As denominadas lojas dos chineses vieram disponibilizar, a preços módicos, muitos e diversos enfeites natalícios. Entre outros, vulgarizou-se o uso de velas artificiais na lapinha e gambiarras led por toda a casa.
Há anos as pirosas searinhas de plástico arredaram as naturais. Mais recentemente, a vela a pilhas, com ou sem oscilador de chama, tem vindo a substituir a tradicional lamparina que alumiava o Menino Jesus.
O azeite está caro. Dá trabalho substituir o pavio, limpar a rodela de cortiça e repor o azeite. Mais prático é ligar o interruptor da vela. Consome pouco, produz luz duradoura e garante segurança. Simula uma lamparina.
São, sem dúvida, argumentos aceitáveis. Contudo, a luz do azeite confere magia à lapinha. Com a lamparina aprendi a compreender o significado do presépio.

O poeta madeirense Florival de Passos (1914-1989) invocou, com sentimento, a lamparina do Menino Jesus:
Tão pequenina a luz! A luz de azeite
Que alumia Jesus. Tão pequenina!
E tudo tão modesto… A lamparina
De linda cor, mas sem nenhum enfeite.
Quadro perdido já da minha infância…
E tanta luz na minha vida toda…
E só aquela é que anda à minha roda…
Luz de azeite perdida na distância…
Lembro-me de lamparinas com pavios naturais. Vizinhos que usavam cálices da erva-das-lamparinas, planta comum nos quintais e hortas, que servia também para infusões com fins medicinais.
Segundo Raimundo Quintal, trata-se da Ballota nigra subsp. ruderalis (Sw.) Briq., conhecida por marroio negro, erva-das-lamparinas ou erva-dos-pavios. Após a queda das corolas, as plantas mantêm os cálices. Depois de secos, eram utilizados como pavios nas lamparinas do Santíssimo e das lapinhas.
Na Madeira, o presépio é tradicionalmente denominado de lapinha, diminutivo de lapa com o significado de gruta. Apresenta duas variantes distintas: a escadinha e a rochinha. Pelo dia de Nossa Senhora da Conceição ou na primeira Missa do Parto, a lapinha costuma estar pronta.
A escadinha ostenta três lanços. Antigamente, utilizavam-se, para o efeito, as medidas de cereais: alqueire, meio e quarta. Com o fundo para cima, o alqueire servia de base. Sobrepunha-se-lhe o meio alqueire e, de seguida, a quarta. Estava, assim, montada a escadinha.
Normalmente, é forrada com papel – «papel de ramagens», conforme Horácio Bento de Gouveia – e disposta sobre uma cómoda ou uma mesa, coberta com uma toalha de linho bordada. No topo da escada (ou trono), coloca-se a imagem do Menino Jesus, rodeada por um arco de flores de papel e ladeada por duas jarras com junquilhos ou sapatinhos. Nos outros degraus, apresentam-se pastores (figuras de presépio), frutos (laranjas, tangerinas, peros, castanhas ainda nos ouriços, nozes…) e as searinhas. É habitual também colocar um pão (brindeiro) e uma lamparina de azeite. Na parede, afixa-se um galho de alegra-campo e sobre a cómoda ou mesa não faltam as tradicionais cabrinhas e uma jarra com ensaião.

A rochinha é feita com papel pardo, pintado com viochene. Molda-se o papel em consonância com os volumes que esconde. Procura-se imitar montanhas, vales, fajãs e uma gruta. Recria-se a paisagem da Ilha. Gambiarras iluminam serras, chãos e caminhos.
Em tempos passados, as socas de canavieira serviam para moldar o papel pintado e salpicado de pós, coloridos e reluzentes, das rochinhas miniaturais, que se punham sobre mesas, arcas ou cómodas. Mas hoje estão a cair em desuso.
Armada a rochinha, dispõem-se as figuras de presépio, casas, igrejas e, por vezes, um coreto para a filarmónica; fazem-se caminhos, lagos, riachos, cascatas e levadas; dependura-se o alegra-campo na parede; distribuem-se as searinhas, o azevinho, as mimosas, o ensaião, os sapatinhos, as cabrinhas e outras verduras. Na gruta, recria-se o cenário da natividade. Por fim, colocam-se os frutos da época e acende-se a lamparina junto do Menino na manjedoura.
A luz tremeluzente e ténue envolve o crente e dá especial encanto à Festa. Há quem reze, quem aconchegue a memória, se reconcilie ou se despeça. Estado de espírito que a lamparina de azeite favorece e dificilmente a vela artificial sugere.
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