Os Muros

Passava-se nas décadas de 40 e 50 do século passado o que hoje dá corpo à crónica costumeira com que realizo este treino de escrita, a que me imponho desde há poucos anos, quando gentilmente me inscreveram neste fórum. Décadas de 40 e 50, tempos recuados de alguma obscuridade, onde se diluem memórias de costumes retrógrados e práticas temerárias, que actualmente se abrem à nova maneira de entender e interpretar a História, à luz de sucessivas conquistas do pensamento e esclarecedoras teses sobre os contextos sociais em que hoje nos inserimos.

É  a esse tempo que retrocedo para activar uma lembrança: Havia um vocábulo  repetido entre a família, os amigos e os vizinhos que soava aos meus ouvidos de criança como uma banalidade qualquer, sem que nenhuma dúvida me assaltasse, porque, nascida e vivida nas práticas duma igreja católica, o que dela emanava, além da Palavra de Cristo, era uma pequena resenha de hábitos tornados «lei» que haveriam de cumprir-se: Pequeno véu a cobrir a cabeça das mulheres, ao entrar no templo, vestir-se de preto na Semana Santa, não comer carne na sexta-feira, e pouco mais. Mas a tal palavra que, na aproximação da Páscoa se ouvia em todo o sítio, em acto reverente, era «Desobriga».

Chega-me neste momento às mãos um documento onde, sob este título, «Desobriga», toda a família paroquiana, dos avós aos pais e aos filhos é solicitada a doar uma contribuição financeira para fundo de culto, afim de se penitenciarem todos, por ingerir carne no dia indicado. Simplesmente pagar para poder prevaricar. Quem se «desobrigasse», poderia, tranquilamente consumir carne na Sexta-feira Santa –  ajuda para as despesas da paróquia, forma de penitência para substituir a abstinência.

Recordo tudo isto sem especiais comentários. Trata-se apenas do relato duma memória. Mas acrescento que, neste documento, o valor monetário está em euros o que me leva a deduzir que a prática, eventualmente, poderá ainda manter-se.

A minha apetência pela mobilidade, leva-me, a propósito desta circunstância, a um país por onde alongo a curiosidade pelo mundo e vejo-me em frente da magnífica Catedral de Ruão, protagonista duma aliciante experiência de Monet, que registou, a partir dela, todas as possibilidades cromáticas da luz, em várias telas elucidativas do impressionismo nascente. Espanto-me como sempre, perante os prodígios arquitectónicos, as magnificências da arte, o culto da chamada beleza. Mas sobra-me de tudo isto uma pequena clareira onde se expõem certas interrogações. As cabanas, a fome e a indigência dos pobres surgem-me sempre diante dos olhos a ofuscar o brilho destas projecções, a imposição destes muros invictos, belos sem dúvida, mas perturadores na sua sumptuosidade e na sua ruptura com a condição precária e frágil com que tantos sobrevivem. Temo declarar aqui esta minha atitude próxima da  injúria, mas assumo a ousadia.

Não acuso senão esta sensação de abismo que se abre perante as contradições em que se move a vida humana.

Termino com a constatação duma realidade inesperada.:A torre direita da Catedral de Ruão, acrescentada, três  séculos depois, ao primitivo projecto, foi construída no séc. XV com os contributos do povo, que comprava o perdão para poder consumir manteiga durante a Quaresma. Desta maneira cumpriam os normandos a sua «Desobriga». A torre guardou assim para todos os séculos dos séculos a singular e irónica designação de «Tour de Beurre».

A construção da Torre da Manteiga desestabilizou toda a fachada que teve de sofrer sucessivas intervenções, afim de manter o seu equilíbrio.  Ainda hoje a torre  está por concluir e a sua base apresenta a agrura da pedra tosca por não suportar os ornamentos que, à semelhança do resto da catedral, se destinariam a dignificá-la e a conceder-lhe estilo. Há quem se arrisque a falar de maldição pelo recurso às indulgências com que a a Igreja iludiu a boa fé dos crentes. Assim se levantam os muros insupostos do nosso desapontamento.

 


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