João Henrique de Freitas, candidato do PAN: contra a aquacultura na Ponta do Sol e “mastodonte” no Paul da Serra

Fotos: Rui Marote

João Henrique de Freitas é o candidato do PAN-Madeira às próximas eleições europeias. Diz que este é um partido também das pessoas, e interessado em estabelecer um novo paradigma de relacionamento mais saudável com o meio ambiente. Repudia certas opções como a aquacultura na RAM, que considera uma aposta errada e que só contribui para estragar a paisagem, e critica a central hidroeléctrica na Calheta e o modo como vem descaracterizar uma zona nobre como o Paul da Serra. Defende a protecção dos animais, a aposta na agricultura biológica e o abandono dos combustíveis fósseis em prol de fontes de energia mais limpas. Promete que quando começar a sofrer dos mesmos vícios dos políticos “profissionais”, será a altura de sair, voluntariamente.

Funchal Notícias: Está bem consciente não só da problemática social, mas também legal relativamente à protecção dos animais em Portugal. Neste momento apresenta-se como candidato nas listas do PAN às Europeias. De que forma entende o partido que pode defender os interesses dos animais, da natureza e das pessoas que estão interessadas em proteger esses valores, ao nível europeu?

João Henrique de Freitas: Em 2009 nós começámos por ser um partido exclusivamente dos animais. Em 2011, passámos a ser um partido também ligado ao ambiente, e depois mais tarde, tornámo-nos um partido de Pessoas, Animais e Natureza, ligados também às pessoas. As nossas preocupações deixaram de ser única e exclusivamente da natureza, e passámos a ser o único partido ambientalista neste momento em Portugal. Sabemos que “Os Verdes” são uma secção do Partido Comunista, e portanto são uma caixa de ressonância do partido, e de ambientalistas têm muito pouco. Aliás, muitas das propostas que foram feitas na Assembleia da República em termos de ambiente e de animais foram chumbadas pelos “Verdes”. O que o PAN pretende fazer, tal como fez em Portugal, é sentar o planeta no Parlamento Europeu. A nossa ideologia não é de esquerda nem de direita, é a ecologia e a defesa dos animais. Nós achamos que é bom falar de finanças, de problemas sociais, sobre a saúde, mas a verdade é que se não tivermos ambiente, escusamos de falar disso tudo. A qualidade de vida será terrível e até poderá levar à própria extinção humana.

Funchal Notícias – E em seu entender, a Europa não está ainda suficientemente sensibilizada para as temáticas ambientais? 

JHF – Não. A Europa está mais do que está Portugal. Mas infelizmente ainda existe uma série de lobbys que fazem com que as legislações que acreditamos serem mais correctas não sejam feitas, e não haja vontade de aplicar as que existem. O nosso programa, essencialmente, na parte que diz respeito às alterações climáticas, que é um tema que nos preocupa bastante, visa o abandono dos combustíveis fósseis. Pretendemos um plano europeu que seja de transição entre esses combustíveis fósseis, com energias renováveis mais ou menos limpas. Obviamente que isso iria criar bastantes empregos, os chamados empregos verdes, de longa duração. Mas tem de haver uma transição aqui. Nós só temos praticamente dez anos para a transição das energias baseadas no fóssil, para as energias baseadas nas energias renováveis limpas. Isto tem de ser feito, sob pena de termos uma Europa sem qualidade de ambiente.

Pretendíamos também que a Europa fomentasse a independência energética das pessoas, das comunidades e até das empresas através do incentivo à aquisição de equipamentos como por exemplo painéis solares, e que as pessoas pudessem ser auto-suficientes. Mas mais que isso, que as pessoas singulares pudessem vender à rede, como acontece neste momento no continente, o excesso de energia que produzem, fazendo um abatimento no pagamento às empresas eléctricas, e conseguindo uma amortização do valor que pagaram pelo equipamento que compraram. Neste momento, com o monopólio da Empresa de Electricidade da Madeira, isto não é possível aqui, embora já tenha ouvido dizer que isso irá ser uma realidade daqui a algum tempo, Seria excelente, porque a Madeira é extremamente sensível aos choques energéticos, porque vivemos numa ilha… A insularidade afecta-nos. Como? Por exemplo agora, com a recente greve dos motoristas de material perigoso… A Madeira é extremamente sensível a isso… E é-o também relativamente à oscilação dos valores, que se sabe muitas vezes não corresponderem aos valores reais da matéria prima, mas são valores especulativos. Para não estarmos dependentes disso, achamos que a União Europeia, no seu global, deve investir fortemente nas energias renováveis, fazendo com que as mesmas venham a ser 100% de toda a energia produzida na UE, e que a Madeira, incentivada pela UE, siga obviamente o exemplo, de vontade própria. Curiosamente, o PAN tem sido o único partido que tem falado bastante em energias renováveis, porque o PSD, o CDS, o PCP e o PS são a favor da exploração de petróleo na costa do Algarve. Isto é uma inversão total daquilo que se pretende. Da nossa parte, o que pretendemos é a aposta nas energias renováveis limpas. Isto passa também pela transição dos automóveis, implementando incentivos à compra dos automóveis eléctricos, ou que não usem combustíveis fósseis, sendo, por exemplo, a gás. Defendemos isto para os transportes públicos, também. Por exemplo, aqui na Madeira a empresa “Horários do Funchal” já devia ter começado a fazer esse investimento.

FN – Penso que já começaram a ter algumas viaturas eléctricas… Mas dada a nossa orografia penso que também é um bocado difícil substituir os motores de combustão… 

JHF – Sim, eles já começaram… Mas, em relação ao que disse, é preciso ver que os automóveis eléctricos já não são o que eram há vinte anos atrás, nem há 10 anos.

FN – Mas ainda têm dificuldade em vencer grandes inclinações, penso…

JHF – Sim, talvez a subir a Pena, a Montanha, as inclinações daquele género… Mas eu estive recentemente em Lisboa, e andei sempre de Uber Verde, sempre eléctrico, e achei que era um meio de transporte silencioso, limpo… E nós vamos caminhar para isso, quer se queira quer não… Algumas cidades europeias já vão proibindo os automóveis a diesel…

FN – Aquilo que o PAN defende é o incentivo directo ao consumidor. Quando o consumidor escolhe ter uma atitude mais ecológica, ser premiado por isso, porque isso também motiva a transformação dos comportamentos… 

JHF – Com certeza. Não só os governos têm de fazer essa transição, como é óbvio, mas têm de dar incentivos aos particulares, para que toda a gente possa fazer essa transformação, e vender depois a energia que produz em excesso. Isso é um benefício para todos, para o ambiente, para quem adquire um painel solar e depois amortiza a sua compra… Só vejo benefícios aqui. E nós não estamos a investir nisto. Espero que a UE crie, um dia, directivas que obriguem Portugal a fazê-lo, já que o país não o faz por sua própria iniciativa.

FN – Tem havido, e isso é visível, uma tentativa da parte do Governo Regional e das Câmaras em sensibilizar mais as pessoas para a contribuição individual em termos de ambiente. O que não tem havido é uma recompensa ao cidadão por esse esforço. E isso não deve ser desprezado. 

JHF – Pelo contrário, se queremos operar uma mudança, esse é um incentivo que tem de ser feito.

FN – Dado o seu conhecimento legal da situação, gostaria que comentasse uma situação. Aqui na Madeira, foi possível acabar com o abate dos animais recolhidos. Isso não é uma directiva que esteja a funcionar a nível nacional, por isso neste aspecto estamos mais avançados…

JHF – Neste momento já é…

FN – Já é? Está a funcionar em todo o país? 

JHF – Excepto os Açores. A Madeira foi a primeira, em 2016, depois seguiu-se o continente, em 2018, e os Açores prevêem a implementação dessa medida em 2022….

FN – Cessar o abate é uma medida benéfica, supostamente, na medida em que acaba com o extermínio dos animais de companhia abandonados. Por outro lado, cria um problema: o que fazer com esses animais que não são abatidos… 

JHF – Correcto.

FN – Vendo a coisa pelo lado positivo, a RAM terá assumido uma atitude mais humana, mais ética em relação à forma como trata os animais, dando um exemplo nacional. Por sua vez, ao nível europeu, já existiam países onde isso acontecia há bastante tempo. Em termos europeus, e no que concerne ao tratamento dos animais, a UE está bastante melhor que outras regiões do planeta.

JHF – Bastante melhor, sim, sem dúvida nenhuma. Isto na defesa dos direitos dos animais de companhia, atenção. Porque há os da pecuária. Nós achamos que os fundos comunitários devem ser canalizados para a agricultura biológica, em detrimento da pecuária intensiva, que, além de ser ética e moralmente muito duvidosa, tem uma série de problemas ambientais. Esgota completamente os recursos hídricos…

FN – Tem uma pegada ecológica muito grande. 

JHF – Exactamente. Estima-se que para produzir um quilo de carne sejam necessários 20 a 30 mil litros de água. Esta pecuária intensiva é responsável por um terço da poluição de todas as águas potáveis. O dióxido de carbono emitido para produzir um quilo de carne é equivalente à poluição produzida por um automóvel convencional para percorrer 150 km. O metano que é normalmente expelido pelos animais ruminantes é 20 vezes mais perigoso para a camada de ozono que o dióxido de carbono, e está a destruir a nossa atmosfera. A pecuária intensiva é responsável neste momento, e isto são dados da FAO [organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura] pela emissão de 15 a 18 por cento dos gases de estufa, enquanto que todos os automóveis do mundo são responsáveis por 13 por cento. São dados incríveis. Se reduzirmos a pecuária intensiva e apostarmos na agricultura biológica, que é muito mais saudável, comprovadamente, não só no aspecto nutritivo, mas porque não usa herbicidas nem pesticidas, não tem os problemas dos glifosatos, que se provou nos EUA que causam cancro, estamos a ajudar o ambiente. Aqui na Madeira, embora não tenhamos uma pecuária intensiva, o que acreditamos é que se deve incentivar os agricultores a fazer a transição duma agricultura tradicional para a biológica. Quando essa transição é feita, durante três anos não existe um rendimento que permita sustentar o agricultor, porque a terra demora sempre algum tempo a se refazer, digamos assim. Durante esse período, o governo deve apoiar o agricultor, porque essa transição realmente seria benéfica.

FN – Isso de que está a falar são aspectos mais ou menos consensuais…

JHF – São? Acho que só o são em períodos eleitorais… enquanto que nós queremos que sejam consensuais durante todo o ano, porque somos um partido ambientalista. Os outros partidos só falam nisto porque vêm aqui uma oportunidade de captar eleitorado, apenas e tão só, porque depois as promessas ficam-se sempre pelos cadernos.

FN – Era para isso que eu ia prosseguir. As pessoas abordam este tipo de questões, inclusive nas escolas, e toda a gente concorda. Agora, o tratamento e a defesa dessas questões ao nível político é inteiramente uma outra coisa. 

JHF – É a diferença entre os representantes e os representados. Isto é tudo muito engraçado, mas a política ainda tem este problema. Os políticos, depois de eleitos, não representam aqueles que votaram neles. Se perguntar a qualquer pessoa se é por estas medidas a favor do ambiente, garanto-lhe que 99 em 100 há-de dizer que sim. Se perguntar às pessoas se são a favor de acabar com os maus tratos aos animais, 98 em 100 dirão que sim. O problema está em que, depois, os governos não tomam as decisões para as quais foram eleitos. A tauromaquia é um caso flagrante. De certeza absoluta que se fizéssemos um referendo, nem que seja pelas grandes regiões urbanas, a conclusão do referendo seria de acabar com ela. Mas os governantes estão ligado aos lobbys. Está ligado o PCP aos lobbys das autarquias do Alentejo, e do Ribatejo, que fazem da tauromaquia um espectáculo, e o CDS está depois ligado aos lobbys daquelas famílias dos cavaleiros e das grandes fortunas… Os partidos ficam reféns destas situações e depois não agem como deveriam. Sou advogado, e não político de profissão, e já me disseram que um dia que entre na política, tornar-me-ei igual aos outros… Mas respondo que no dia em que começar a sentir que estou a tornar-me igual aos outros será o dia em que sairei imediatamente da política. Acho que temos de dizer aquilo que temos de dizer, e fazer aquilo que temos de fazer. Não sou um frango de aviário, um político de carreira, que nasce já nas “jotas” [juventudes partidárias] e vai por ali, com aquelas cenas que nós vemos na Assembleia, com deputados com um comportamento que é uma vergonha… A nossa postura [do PAN] é de diálogo, de educação, de elevação. Evidentemente, não nos incomodem nem nos agridam…

FN – Ao nível europeu, como é que você se integram?

JHF – No grupo dos Verdes.

FN – Mas acabou de criticar os Verdes…

JHF – Os Verdes aqui em Portugal. Não os Verdes na Europa, que há uma diferença bastante grande.

FN – Mas os Verdes em Portugal estão relacionados também com os Verdes da Europa…

JHF – Pelo menos de nome… Mas da prática do que temos visto dos Verdes aqui, não acho que seja um partido que fale por si próprio, que tenha…

FN – Na Madeira tem pouca representatividade…

JHF – Não tem representatividade nenhuma. O único partido ambiental aqui seria o PAN. Os nossos políticos gostam muito de nos acusar de só nos preocuparmos com os animais. Eu queria desmistificar isso. Isso não corresponde à verdade. A maior parte das iniciativas legislativas do PAN na Assembleia da República tem a ver com as pessoas. Só que isso é sempre escamoteado.

FN – O PAN defende um certo modelo de sociedade em que as pessoas tenham uma outra relação com ambiente e com a natureza.

JHF – Sim, com o ambiente e consigo próprias. Somos a favor das minorias. Somos os primeiros a defender a comunidade LGBTI, todas as outras minorias, as pessoas mais vulneráveis… A questão da violência doméstica, também fomos os primeiros a tentar criar legislação para evitar, tentar agravar as penas para os agressores… Por acaso foi chumbado por toda a gente. Acho que a União Europeia, e por arrasto, a RAM, deviam preocupar-se muito mais com a parte social. Temos que ter uma UE preocupada com as questões sociais. Por exemplo, com o problema da diferenciação de género, o facto das mulheres ainda não ganharem o mesmo que os homens por trabalho igual… Somos contra tudo o que exprima discriminação entre géneros. Queremos que isso acabe. É uma das nossas bandeiras. Outro problema é o dos idosos. Na Madeira, investimos em betão. Foi um bom investimento, não digo que não foi. Obviamente que foi. Mas investimos praticamente só em betão. Demos o dinheiro a ganhar às companhias dos amigos, muitas vezes com testas-de-ferro por detrás, a gente sabe quem são… Se passear na rua e perguntar às pessoas elas vão-lhe dizer os nomes… E desinvestimos completamente no social. Não existe uma rede pública de lares para idosos. Se tiver um pai idoso, e trabalha, e não tem dinheiro para colocá-lo num lar privado, que custa uma fortuna, provavelmente quando vagar um lugar no público, o seu pai já faleceu. Isto é inconcebível. Deixemos agora o betão um pouco de parte. A marina do Lugar de Baixo dava para fazer não sei quantos lares… Vamos apostar nas pessoas carenciadas…

FN – Este Governo Regional orgulha-se de dizer que o social tem sido uma das suas bandeiras. É um discurso recorrente. 

JHF – Não me faça rir. Isso é para inglês ver. Obviamente não o tem sido, coisa nenhuma. É a continuação da política do investimento em betão, que só não prosseguiu porque entretanto a torneira da União Europeia foi fechada. Porque se não, em vez de se fazer uma Via Rápida ou uma Via Expresso em volta da ilha, faziam-se duas. E isto não fomenta muito emprego, porque a maior parte dos trabalhadores que laboram na construção civil nessas infraestruturas vêm de Lisboa.

FN – Onde é que o PAN se situa relativamente ao Centro Internacional de Negócios da Madeira? Agora toda a gente diz a mesma coisa. 

JHF – Não sei se toda a gente diz a mesma coisa… O PCP acho que não é a favor…

FN – Pronto, é praticamente o único… 

JHF – Acho que se existe um CINM que tem uma receita fiscal efectiva para a RAM de 21 milhões de euros, e isto representa 13,3 por cento da receita fiscal total da Madeira, que emprega, nos três sectores, cerca de 3 mil pessoas e que licencia cerca de 2500 entidades, obviamente que é benéfico para a RAM e deve permanecer.

FN – Voltando a uma situação concreta, a do não abate dos animais de companhia… Quando de repente se deixa de abater animais que são recolhidos das ruas, nem por isso deixam de ser abandonados animais todos anos, e de ser recolhidos mais esses animais. Os que cria um problema, o que se vai fazer com eles? Isso não tem também implicações ao nível da higiene, da proliferação de animais de rua, alimentados a nível comunitário? Há pessoas que não concordam com isto.

JHF – Nós tomámos a iniciativa de fazer uma “vacatio legis” apenas de 90 dias entre a aprovação do Decreto Legislativo Regional e a entrada em vigor. Os Açores estão a fazer isso em seis anos, preparando-se para fazer um rede de canis e ter os meios necessários para quando o abate for proibido. O que se tem verificado é que até agora, os Açores não fizeram absolutamente nada, pelo que dizem as associações animais. Em Lisboa, também houve uma “vacatio legis” de mais de dois anos. Ninguém se preparou para coisa nenhuma. Era o que iria acontecer aqui se retardássemos a entrada em vigor da lei. Ninguém se teria preparado para coisa nenhuma, porque o português, só quando está encostado à parede, é que faz as coisas. Encostar por encostar, encostámo-nos agora, e salvámos a vida a uns animais. A parte ética foi resolvida com o não abate, mas a parte do controle desta população não é resolvida com o não abate, como é evidente. Há-de sempre haver um pico inicial de animais errantes maior, e só depois é que se há-de verificar uma queda progressiva, e isto demorará uns dez anos. E fazendo as coisas bem. Nós temos de sensibilizar a população. Sensibilizar, sensibilizar, sensibilizar, como insistem os alemães. Que também dizem outra coisa: esterilizar, esterilizar, esterilizar. Temos que esterilizar o mais que pudermos os animais errantes. Sempre fui a favor de um centro regional de esterilizações. Neste momento, quem está a fazer este trabalho é a associação AMAW, mas o Governo Regional é que se deveria encarregar desta tarefa. As câmaras municipais não têm, muitas vezes, suficiência de meios. Tem de haver aqui um esforço conjunto com as associações de animais.

FN – Esse argumento das câmaras não me convence muito.

JHF – As câmaras municipais não têm os meios também porque não querem criá-los. Dinheiro têm. Se se fizesse menos uma festa popular… Mas o problema também reside no facto de os governantes e os presidentes de câmara esquecerem-se que por detrás dum animal provavelmente está uma pessoa. O problema não é tanto os animais de rua. Pela sua própria natureza, infelizmente, têm uma vida muito mais curta que um animal com dono. Está sujeito a ser morto, envenenado, atropelado… o problema principal são os abandonos, as pessoas que têm os animais em casa, deixam-nos reproduzirem-se, depois oferecem… E oferecido toda a gente quer… E depois a pessoa chateia-se e põe os animais na rua. É o problema de não “chipármos” os animais, que o “chip” devia ser obrigatório… Tem que se fazer uma campanha massiva de esterilização e de sensibilização. Só assim é que conseguimos resolver este problema. E não se pense que os canis vão resolver a situação, porque não vão. A maior parte das câmaras, para mostrar trabalho, estão a recolher os animais da rua e a metê-los no canil. E depois, como é que os fazemos sair de lá? O que é preciso fazer é esterilizar os animais. Aqueles com condições de continuar na rua, continuam na rua. Há muitos que são alimentados pela população, e estão a viver bem e podem perfeitamente ser deixados lá, que não é o ideal, mas é aquilo que podemos fazer neste caos todo. Só se devem canalizar para o canil aqueles que estão em perigo, que estão doentes e tentar obviamente a adopção. Mas aqui também existe um problema: as câmaras municipais não estão vocacionadas para fazer adopções. Não é o funcionário A, B ou C que vai mostrar à senhora o cãozinho lindinho, para a convencer a levá-lo. Tem de se fazer um trabalho com as associações animais, das quais as câmaras municipais andam dissociadas. Não podem ouvir falar nelas, até porque têm receio de que por qualquer razão seja descoberta alguma coisa, ou que estas expressem uma discordância, aqui ou ali, pelo mau trabalho feito. Um exemplo é a Ajuda a Alimentar Cães, que denunciou aquele caso na Calheta… Uma associação que não tem medo de afrontar o “status quo”. E quanto menos medo mostramos, mais as pessoas nos respeitam, mais temor nos têm. O PAN já tentou reunir com as associações todas, e fez também uma reunião com voluntários e amigos, para sabermos mais a perspectiva. Ao nível europeu, não existe uma directiva geral para os animais. Cada estado está a tentar resolver o seu problema…

FN – Era bom que houvesse uma legislação comum, nesse sentido… 

JHF – Penso que sim. Traria vantagens. O que é que Portugal lucrou com a União Europeia? Fundos comunitários, que ajudaram imensamente a desenvolver o nosso país, só não desenvolveram mais porque alguns deles foram mal aplicados… No caso da Madeira, para as regiões ultraperiféricas, foi essencial, para fazermos todas as obras que fizemos. E trouxe-nos outra coisa: a legislação comunitária. Nós fomos obrigados a transpor para a legislação nacional muitas das coisas que só daqui a 40 anos é que surgiriam em Portugal… A rotulagem dos alimentos, bebidas, uma série de coisas… Um dos grandes problemas, agora, do Brexit, é que os ingleses, de um momento para o outro vão ficar sem metade da legislação, que é tudo legislação comunitária, e terão que a substituir. Imagine a quantidade de legislação que veio da UE, legislação mais avançada porque eles são países civilizacionalmente mais avançados, e isso beneficiou-nos. Por isso o PAN é europeísta. Achamos que a UE deveria inclusive estreitar mais os seus laços, porque só assim podemos fazer face às economias emergentes, como a China, a Índia, além dos EUA… Num mundo global, onde as alterações climáticas não são de um país, mas de todos, onde uma central nuclear pode prejudicar uma data de países… Somos a favor do fecho da central [nuclear] de Almaraz.

FN – Qual é a vossa posição relativamente à central hidroeléctrica da Calheta actualmente em construção? 

JHF -Não somos contra. O problema principal é aquele mastodonte do Paul. O benefício que aquilo vai trazer não justifica um atentado ambiental.

FN – Acha que é isso que está a acontecer no Paul?

JHF – Acho que sim. Estamos a dar cabo do Paul e do Fanal, que são das zonas mais bonitas da Madeira. Estamos aos poucos a tirar às populações a possibilidade de frequentar a nossa ilha.

FN – O Governo Regional invoca que a União Europeia tem apoiado e aplaudido aquele projecto. 

JHF – A União Europeia também aplaude a morte das cabras nas Desertas… portanto, já está a ver onde estamos… A União Europeia não tem razão em tudo. Temos é de saber diferenciar aquilo em que tem razão, daquilo que não tem. E nós somos muito provincianos muitas vezes… aquilo que vem de fora, sobretudo aquilo que convém, é excepcional. O profeta de casa não vale nada. Este é o problema. Repare: na Ponta de São Lourenço, vedámos aquilo e enfiámos lá a Zona Franca. Tirámos a possibilidade de as pessoas andarem naquele território. Acima dos 400 metros, nós queremos entrar numa zona florestal para andar de bicicleta com um pequeno, temos de ter autorização disto, autorização daquilo, que são tudo zonas florestais. Não podemos ir para o mar, que a Polícia Marítima… No Porto Santo, um quarto da ilha ficou limitado pelo campo de golfe. Antigamente podíamos passear naquelas zonas, agora não podemos. Progressivamente, estamos a retirar a ilha às pessoas. Isto é inconcebível. Não consigo compreender como é que o Paul, que é um sítio ambiental por excelência, o Fanal, os Estanquinhos, a Bica da Cana, toda aquela zona, lindíssima, que depois tem o Risco, o Rabaçal, como é que se constrói uma coisa com aquela dimensão? Que se invista em todo o tipo de energias renováveis, que se façam mais parques eólicos, que se invista nos painéis solares, que se faça a reconversão dos automóveis. Agora aquilo… é de mais. Já não reconheço a minha terra. Vou ao Paul e fico triste com aquilo que vejo. O PAN não pode de maneira nenhuma concordar com aquilo.

Já em relação à aquacultura, é outra questão, que o Governo da República está muito empenhado em envolver-nos, o Governo Regional também…

FN – Há apoios comunitários…

JHF – Há apoios comunitários… Mas nós estamos totalmente contra a aquacultura. Para já, por uma questão de princípio. Mais uma vez, é uma cultura intensiva de animais. Depois, por questões ambientais. Os fundos marinhos são conspurcados pelos restos de alimento, pelas próprias fezes dos peixes que se vão depositando… Depois, porque aqueles peixes são alimentados muitas vezes por transgénicos, e também por peixes selvagens. É preciso 1,4 de peixe selvagem para alimentar um peixe de aquacultura. Estamos a tirar ao mar para colocar dentro de uma jaula, com uma alimentação muito dúbia. Um salmão de aquacultura nada tem a ver, em termos de sabor, com um salmão de rio da Escócia. Depois há o problema de desfear a costa marítima. Temos o caso flagrante da Ponta de Sol, localidade da qual até veio uma foto no Windows, lindíssima, e vai-se agora colocar jaulas em frente à praia, uma das praias mais bonitas? Isto é uma coisa de loucos. E depois, aquilo que vai gerar, em termos de receita, é uma miséria. As populações deviam ser consultadas. Não basta publicar no JORAM… Estou absolutamente solidário com a presidente da Câmara, a dra. Célia Pessegueiro, e com as populações da Ponta do Sol, e acho que o investimento na aquacultura deve ser parado de imediato, Canalize-se esse dinheiro para aqueles que querem fazer transição, aqui na Madeira, para a agricultura biológica. A aquacultura não beneficia em nada as populações, muito menos aquelas que ainda se dedicam à pesca artesanal. É menos espaço que têm para pescar, e depois vão ser invadidas por peixe a metade do preço… Vão viver de quê?