Há 41 anos deu-se o segundo acto do tenebroso Outono da aviação na Madeira

Ainda em choque com o acidente do Boeing 727 “Sacadura Cabral” que vitimou mais de 130 pessoas a 19 de novembro de 1977, a Ilha volta a ser notícia com mais um acidente fatal. Na noite de 18 de dezembro, um Sud Aviation Caravelle da companhia Suíça SA de Transport Aérien (SATA) – sem relação com a transportadora açoriana -, oriundo do aeroporto de Genebra, embateu na água inexplicavelmente, numa noite de céu limpo, sem qualquer falha ou emergência decretada. Ainda se salvaram mais metade dos 57 ocupantes, fruto também do mérito dos pescadores de Santa Cruz que se fizeram ao mar com as suas pequenas embarcações de pesca, e resgataram todos os que puderem encontrar à superfície. A aeronave ficou à tona o tempo suficiente para que a maior parte dos ocupantes se evadisse antes de rumar às profundidades, e se agarrassem a coletes salva-vidas que estavam a flutuar. Ficou desaparecida até uma equipa de mergulhadores encontrar os destroços em 2012. Fotos publicadas então mostram a fuselagem do HB-ICK aberta pelo tecto, com os motores P&W ainda no sítio. Não houve acesso a caixas negras, mas afortunadamente a tripulação ficou viva para contar e defender-se. Importa referir que o controlador aéreo de serviço era o Sr. Lourenço, de Gaula, que serviu de testemunha chave no processo de investigação, cuja publicação se encontra disponível no site do GPIAAF. Aferiu-se que a tripulação não reunia as certificações e experiência requeridas para aterragem noturna na Madeira, num voo que estava a servir de exercício de treino. Este acidente nada teve a ver com má visibilidade, ventos, comprimento da pista ou qualquer parâmetro atribuível à Madeira. Deveu-se essencialmente a negligência grosseira da tripulação e da própria SATA.

Contudo, este acidente deixou um impacto muito grande na aviação mundial, contribuindo para haja mais segurança hoje em dia. Este evento é epítome do dito popular que “as leis da aviação estão escritas a sangue”.  Foi por pouco que não se salvaram quase todos os passageiros. Verdadeiramente inverosímil, o impacto no oceano foi tão suave (como uma pedra que se atira para a água e vai ressaltando) que não houve uma grande desaceleração, e a fuselagem abriu por cima (tal como uma vargem de feijão verde), dando a hipótese de escape. Não havia ondulação, e a proximidade de terra era tal que em poucos minutos havia botes de pesca a recolher gente. Na aviação não há possibilidade de confiança na sorte, o azar está sempre presente quando não se cumprem as regras.

Dois fatores deitaram por terra o que poderia ter sido um milagre de Natal, um grande susto em vez da eventual tragédia.

Em primeiro lugar, o formato da fivela do cinto dos assentos. Hoje em dia o standard é uma fivela que se manipula horizontalmente. Abre da esquerda para a direita, e basta um pequeno toque com a mão direita para que se solte. Nos cintos que equipavam aquele Caravelle, a abertura era feita puxando uma pequena fivela baixo para cima. Tragicamente, vários passageiros não conseguiram libertar-se durante os derradeiros dois minutos em que o avião flutuou, porque a fivela prendia nos botões da roupa ou em colares, dificuldade agravada pela obesidade, e com o (compreensível) pânico foram sepultados no mar, plenamente conscientes.

Crédito da foto: relatório do acidente no site do GPIAAF

Dos que conseguiram evadir-se do destroço inundado, alguns ficaram a flutuar com o colete inflado, e em teoria teriam facilmente sido salvos pelos pescadores. De botes pequenos no meio da escuridão só se conseguiram detetar as pessoas mediante os seus gritos ou avisos sonoros, pois os equipamentos de iluminação resumiam-se a pequenas lanternas. Como se pode imaginar todos gritaram o mais que podiam, enquanto as cordas vocais deram resposta. Alguns dos que ficaram afónicos assistiram desesperadamente aos barcos navegando às cegas à sua procura, sem conseguirem sinalizar a sua presença.

Depois deste acidente os cintos passaram a ser obrigatoriamente abertos horizontalmente, e os coletes passaram a conter um pequeno apito para o acidentado poder sinalizar a sua posição aos agentes de busca e salvamento.