma certa saudade de um passado em que nem tudo eram, porém, rosas.
Partilhei o vídeo com amigos madeirenses espalhados pelos quatro cantos do mundo e recebi feedbacks que não resisti a colocar em título, confirmando o que me vai na alma. Cantava António Mourão em 1960 “O tempo pra mim parou. Passado foi com ela. Para mim, não mais voltou. As horas para mim são dias. Os dias para mim são anos… era assim a letra de “Oh Tempo Volta Para Trás” que bateu recordes das músicas pedidas  da “Emissora do Cambado” e do Posto Emissor do Funchal.
As bordadeiras de campo que nos quintais das casas escutavam na sua “telefonia” embalando o ponto atrás (contorno), ponto cheio, nó francês, ponto haste e ponte caseado adoravam este artista, que esteve na Madeira e esgotou a bilheteira do Cine Parque em todos os espectáculos.
Não sou do tipo saudosista que gostaria de voltar a viver o que já foi vivido. Aprendo com as minhas memórias, validando o que precisa ser validado, excluindo o que precisa ser excluído.
Nasci na Zona Velha da Cidade; a rua era o meu quintal e o calhau a minha praia. A tampa das “adufas” era a minha “consola” de jogos. Necessitava de um parceiro para competir, ao contrário dos dias de hoje que a tecnologia oferece companhia virtual eliminando a necessidade de um parceiro físico. Os losangos quadriláteros das tampas das sarjetas era a nossa “consola” com recurso a uma esfera de aço e uma palheta  para introduzir a esfera nos encaixes de elevação ou simplesmente pegas.
Em certas épocas do ano era o jogo da bilharda conhecido pela bilhardeira, que utiliza dois paus: um longo (taco) e um curto aguçado (bilharda). O objectivo era lançar o taco para longe e, depois, contá-la de volta ao circulo inicial com o maior número de batidas. Quando nasci não tinha luz eléctrica na minha casa; recorríamos ao candeeiro a petróleo. Só nos finais dos anos 50 a lareira foi substituída por fogão a gás.
Tomar banho geral, só de banheira no meio do quarto e panelas com água quente a consumir os “canelos” de lenha. O frigorífico chegou mais tarde. Água quente só chegou à casa de banho graças a um familiar residente no Brasil que nos ofereceu um aparelho. O meu pai não confiava nesta tecnologia com receio de apanhar uns choques eléctricos.
Estudei no Liceu e frequentei os melhores colégios no entanto fui um aluno de mau rendimento. Trocava o estudo pela natação, hóquei em patins e atletismo. Em 1946 ainda estava aprender a andar e não posso testemunhar esse período de transformação urbana significativa, muitas vezes lembrado como início da modernização da cidade, sob a égide de figuras como Fernão de Ornelas que presidiu à Câmara. Mas foi sem dúvida uma modernização séria e uma nova estética surgiu na urbe.
A época foi marcada por um intenso plano de calcetamento, substituindo ruas de terra e lama por paralelepípedos, novas vias incluindo a expansão da Avenida do Mar e a criação de jardins; mudou a face da zona da baixa da cidade.
A cidade esforçava-se para ser um destino turístico, procurando uma aparência limpa, cuidada e funcional em contraste com a sua figuração anterior, mais arcaica e desorganizada. Procedeu-se à construção de fontanários e a estruturação da orla marítima. Tudo isto eram focos de modernização.
Hoje o anfiteatro funchalense está totalmente ocupado com a expansão urbana a alastrar por todas as freguesias periféricas. Mas o Funchal de 1946 estava a “brilhar” por ser “novo” na sua infraestrutura, enquanto o Funchal de 2026  brilha de outra forma, como cidade internacional e turística, om marcas de uma transformação contínua ao longo de 80 anos.

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