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A sociedade portuguesa está estruturada, cada vez mais, numa base de entretenimento. Quase tudo é para entreter. O político entretém o povo, o povo entretém-se com isso, com as novelas e o futebol, um pouco de fado, mesmo com algum enfado, com os casados à primeira vista e respetivas réplicas, como por exemplo o carro do amor, sobre as quais as pessoas sabem praticamente tudo, o que faz a mulher que parece mais velha do que na realidade é, de outra que é tão jovem que não deveria ir para ali, do homem que à primeira conversa espalha-se ao comprido, já se sabe o que quer, ou outro que fala pouco e parece uma “mosca morta”, não vai longe naquele desafio, nem naquele nem nos outros, da mulher que fala muito e é uma mandona de “primeira apanha”. Apanha se puderes, foi outro dos programas. E “chovem” comentários que nunca mais acabam, tempo bem (?) passado a entreter e a ser entretido. Umas horas, por semana, uns dias valentes por mês, seguramente uns meses por ano ocupados com este “material”, entre a declaração do IRS e o pagamento da última prestação do IMI, que, neste caso, mesmo a sério, são coisas que não se consegue escapar entre a diversão e a folia que é o dia a dia da comunicação, mesmo aquela que se diz social.
Estamos tão embrenhados nisto que são poucos os que se apercebem da lista de devedores da Caixa Geral de Depósitos, do tempo das “vacas” gordas em que os mecanismos de regulação não funcionaram, os governos assobiaram para o lado e o dinheiro desapareceu em quantidades astronómicas, apesar dos Bancos, nessa mesma altura, como de resto agora, fazerem um “chinfrim” para emprestar 500 euros a uma pessoa, que é obrigada à devassa da sua vida e a preencher papelada que dava meia resma de papel à vontade. Se não pagasse, era logo penhora em cima. Era mais prático ter conhecimentos e pedir milhões por telefone, mesmo sabendo que era para “pregar no teto”, como diz o povo e como aconteceu. Não temos tempo para grandes avaliações, para perceber as manipulações estatísticas e outras.
O tempo que levamos a ver a transferência milionária da Cristina Ferreira, uma jovem da Malveira que, diga-se, tem o seu mérito por ter atingido o estrelato na televisão, neste modelo de televisão, o tempo que dedicamos à “casa da Cristina”, da entrevista que a Cristina dá ao Rodrigo Guedes de Carvalho e da entrevista que o Rodrigo Guedes de Carvalho dá à Cristina, numa estratégia de sinergias, que é tão abrangente que não se consegue ver outra coisa, é melhor não fazer contas. Do Goucha e das audiências, das audiências e das impertinências que a vulgaridade oferece de sobra, tudo isso não permite que as pessoas (uma maioria) entendam muito bem aquela história do homem que foi condenado e nunca é preso, do preso que sai muito mais cedo, do violador que raramente vai para a cadeia, do agressor que tem pulseira mas mata na mesma, do polícia que chega o bastão ao “pelo” de um homem, que por ser de raça negra já pode dizer que é racismo, mesmo que os vídeos sejam apresentados sem a história toda, do polícia que bate desmesuradamente e deve ser punido e não é, enfim um conjunto de “casos sérios” da nossa vida real. O Bairro da Jamaica existe, e mal, há anos, meio construído, todo ocupado. E bastou meia bastonada para cair o “mundo” do politicamente correto. E discutir o Bairro da Jamaica e as razões da sua existência, não era importante?
A polícia perde força, as palavras perdem importância, as de índole racista arrastam multidões pelas redes sociais, o perigo está à porta, mas pelo menos estamos entretidos com a visita da Cristina às novas instalações da SIC, com a anfitriã Clara de Sousa, jornalista pivot do Jornal das 20, que de vez em quando dança noutros programas, nas tais sinergias, sem que seja caso único, antes pelo contrário, que acabam por confundir a opinião pública, que tanto chama jornalista ao Goucha como chama entretainer a um jornalista. Quem diz Goucha, diz qualquer líder dos muitos programas da manhã e da tarde. E, já agora, da noite e da madrugada.
A verdade é que, no meio desta inconsciência de algum povo consumidor (disso dependem audiências), neste caso particular, até tem razão na confusão que faz relativamente ao que consome. O jornalismo, às vezes, é uma diversão permanente, não se sabe muito bem onde começa a notícia e onde começa o entretenimento. Às vezes, tantas por sinal, começa em notícia e acaba em entretenimento. Os jornais e as televisões andam a baralhar a “malta”, são agências de viagens, são organizadores de eventos, são políticos e económicos ao mesmo tempo, mas ninguém entrega a carteira profissional, nem ninguém da carteira vê, chamam a isso sinergias, sendo que há uma energia para entrar dinheiro e outra para sair notícias, energias positivas claro está.
Assim, desta forma, os consumidores, distraídos e atordoados com tanta sinergia, apesar de terem a perceção que há muitos desempregados, logo ficam esclarecidos, preto no branco, que afinal o que há é mesmo emprego de fartura e as pessoas é que não querem trabalhar, mesmo sabendo que há empresas que vão recrutar ao desemprego, beneficiam com os apoios e depois “sugerem” trabalhar mais de doze horas e nem pagam a parte que lhes compete. É a globalização, a economia acima de tudo, a pretexto da criação de mais postos de trabalho, é o que chamam desenvolvimento no seu melhor. É melhor ganhar cem euros do que nada, a teoria do miserabilismo. Trabalhar das 9 às 9, muitos deveres, poucos direitos. Um entretenimento, diga-se de passagem. Às vezes, um “entretenimento” chamado precariedade. Não tem piada nenhuma para quem está nessas condições. A piada está nas estatísticas e em alguns empresários, felizmente não todos. Não se pode falar nem só de deveres nem só de direitos. Mas, claro, como é isso possível se uma pessoa é um número?
Esta sociedade do entretenimento, do facilitismo e do oportunismo, está a acabar com todos os valores preparados e defendidos por gerações. Um povo entretido tem valido muita coisa. E quanta coisa temos visto por esse mundo fora.
Só que, atenção, podemos entreter povo durante algum tempo. Mas não é possível entreter todo o povo durante todo o tempo.
Um dia destes, pode haver aquele desabafo de outras paragens: chega de brincadeira. Vão entreter outros…
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