Por uma Igreja sem submissões

  1. Está a circular um vídeo na internet onde se vê o Papa Francisco a cumprimentar uma série de pessoas que vergam a espinha e agarram as mãos do Papa para beijá-las. O Papa afasta-as com uma rapidez incrível que até parece que está a jogar às quentes. Percebe-se que o faça porque antes tinha dito o seguinte: «Mas não venham com esses beijos clericalistas, hein?!». O episódio passou-se por estes dias no Santuário de Nossa Senhora do Loreto em Itália. Obviamente, que as reações dos clericalistas e a ala da extrema direita da Igreja Católica que não reconhece este Papa e que não abdica do seu clericalismo anda enfurecida e a vituperar contra o gesto do Papa.
  2. Eu compreendo o sinal do Papa, não viesse mais este sinal de alguém que tem marcado o seu pontificado com uma série de sinais com uma marca indelével de radicalidade. É sim, tempo de deixarmos esta coisa de beijar anéis e mãos de alguns, quando somos todos iguais entre iguais, irmãos enxertados numa única realidade comum, Jesus Cristo. Não há neste mistério eleitos, mas irmãos que se aceitam na igualdade e na fraternidade universal. Neste âmbito descobre-se mais ainda, que somos todos graça, mas também todos marcados pela desgraça do pecado e, por conseguinte, ninguém está a cima dessa condição da miséria que nos enforma a vida e o dia a dia. O Papa é um entre os outros, que preside à fraternidade e, percebendo isso, apela a que ninguém se rebaixe nem se humilhe diante de nada, nem sequer diante da sua pessoa.
  3. Gosto particularmente da expressão paulina que confirma esta ousadia do Papa e o quanto nos falta caminhar para a dimensão da fraternidade na Igreja Católica: «Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa» (Gl 3, 27-29). Deus criou-nos com o dom maravilhoso e desafiador que é a liberdade. Disto uma porção enorme do mundo não gosta, as ditaduras não gostam, a soberba não gosta, os dominadores donos disto tudo não gostam e obviamente o veneno do clericalismo que varre a Igreja Católica de alto a baixo não gosta.
  4. O caminho da liberdade passa pela nossa entrega à vida sem que tenhamos que andar submetidos a ninguém, mas apenas e só ao amor que se dá até às últimas conquências. Só é livre quem se entrega a Deus pela ação em favor dos outros. Quem se esconde para si ou anda de coluna vergada a alguns, vive na esterilidade e na tristeza. Esta não é a vontade Deus. A liberdade não tolera ninguém vergado na horizontalidade, mas na verticalidade olhando olhos nos olhos, para reconhecer os outros como irmãos seus semelhantes em todos os aspetos.
  5. Pode acontecer que muitos ao longo da história em nome dessa liberdade doação e entrega a Deus tenham estado presos e foram mortos, mas foram pessoas livres e fiéis a Cristo, o exemplo máximo da entrega e doação por amor. Por acreditarem na fraternidade, muitos venceram poderes de toda a ordem, fizeram brilhar a justiça, amordaçaram a boca dos lobos e leões, apagaram fogos de ódio e de vingança, escaparam ao fio da espada, curaram-se de doenças e curaram os outros, foram valentes nas guerras e converteram exércitos a fazerem das armas relhas de arado… E ainda outros, porque não se vergaram à escravidão sofreram açoites, passaram pelo escárnio, viram o degredo das prisões, apedrajados, serrados ao meio, degolados pela espada, fugiram das suas casas e família, vestidos com trapos e peles de carneiros e de cabras, oprimidos, passando privações de toda ordem. Um leque de gente enorme que se beijou as mãos de alguém não foi para adorá-las, mas para sará-las da indignidade miserável.
  6. Por isso, só posso ver no gesto do Papa Francisco, uma graça sinal provocador, para que nos converta a todos à fraternidade. A Igreja precisa de abdicar de ser uma sociedade, onde alguns são uns privilegiados, adolados e adorados pela maioria. Mas uma comunidade de irmãos entre irmãos, porque também uma comunidade de pecadores entre pecadores, a começar pelo Papa. Cristãos adultos na fé e na dignidade é o que se deseja.