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- Está a circular um vídeo na internet onde se vê o Papa Francisco a cumprimentar uma série de pessoas que vergam a espinha e agarram as mãos do Papa para beijá-las. O Papa afasta-as com uma rapidez incrível que até parece que está a jogar às quentes. Percebe-se que o faça porque antes tinha dito o seguinte: «Mas não venham com esses beijos clericalistas, hein?!». O episódio passou-se por estes dias no Santuário de Nossa Senhora do Loreto em Itália. Obviamente, que as reações dos clericalistas e a ala da extrema direita da Igreja Católica que não reconhece este Papa e que não abdica do seu clericalismo anda enfurecida e a vituperar contra o gesto do Papa.
- Eu compreendo o sinal do Papa, não viesse mais este sinal de alguém que tem marcado o seu pontificado com uma série de sinais com uma marca indelével de radicalidade. É sim, tempo de deixarmos esta coisa de beijar anéis e mãos de alguns, quando somos todos iguais entre iguais, irmãos enxertados numa única realidade comum, Jesus Cristo. Não há neste mistério eleitos, mas irmãos que se aceitam na igualdade e na fraternidade universal. Neste âmbito descobre-se mais ainda, que somos todos graça, mas também todos marcados pela desgraça do pecado e, por conseguinte, ninguém está a cima dessa condição da miséria que nos enforma a vida e o dia a dia. O Papa é um entre os outros, que preside à fraternidade e, percebendo isso, apela a que ninguém se rebaixe nem se humilhe diante de nada, nem sequer diante da sua pessoa.
- Gosto particularmente da expressão paulina que confirma esta ousadia do Papa e o quanto nos falta caminhar para a dimensão da fraternidade na Igreja Católica: «Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa» (Gl 3, 27-29). Deus criou-nos com o dom maravilhoso e desafiador que é a liberdade. Disto uma porção enorme do mundo não gosta, as ditaduras não gostam, a soberba não gosta, os dominadores donos disto tudo não gostam e obviamente o veneno do clericalismo que varre a Igreja Católica de alto a baixo não gosta.
- O caminho da liberdade passa pela nossa entrega à vida sem que tenhamos que andar submetidos a ninguém, mas apenas e só ao amor que se dá até às últimas conquências. Só é livre quem se entrega a Deus pela ação em favor dos outros. Quem se esconde para si ou anda de coluna vergada a alguns, vive na esterilidade e na tristeza. Esta não é a vontade Deus. A liberdade não tolera ninguém vergado na horizontalidade, mas na verticalidade olhando olhos nos olhos, para reconhecer os outros como irmãos seus semelhantes em todos os aspetos.
- Pode acontecer que muitos ao longo da história em nome dessa liberdade doação e entrega a Deus tenham estado presos e foram mortos, mas foram pessoas livres e fiéis a Cristo, o exemplo máximo da entrega e doação por amor. Por acreditarem na fraternidade, muitos venceram poderes de toda a ordem, fizeram brilhar a justiça, amordaçaram a boca dos lobos e leões, apagaram fogos de ódio e de vingança, escaparam ao fio da espada, curaram-se de doenças e curaram os outros, foram valentes nas guerras e converteram exércitos a fazerem das armas relhas de arado… E ainda outros, porque não se vergaram à escravidão sofreram açoites, passaram pelo escárnio, viram o degredo das prisões, apedrajados, serrados ao meio, degolados pela espada, fugiram das suas casas e família, vestidos com trapos e peles de carneiros e de cabras, oprimidos, passando privações de toda ordem. Um leque de gente enorme que se beijou as mãos de alguém não foi para adorá-las, mas para sará-las da indignidade miserável.
- Por isso, só posso ver no gesto do Papa Francisco, uma graça sinal provocador, para que nos converta a todos à fraternidade. A Igreja precisa de abdicar de ser uma sociedade, onde alguns são uns privilegiados, adolados e adorados pela maioria. Mas uma comunidade de irmãos entre irmãos, porque também uma comunidade de pecadores entre pecadores, a começar pelo Papa. Cristãos adultos na fé e na dignidade é o que se deseja.
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