Em primeiro lugar, um registo de interesses, diferente daqueles que (não) acontecem aos políticos, que mais do que o registo de interesses têm interesses sem registos. Vamos lá a este, que é muito mais pacífico e não mete nada ao bolso: gosto muito de futebol, mas não vou à bola com isto, leia-se isto o que se passa no futebol, ou à volta dele mais propriamente, que absorve um povo “inundado” por uma inteligência artificial, esta artificial mesmo, não aquela que hoje chamam artificial a pretexto da tecnologia que substitui o nosso pensamento. Artificial no sentido do acéfalo, das massas que normalmente são assim e que dão “passadeira vermelha” às outras “massas”, a sério, que fazem passar milhões mesmo a centímetros do nariz de muita gente, a maioria já sem o sentido do olfato apurado para aquilo tudo.
É a boçalidade ao extremo, convivendo com o nosso dia a dia, momentos de grande elevação destrutiva de um País, em que todos nós, independentemente da raça, do credo ou das classes, temos responsabilidades que nem assumimos nem deixamos alguém assumir. Os casos de Alcochete, do etoupeira, do Apito Dourado para ir mais para trás, das claques, dos jogos de alto risco, que só por serem de alto risco nem deviam acontecer, até às questiúnculas menos graves, mas sem raciocínio na mesma, tudo isso é feito num País que se demitiu de por na ordem a desordem de certos setores que vivem (quase) na impunidade. Com responsabilidades dos políticos, dos sócios dos clubes que elegem um líder da mesma forma irracional com que veem um jogo. A bola não entrou, mas é golo na mesma. E se elegem irracionalmente, admitem perfeitamente que um qualquer irracional seja eleito. Quantos já foram assim…
Não sei se o futebol ainda pretende ser uma escola de virtudes, mas penso que essa tese já foi defendida noutras “universidades” e sem sucesso. Entende-se o objetivo de quem, de forma acérrima, fez essa defesa. Era certamente uma boa ideia termos jovens na prática desportiva, na modalidade de eleição, para eles, beneficiando de um clima em que o desporto e a competição acrescentavam algo ao todo que é a sua formação. Era uma boa ideia, não passou disso, como se vê todas as semanas, naquele futebol que, no contexto do desporto, é mais forte e popular, neste conceito perverso e distorcido de força e de popularidade. Mais forte pelo bastão e pelas injúrias dentro e fora dos campos, mais popular pelas massas que rejubilam pelo bigode farfalhudo de um presidente ou pela voz mais grossa do outro, com quem querem tirar uma selfie custe o que custar. Depois, as redes sociais rendem uma semana inteira de contabilização de gostos, partilhas ou bonecos tristes, alegres e assim, assim. É triste, mas é assim. E também é assim que se fazem certos líderes, uns autênticos “DDT” – Donos Disto Tudo.
Antes de chegarmos ao futebol profissional, hoje por hoje na ordem do dia pelos acontecimentos verificados em clubes de renome, temos, na génese da prática desportiva, a formação. Os clubes apostam, e bem, embora nem sempre aproveitando os jovens nos escalões superiores, por força, muitas vezes, da pressão daquela massa adepta de coração na boca. Mas, ainda assim, apostam. Acontece que, também aí, surge um problema, uma espécie de claques, pais, avós, tios, primos, conhecidos dos tios e adeptos das confusões. Vão aos campos, insultam os árbitros, pressionam os miúdos, chamam nomes que os próprios filhos nem imaginavam que eles eram capazes de dizer, transformam-se nuns projéteis que disparam para o futuro como uma semente que, ao mesmo tempo que se semeia, já cresce. Mais ou menos uma preparação para os seniores, não para jogaram no campo, mas para irem a jogo nas bancadas.
Claro que é preciso, por ser justo, dizer que há muitos pais que não são assim, são efetivamente civilizados, conseguem ver o desporto pelo desporto, uma prática onde a formação desportiva deve ser equiparada à formação do jovem e onde o resultado, o golo ou a falta são registos que devem ser equacionados na exata medida do que é racional e emocional quanto baste. Só que o figurino dominante é outro e não podemos ficar surpreendidos quando assistimos, nos grandes palcos, a situações que, em condições normais, seriam vistas como um atentado à própria segurança nacional.
E é neste contexto, quando surgem situações desta natureza, que nos questionamos sobre o que estão a fazer os poderes, o executivo, o legislativo, o judicial. O que estão a fazer as autoridades. O que estamos a fazer relativamente à impunidade no futebol. O medo que têm do futebol deu lugar ao absurdo comportamental. O que estamos a fazer no que se prende com a formação dos nossos filhos que praticam desporto e têm estes exemplos que entram, todos os dias, pelos olhos e pela cabeça? Que sociedade queremos construir no futuro quando não construímos nada que se veja no presente? Que formação queremos? Que futebol queremos? Que País Queremos? Que vida queremos?
Claro que não queremos….
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