Não deixarei que me assassinem no plano político, escreve André Escórcio com o título “Nego-me Cantar a Reboque”

André Escórcio tem andado no centro da discussão política no seio do Partido Socialista, na Região. Insurgiu-se contra o silêncio da atual direção do PS-M, relativamente a um vídeo de cariz sexual envolvendo o vice presidente Avelino Conceição. Se o partido não tomasse uma decisão condenando a atitude, mas com consequências, entregaria o cartão de militante. O partido não saíu do silêncio e Escórcio fez o que prometera. Agora, questiona-se na praça pública se foi Escórcio que pediu para sair, se foi o partido que o afastou. O afastamento já foi negado pelo secretário-geral João Pedro Vieira, diz que foi Escórcio que se afastou do partido.

O visado pouco reagiu durante todo o dia. Mas há poucas horas, na sua página do facebook, apresenta um texto que tem um título: “Nego-me Cantar a Reboque”. Escreve que “no exercício da política não existe memória, existe atropelo, em muitos casos, a lógica do salve-se quem puder e a oportunidade para subir, pelo menos temporariamente, no elevador do salário e das ligações tendencialmente prósperas”. Lembra Churchill, que um dia disse que a política “é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes”. Churchill tinha razão, na política a “guerra” é perigosa pela vastidão dos interesses em jogo. No plano pessoal, embora compreendendo a dimensão e o contexto das palavras do estadista britânico, porque não morri na guerra colonial, também não deixarei que me assassinem no plano político. Os direitos de cidadania, em um país tendencialmente democrático, permitem que, pelos outros, pelos que estão a nascer e a despontar para a vida familiar e profissional, continue a utilizar a escrita tal como nos versos de José Mário Branco:

“A cantiga é uma arma

e eu não sabia

tudo depende da bala e da pontaria…

Mais à frente, lembra que, um dia, leu uma carta que, “depois de várias críticas, algumas justas, era assinada pelo “Meliante” X! Foi alvo de uma certa graça, porque logo espoletou a diferença entre militante e meliante. De facto, ambos coexistem nos partidos políticos, uns sem pontaria, outros, de pantufas, que surfam as ondas, mantendo-se, ilusoriamente, na sua crista. São tantos os escândalos, as patifarias, as negociatas, as mentiras, os afastamentos como quem corta capim para abrir o trilho, as lutas pelo dinheiro, as subserviências aos grandes senhores que impõem e dispõem, que só nos resta não permitir que nos matem, antes continuem a escutar o embaraço de quem, livremente, pensa e age em conformidade”. Volta a José Mário Branco

“(…) Se tu cantas a reboque

não vale a pena cantar

se vais à frente demais

bem te podes engasgar (…)”

Não tenho, confesso, raiva por ninguém, nunca pressenti esse pesadelo, e embora a alegria não seja muita, há uma coisa que é certa: nego-me “cantar a reboque”. E já que estou em maré de canções, corre-me, neste momento, no pensamento a canção dos “Resistência”:  Mais do que a um país; Que a uma família ou geração; Mais do que a um passado; Que a uma história ou tradição; Tu pertences a ti; és de ninguém”.

E André Escórcio termina o seu escrito desta forma: “Deixem-me em paz”.

 

 


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