As periferias na Madeira à luz do Papa Francisco

  1. A mensagem central do Papa Francisco vai sempre, na direção de uma Igreja «em saída», porque é a «única possível, segundo o Evangelho». Francisco convida a «nunca perder o contacto com a realidade», por considerar que isso faz parte do testemunho cristão: «Na presença de uma cultura dominante que coloca em primeiro lugar a aparência, aquilo que é superficial e provisório, o desafio é escolher e amar a realidade». O Papa ressalva insistentemente a importância de manter o olhar «fixo no essencial», porque «os problemas mais graves» para a Igreja «surgem quando a mensagem cristã é identificada com aspetos secundários que não refletem o coração do anúncio». «Num mundo em tão rápida transformação, os cristãos têm de estar disponíveis para procurar formas e modos de comunicar, com uma linguagem compreensível, a perene novidade do Cristianismo» (Papa Francisco em várias das suas mensagens). É este o enquadramento geral, como apelo a todos os grupos e movimentos religiosos, comunidades, dioceses e outros. Vamos nesta linha de desafio desbravar algumas periferias entre nós.
  2.  O desafio da unidade. Estamos todos massacrados pela metralhadora da comunhão e da unidade. Mas nada de concreto se viu neste domínio. Grassa a inveja, a intriga, as divisões e tantas outras banalidades fúteis que requerem atenção. As tais propaladas unidades e comunhões, parece que seriam apenas e só para grandes acontecimentos,  liturgias medievais e celebrações sem passado e sem futuro. Tudo serviu para falar, falar e falar sem que medidas concretas surgissem e que provocassem as badaladas da unidade e da comunhão. Há uns que são mais clero dos que os outros. Podem saber da vida interna da igreja, mas outros não. O dever da transparência é só para alguns. O dever de ser corpo presente apenas e só.  Os excluídos neste campo são muitos.
  3. A pobreza, porque «a verdadeira riqueza da igreja são os pobres». Sempre se alimentou a ideia entre nós que os principais responsáveis por ela são as próprias vítimas dela. Por isso, fazer apenas umas caridades para que se mate a fome por alguns momentos. Mas reclamar políticas e uma governação que acabasse de uma vez por todas com a pobreza isso não. Neste domínio prevalece a maior multidão da nossa terra, votada ao esquecimento, mas para que não reclame ou não acorde este povo, vai sorrateiramente sendo contentado com as centenas de festas que se realizam ano fora nesta nossa terra. Mas coisa a sério que se veja para que se implemente ação concreta que liberte da pobreza e confira dignidade humana, pouco ou nada temos visto. Neste domínio a degradação do património é confrangedor e requer uma atenção redobrada para o fazer render e reverter para a promoção dos madeirenses em geral, particularmente, os mais necessitados.
  4. Os separados da vida matrimonial e os recasados. Tanto debate sobre este assunto nos últimos, mas ficou à volta do Papa Francisco e nas trincheiras do Vaticano na guerra que os grupos conservadores movem contra o Papa. Entre nós, continua tudo na mesma. Nunca ouve uma posição clara quanto a este aspeto. Mantém-se a confusão, a maioria abeira-se da comunhão, os poucos obedientes e escrupulosos ainda se mantêm de fora. Uma ambiguidade manhosa que prefere a confusão em favor de uma posição clara e determinada pelo desafio integrador que a linguagem do Papa tem feito lembrar a toda a Igreja. Neste campo, os excluídos estão aí à vista de todos. Uma periferia que requer atenção.
  5. Há na Madeira uma Paróquia que está ostracizada da Diocese há mais de 40 anos. Nos 45 anos  pós 25 de Abril (celebrados precisamente neste de 2019), nenhum bispo desta Diocese colocou naquela Igreja os pés. Um escândalo que em nenhuma parte do mundo deva existir. Tudo a pretexto de uma babuseirada que levou à «suspenção ‘ad divinis’» (expressão mais estranha e soberba para aplicar-se um castigo vindo totalmente da vontade humana – Deus deve rir-se destas coisas). Uma periferia que reclama uma presença do seu bispo, porque é intolerável esta exclusão patética baseada nos mais elementares princípios da vida, a diversidade do pensamento e a livre expressão das ideias. Enfim, uma vergonha que mantém um escândalo feio onde se labuzaram religiosos e políticos carregados de interesses puramente mundanos.
  6. Nada nos deve travar a ousadia do desafio, nem os conservadorismos, nem os populismos devocionais e nem a mania de que sempre foi assim e que os excluídos são os principais responsáveis pela sua desgraça. Diz o Papa: «não nos podem parar nem as nossas debilidades, nem os nossos pecados, nem tantos obstáculos colocados ao testemunho e anúncio do Evangelho», quando urge ganhar e manter a coragem de «chegar a todas as periferias que precisam da luz do Evangelho». Basta que nesta hora prevaleça uma linguagem nova, clara e objetiva, sem medo de nada, por todos contra ninguém, para que na nossa terra envelhecida, cansada de egoísmos e narcisismos, ecoe pelas nossas cidades e pelos nossos campos uma Igreja renovada e de acordo com a força do Evangelho de Jesus Cristo. Porque a Igreja é «o povo das bem-aventuranças e a casa dos pobres, dos aflitos, dos excluídos e perseguidos, daqueles que têm fome e sede de justiça». E, como é «missionária por natureza, tem como prerrogativa fundamental o serviço da caridade a todos» – a começar «dos últimos, dos pobres, dos  que têm as costas dobradas pelo peso do cansaço e da vida» – e são inerentes à sua vida e missão no mundo e para o mundo «a fraternidade e a solidariedade universal». Finalmente, digo eu, este é o meu desejo, um sonho idealista, dirão alguns, mas é o que me inspira esta hora.