Celebrar a efeméride histórica sem a História

Celebrar uma efeméride histórica com a História é princípio elementar e consensual. Diferente tem sido, todavia, o entendimento da Comissão Executiva da Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira, que se guia por aquilo que diz ser a tradição e pela historiografia do século XIX, lida indirecta e enviesadamente no velho Elucidário Madeirense, editado, pela primeira vez, em 1921 e acrescentado em 1940.

Trata-se de uma comissão presidida por um conhecido advogado e composta por cinco vogais sem formação em História, sendo quatro deles ligados à Secretaria Regional do Turismo e Cultura e um à Associação de Promoção da Região Autónoma da Madeira, que, por sua vez, está também relacionada com a Direcção Regional de Turismo.

Também na Comissão de Honra não está nenhum historiador madeirense. Nem tão-pouco o Arquivo Regional da Madeira e o Centro de Estudos de História do Atlântico mereceram representação institucional.

Apesar de publicamente sugerida, nunca fizeram uma reflexão sobre a data mais adequada para assinalar o Sexto Centenário. Inventaram a desculpa de que os historiadores não chegariam a uma opinião consensual e logo, animados com o espírito do arraial madeirense, decidiram os governantes regionais celebrar de véspera, projectando para 2018 uma efeméride engendrada na fantasia, na senda do velho ditado: Da Festa, as vésperas.

Não se conhece o Programa Oficial das Comemorações. Apenas tive notícia, no Conselho Consultivo, de um rol mal-amanhado de algumas intenções e eventos, numa folha Excel. Pesquisando no sítio oficial dos 600 anos: Madeira, Porto Santo não se encontra tal Programa, mas sim uma agenda de eventos ocorridos e a realizar, sendo os próximos da pouco imaginativa série Madeira a cantar, concurso mais adequado a uma empresa de animação ou a uma estação de rádio ou televisão do que a uma Direcção Regional de Cultura ou uma Secretaria Regional do Turismo e Cultura, mas que integra as comemorações e já rendeu contratos no valor de cerca de 164 300,00 euros (IVA incluído) para a respectiva logística.

Esta Comissão, que desdenha o saber da História, andou no Porto Santo a celebrar presunçosamente uma data sem significado histórico e colocou nesta ilha uma estátua do Infante D. Henrique, concebida há quase 90 anos para uma exposição internacional de exaltação do colonialismo. Em vez da assunção da contemporaneidade artística, preferiram uma peça escultórica com significado diminuto na obra do grande Francisco Franco; em vez de aproveitarem a ocasião para homenagear o porto-santense que, durante séculos, resistiu estoicamente a fomes, secas, epidemias, ataques de piratas e corsários, cativeiros e outras pragas e misérias, optaram por dar relevo ao Senhor da Ilha – o duque de Viseu – que lhes cobrava tributos, apesar dos escassos rendimentos então alcançados; em vez de uma escultura desinteressante e anacrónica, péssima e indignamente colocada no espaço público, os porto-santenses desejariam, por certo, o transporte marítimo todos os meses do ano.

Outro exemplo de desprezo pela História: do livro do historiador Alberto Vieira O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões foram impressos 300 exemplares. O folheto 600 anos: Madeira, Porto Santo, distribuído com a edição de 30-11-2018 do Diário de Notícias, do Funchal, teve uma tiragem de 55 000. O primeiro é um livro de História, de quem muito se tem dedicado à investigação. O segundo é um folheto de propaganda, com quatro páginas de umas notas históricas inqualificáveis, três entrevistas bem pré-cozinhadas (Miguel Albuquerque, Paula Cabaço e Guilherme Silva) e uma resenha de eventos realizados. O livro perdurará, será consultado e terá sempre utilidade. O folheto da propaganda mal disfarçada acabará fatalmente no lixo ou na fogueira. Mas custou 88 450,00 (IVA incluído). Assim se gasta o dinheiro público na instrumentalização partidária de uma efeméride histórica.

Em jeito de balanço, como é comum neste tempo, concluo que o trabalho da Comissão Executiva dos 600 anos pouco interesse teve para os madeirenses e porto-santenses, sobretudo no âmbito da educação, cultura e promoção da identidade insular. Recorde-se aquele bem dispendioso Congresso Internacional – Contributo da Expansão Portuguesa para a Economia Mundial –, realizado em Novembro passado no Centro de Congressos do Casino da Madeira, sem ninguém a assistir para além dos oradores participantes, mas com certificado de presença à discrição para quem assomasse à porta.

Convém também referir a exposição, que custou mais de 1 milhão de euros, As ilhas do ouro branco – arquipélago da Madeira: do século XV ao século XVI, com cerca de 13 000 visitantes, número muito aquém do esperado e bastante baixo para um projecto do Museu Nacional de Arte Antiga, conforme afirmou o seu director no programa Casa das Artes, episódio n.º 11, de 8-03-2018. Anunciou-se provável deslocação desta exposição ao Porto, mas afinal o acervo regressou silenciosamente à Região, após o seu encerramento na capital, sem que a maioria dos madeirenses ou porto-santenses a pudesse visitar. No Funchal teria, por certo, maior número de visitas.

Não fosse a programação alusiva da RDP e da RTP-M e o cidadão comum não daria conta das comemorações do descobrimento.

Tudo tem servido para associar aos 600 anos: Carnaval, provas desportivas, desfiles de moda, festas da flor, do vinho e do fim do ano… Até o fogo-de-artifício era dos 600 anos, mas afinal nada se viu de diferente! Quando se cola às comemorações tudo o que há anos habitualmente acontece no calendário de eventos festivos, é sinal de que nada de novo se tem para oferecer.