Estepilha! Medalhas, medalhinhas e medalhões…

ILUSTRAÇÃO DE JOSÉ ALVES.

“Quem és tu, de onde vens?
Conta-nos lá os teus feitos
Que eu nunca vi pátria assim
Pequena e com tantos peitos.”

Rui Veloso
(Valsinha das medalhas)

O Estepilha deu por si hoje a cantarolar as trovas de Rui Veloso. E porquê? Porque, volta e meia, lê que o hotel da paróquia ganhou o prémio internacional antiesgoto, beltrano foi distinguido com o prémio europeu de contorcionismo conjuntural, sicrano com o galardão internacional de banha de cobra para incautos, o jornal com a melhor capa da notícia independente com os subsídios oficiais … e, perante, tanto peito inchado, até o Estepilha, que é sempre imune a estes rasgos, se sente pequenino numa pátria de tantos medalhados pelos cérebros singulares da Europa e do mundo. Não está ao alcance de qualquer um, sem engenho e arte.

Acontece que ninguém pode enganar eternamente o outro. O Estepilha também decidiu que, se o sol nasceu para todos, também já era tempo de levar um prémio ao peito. Sempre faz “estrondo”, como costuma hoje ser chique dizer. Saiu do inglório anonimato, fez-se ao largo, informou-se e descobriu que, afinal, era muito, muito fácil o reconhecimento além fronteiras. Sem dar grandes passos, ficou a saber que basta pôr a sua troupe a dar cliques no facebook, para votar em si próprio ou no chefe, ou então gastar alguns euros para conquistar os prémios do narcisismo. A fama ao passo de um clique ou de umas moedas…

Rindo e brincando, o Estepilha passeia-se hoje inchado na Praça da Autonomia com medalha de ouro ao peito e notícia viral do seu galardão nos media e blogues. Se o Eça de Queirós fosse vivo, a sua verve daria à estampa nova sátira a este orgulho lusitano. Agora percebe a comoção genuína que enche aqueles que são distinguidos no estrangeiro com direito a prosa inflamada na comunicação social. Com muita arte, é possível ver o demérito premiado fora de portas para o curriculum, com o peito a inchar, a inchar, a inchar… Depois disto, o céu é o limite.