Crónica de viagem: Neve, a outra face de Kiev

Já estive na Ucrânia três outras vezes. Este é um dos países mais belos e mais visitados do leste da Europa. Kiev, a capital ucraniana, é o lar de séculos de história e cultura. Tornou-se independente em 1991, e hoje é um local turístico e popular para os viajantes da União Europeia, que não precisam de visto para entrar no país. O povo tem sempre um sorriso no rosto, tentando ajudar.
Muitos deles conhecem apenas algumas palavras em inglês, mas isso não os impede de tentarem uma conversa. Se gosta do frio e da neve, é a altura ideal para uma visita a cheirar a Natal. As viagens de avião são a preços convidativos, bem como as estadias e a alimentação. No mês de Dezembro nos países do hemisfério norte, são tradicionais os mercados de Natal.
Acontece porém que essa quadra na Ucrânia, de maioria ortodoxa, só se comemora no próximo dia 6 de Janeiro, e os mercados são mais tarde. Na altura que programei a viagem não pensei nesse pormenor. Apesar de já ter começado a construção dos mercados, a sua abertura só será no próximo fim-de-semana. As ruas ficam iluminadas e decoradas ,as crianças divertem-se em carrocéis, as canções natalícias tocam sem parar… Mesmo com o frio e a neve, os mercados acontecem ao ar livre em pontos estratégicos das cidades, como nas medievais praças centrais.
De onde vem essa tradição? Há quem atribua a Dresden o primeiro mercado de Natal verdadeiro, em 1434.
Acredita-se que o percursor dos mercados de Natal é o Dezembermarkt (em português Mercado de Dezembro) da cidade austríaca de Viena. Porque no ano de 1296 0 imperador Albercht I concedeu aos comerciantes o direito de manter um mercado por um ou dois dias, logo no início do Inverno, para que os moradores da cidade pudessem armazenar suprimentos para enfrentar o frio nos meses seguintes. A partir daí começaram a surgir em toda a Europa os mercados de Inverno.
Com o passar dos anos os mercados passaram a ser conhecidos como mercados de Natal  e tornaram-se uma tradição. Tive oportunidade de conhecer os de Budapeste, Berlim, Reino Unido e Holanda. Encontramos nesses mercados o tradicional pão de Natal, o vinho quente, frutas secas, nozes, castanhas, artesanato, brinquedos, livros, ornamentos e objectos de decoração natalícia em geral. Uma experiência única e inesquecível que representa o verdadeiro espírito festivo.
O mercado de Natal em Kiev é na Praça Sophia, onde está a catedral com a árvore do Ano Novo: como são ortodoxos, só comemoram a 6 de Janeiro. A gastronomia é muito rica e o frango de Kiev é comida de imperatriz. A sopa de Borschté, a mais importante da cozinha  ucraniana, possui uma variedade de legumes de estação, carne, feijão e ervas frescas, e em especial a beterraba. O Deruny são panquecas de batata, é feito de batatas raladas, servido quente com creme de leite e iogurte sem açúcar.
Não vi o mercado de Natal, mas tive oportunidade de revisitar locais que conhecia mas com um visual muito diferente, debaixo de uma chuva miudinha, porém bem agasalhado, com o meu tradicional gorro soviético ushanka, munido de  luvas e com as minhas botas â prova de água não temo o gelo que se acumula junto aos passeios.
O tempo é convidativo a um vinho quente para amenizar estes 3 graus negativos. Da minha boca sai uma “fumaça” como se tratasse de uma locomotiva a vapor. Tive um contratempo inesperado: a minha máquina fotográfica resolveu entrar de férias ou então estranhou as baixas temperaturas e paralisou, deixando-me desarmado. Recorri ao telemóvel, algo que tenho sempre renegado na captura de imagens. Lá diz o ditado, quem não tem cão caça com um gato… Nem quero acreditar, até fiz uma selfie.
Sempre que aqui venho não me canso de visitar o memorial da Segunda Guerra, inaugurado em 1981 com a estátua da mãe Pátria com 62 metros de altura de titânio maciço, hoje envolvida de um manto branco, coberta de uma neblina, e com carros de combate e material bélico cobertos de neve. Com roupas adequadas visitei lugares muito abertos. O segredo está em entrar em cafés para dar uma descongelada e continuar de seguida o programa traçado…
Regresso com um cheirinho a Natal à ilha, esperando que aquele triste episódio que se repete de ano para ano possa encontrar uma continuação do que aqui vivi… faça-se luz.
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