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(*Professora na Universidade da Madeira/Investigadora no Centro de Estudos Comparatistas )
Ao Pedro Lamares, pela generosidade intelectual.
As vinte e nove composições poéticas do livro Um Mover de Mão abrem o volume Contra Mim Falo publicado, em 2016, pela Editora Plural. Nesta antologia, onde se reúne quase toda a poesia de Vasco Gato, o leitor pode encontrar, ainda, o livro intitulado Fera Oculta. Neste poema dedicado ao filho que vai nascer, a voz do texto lamenta não poder recebê-lo num mundo reinventado sob o signo da esperança. Trata-se de um registo, em jeito de missiva, íntimo e intenso. Os cinco “andamentos de afeto” são, simultaneamente, orquestrados pelo panorama inóspito da nossa década. Num tempo movido por um “estranho comércio” (p. 336), as leis da sociedade hodierna são feitas de abismos, corridas desenfreadas e convulsões. Curiosamente – ou talvez não – este texto (com cerca de 20 páginas) foi editado pela Douda Correria, em 2014. Na modernidade líquida do nosso quotidiano, a poesia pode ser decifração.
Um Mover de Mão. A primeira leitura, numa tarde solarenga do mês de outubro, e a segunda leitura, numa manhã sombria de novembro, permitiram-me entender a arquitetura da paisagem amorosa e íntima da escrita de Vasco Gato. Todavia, neste livro, inicialmente publicado pela Assírio & Alvim (2000), a escrita não se resume a uma poética regulada pela apologia da perfeição afetiva. Não se expõe, apenas, uma idolatria da relação na sua sensibilidade apolínea e no seu mapeamento irrepreensível. A voz do texto apresenta o assombro, a rendição amorosa e o ímpeto vital que caracterizam a partilha e o (des)encontro amoroso. A vertente intimista está presente. Questionando trilhos, elencando gestos e afagos, a linguagem poética do autor vem recordar que a relação amorosa, assente na utopia do possível e do realizável, está alicerçada na sua (in)completude e na sua demanda constante:
“imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol a sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor. “(p. 9)
Um Mover de Mão. Reflito em torno da poética sensorial e da múltipla construção dos sentidos. Atento, ainda, na dúvida da interlocutora do enunciado poético:
“«e se as esquinas não dessem para outra rua e tudo
se abismasse de súbito: como saberias de mim?»
perguntaste-me” (p. 33)
Surgem, assim, dúvidas e dissonâncias na (in)certeza da sabedoria do relacional. Opto, primeiramente, por memorizar a gramática do encontro que explora o “íntimo pulsar” (p. 28) e acredita na “réstia de sonho” (p. 31):
“sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
– é tudo isso comprido no pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canção ao acordar o ano. “(p. 34)
A utopia (a utopia tem sempre o seu reverso) deste discurso apresenta margens e precipícios aos quais se chega em modo desassossegado e encriptado. Nestas coordenadas poéticas, a utopia da (in)completude dos sentidos não é “uma espécie de eternidade amordaçada” (p. 29). Repito com(o) o poeta, nesta cidade à beira mar:
“hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar” (p. 34)
Um Mover de Mão. É certo que se trata de uma leitura oblíqua pela poesia de Vasco Gato. Nesta nota obviamente parcelar, a montagem discursiva que aqui se opera pretende tão só dizer o Outro (dizer-se ao outro), mas, e talvez sobretudo, auscultar o Eu e o Mundo.
Neste sentido, a interrogação de Henry David Thoreau “Could a greater miracle take place/than for us to look through each other’s eyes for an instant?”, que serve de epígrafe às cinco sequências poemáticas de Vasco Gato “entendo que esvoacem as pálpebras//se um jardim se reúne em silêncio e sossego. (…)”, delineia outras hipóteses de interpretação. Ao referir Thoreau, a escrita de Vasco Gato esboça enigmas, opera renovadas leituras e perscruta outras realidades.
Um mover de mão. Sob o signo da poesia íntima e sensorial, a escrita observa a utopia e diz “o tempo que há-de vir” (p. 37). A poesia é um rapto (disse Herberto Helder). Deixo apenas neste apontamento um repto…à poesia. Qual palimpsesto (ir)real? Regressarei, em breve, à obra de Vasco Gato, quer à poesia mais recente, quer à primeira incursão pela escrita dramatúrgica. Interessar-me-á a leitura que o autor espraia pela cultura da (in)comunicabilidade do ser e dessoutros desejos de estar no mundo. Procurarei auscultar a leitura que o escritor regista da demanda de superação de pulsares antagónicos e limitadores.
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