Os cães, esses nossos “irmãos”!

O meu último cão, melhor dizendo a “LUNA”, deixou-me na terça-feira de  manhã, assim com muita pena e SAUDADE.

Como animal de estimação, que o foi, assim como os 8 anteriores, ela  foi de certo modo a mais querida, acompanhando-me numa fase penosa da  minha vida, a perda do meu marido.  Nestes dois anos em que foi feliz,  deu e recebeu carinho e dedicação, mais e mais do que dos nossos  irmãos humanos…

Tinha perdido o Jarbas, um cão com pedigree, um lindo Fox-Terrier,  traquina, alegre, com quem na altura partilhava o cesto com a minha netinha mais nova, a Clara, e usufruindo durante 10 anos da sua companhia, foi um desgosto grande. Ele foi o cão que sempre desejei ter desde miúda (anos 36 /40), muito na moda na praia da Ericeira, onde passava o Verão com os meus pais e avó paterna, quando não íamos à Madeira.

Nunca tivemos qualquer animal até virmos para a Madeira, pois que meu pai, como professor, tinha uma vida errante de Liceu em Liceu.

Na minha infância na Ponta Delgada, houve duas cadelas que me deixavam brincar, andar às cavalitas, eram elas a Lindinha e a Miss. A primeira morreu de doença e a Miss não sobreviveu quando a minha avó foi para Lisboa, acompanhar a minha mãe já doente. O meu pai e eu ficámos a tomar conta dela, mas ela deixou de comer com a saudade da dona e acabou por morrer .

Mais tarde, um parente, médico veterinário, que sabia do meu afecto aos cães, deu-me um fox-terrier de pelo liso, que trouxe do Funchal para a nossa casa da Ponta Delgada, dentro duma pequena caixa de sapatos: o Bob. Eu era já adolescente e convidei uma das minhas melhores amigas do Liceu a passar o Verão lá em casa onde o Bob cresceu. Tenho dele várias fotografias e quando viemos viver para a Rua dos Louros, no Funchal, ele teve a alegria de um grande quintal.

Em frente ao prédio, havia uns terrenos da Junta Geral, com meia dúzia de cães vadios, para quem meu pai comprava pão para os alimentar. Aí viveu feliz, até quando a minha avó faleceu, mas depois que meu pai se consorciou de novo, e eu vim continuar os meus estudos na Faculdade de Letras de Lisboa, o meu querido Bob, sentiu a separação. Deixou de ter quem tanto lhe queria e, quando numas férias vim à Madeira, chorei, pois ele estava triste e cheio de reumático!

Anos mais tarde quando casei, o meu marido e eu ambos éramos apaixonados por animais -CÃES – claro está. Comprámos então o nosso primeiro cão, o Bolinhas, a um sapateiro lá da rua para onde fomos viver e foi ele o nosso grande companheiro durante muitos anos até vésperas do nosso terceiro filho nascer. Com ele tivemos também o primeiro e único gato, o Xaneco, um pequeno tigre amarelo, vivaço e brincalhão, que foi bem aceite pelo Bolinhas, então já de meia idade ,mas que o acompanhava nas marotices! Aos dois, juntou-se  um cágado grande, o Chico, oferecido por uma prima nossa ,a Maria Augusta Vieira, irmã do Vieirinha da “Casa PÁTHÉ”. Ele veio então viver com os outros dois amigos : o Bolinhas e o Xaneco. Todos se respeitavam entre si e dormiam os três num cesto grande, entrando primeiro o cão, depois o gato e, por fim no seu andar arrastado , o Chico ! Ele era melómano e, mesmo quando hibernava, acordava, punha a cabeça de fora para ouvir. Quando ele bebia água do mesmo prato dos outros dois animais,eles afastavam-se dando-lhe a primazia. Era enternecedor; mas, um dia o Xaneco morreu ao atirar-se numa corrida da janela da varanda
e quebrou-se essa harmonia. Entretanto, com o nascimento do nosso filho bebé, em Guimarães, isto perto da época de exames, houve o baptizado dele e o meu marido que fora colocado em serviço de exames em Santarém saiu e não se despediu do Bolinhas. Morreu de saudades.

Mudando para Santo Tirso, logo um amigos nos presentearam com um pequenino XimTsu, o Gigante a quem nos afeiçoamos desde logo. Os anos foram passando, ele teve uns problemas de saúde e, quando recuperou,  quando numa tarde de Verão o fomos passear ,roubaram-nos! Novo desgosto na família,colmatado com a oferta de um Pointer, castanho, lindo e meigo, mas que numa noite em que o soltámos para ir passear, nuncca mais voltou. Seguiu-se um Scotch-Terrier, preto, obediente, meigo, comprado no Porto a um casal inglês, a família Seagra , que os educava e era”very bright”, como dizia Mrs. Seagram. Notou-se que ele com seu Pedigree escocês, sentia-se só e, então, a nossa filha comprou uma fêmea, a Seagram para nos oferecer; porém, como eram meio-irmãos, a
criação dos únicos quatro bebés, foi uma ninhada sem grande sucesso e dois morreram logo, embora a mãe Seagram fosse  devotadíssima.

Entretanto, passou à nossa porta uma cadela Pastora Alemã, a Uta, que nos adoptou e juntou ao casal. Eram três cães: duas fêmeas e um único macho. A Uta e o Whisky apaixonaram -se, o que a Seagram não perdoou.
Enfim, a Uta era igualmente dedicada, mas dormia numa casota no quintal e o casal dentro de casa. Ela apanhou esgana, pois com frio ou chuva não se abrigava à espera sempre que chegávamos das aulas e assim morreu.

Vieram as férias e, num fim-de-semana, fomos, eu e o meu marido, a Lisboa , ficando os dois cães à guarda dos meus vizinhos .Quando regressámos, a fêmea estava doente, levámos de imediato ao nosso veterinário e verificou-se que tinha sido envenenada; não houve  nada a fazer, pois esses dois dias de ausência foram fatais. Todos chorámos, eram os nossos “bebés” que iam desaparecendo! O Whisky ainda durou mais uns anos e veio a morrer doente com tumor canceroso nos intestinos, esperando até que eu chegasse a casa. Doeu-nos uma vez mais o nosso coração , era como que tivesse sido uma pessoa querida da família .Os cães ,os nossos amigos de toda uma vida, os nossos “irmãos ” que nos confiam as suas vidas , que nos acompanham, sem se zangarem
connosco, acompanhando-nos, sentindo os nossos pesares, alegriasm são os amigos de toda uma vida!

Mas, não queríamos ter mais desgostos e tivemos uns meses sem essa companhia desinteressada, até que num regresso de férias da Madeira, apareceu uma cadelinha preta, pequenina, de pelo longo e luzidio, a quem chamámos Blacky. Foi o encanto de toda a família: nós, filhos e netos. Com ela fomos duas vezes à Madeira, portando-se muito bem no avião, de tal modo que as hospedeiras a mimavam, assim como alguns passageiros. Passados uns meses, levei-a ao veterinário, pois achava-a triste e, depois de ele a observar, declarou-me que o tumor estava a chegar ao pescoço, teria apenas mais meia dúzia de dias. Não quis ouvir mais e despedi-me dela a chorar. Minha querida menina!

Estas são as minhas vivências mais saudosas dos meus cães. Desde a casa dos meus avós maternos e paternos, os cães foram sempre aquele “membro “da família, que nos ama incondicionalmente, que vive para nós, fiel, verdadeiro, como os humanos não o sabem ser as mais das vezes e que nos deixam um vazio na alma para todo o sempre.

Esta minha última cadela, durante estes dois anos, fui buscá-la ao canil municipal, foi a minha maior e melhor companhia, esperando por mim para comer, exigindo apenas as refeições a horas, chamando-me quando o telefone tocava, quando eu não ouvia a campainha, mimando todos os da casa e dormindo aos pés da minha cama, apenas acordando-me para ir ao  jardim fazer as suas necessidades. Foi exemplar, não estragou nada e só espalhou saudade a nós, família, e a todos com quem conviveu.