Gente nova – nova gente

 

De regresso à Ilha, após uns meses de ausência, não da minha actividade como professora em vários graus de ensino: primário,
preparatório, secundário e ainda como orientadora pedagógica, ligada à Faculdade de Letras do Porto e que cumpri durante cerca de 40 anos aqui em Santo Tirso. Aqui vivo, quando não estou sempre que posso e não como o meu coração deseja na romagem de saudade à minha Ponta Delgada, tal como meu Pai. Afinal, sempre desejávamos passar aí a nossa velhice, mas por uma razão ou outra parece-me que só fica aí, o coração.

Este Verão quase não fui ao Funchal e “matei ” saudades da velha casa, consultando o resto do espólio de meu Pai, que irá mais tarde ou mais cedo para “guarda” e consulta dos muitos estudiosos que o nome dele suscita.

Lendo e relendo muitas das vezes gazetas e jornais dos anos 20 do século passado, dei-me de súbito ao virar a página da então chamada Folha Quinzenal–Gente Nova-nº 1 , 2ª série, que ao tempo era órgão da Academia Funchalense. De coluna em coluna, de artigo em artigo, saltaram-me aos olhos nomes ouvidos na minha infância e juventude, de pessoas essas que ainda tive o gosto de conhecer através de meu Pai, conterrâneo que foi desses homens das Letras e amigo da maior parte deles.

Tinha então a gazeta colaboradores como os seguintes nomes: Dr. António Augusto da Silva Pereira, Dr. Antonino Pestana, Dr. Domingos Reys Costa, Dr. João Augusto de Freitas, Major João dos Reis Gomes e Dr. Manuel Pestana Júnior, sendo Editor  J. Ascensão Lino e a redacção instalada no velho Liceu de Jaime Moniz, situado que foi primitivamente  no Largo do Colégio, onde hoje está instalado o Museu de Arte Sacra .

Curiosa é a nota de abertura da autoria do saudoso Dr. Álvaro Favila Vieira, então estudante, que a certa altura afirmava: «Sem programa nem espalhafato berrante, vimos a público numa  época de transfusão espiritual, em que o espírito parece querer firmar-se, definir-se, isolar-se desta vida roncante que o materialismo pulha de meio cento de estômagos, generalizou à consciência das raças. E é por este facto que o nosso jornal será uma vibração, uma nota vermelha do espírito dos novos – alargando-se em ascensão vitoriosa de vida mental, esboçando-se em afirmações do seu querer, da sua fé. E assim, nesta segura consciência de nós próprios, rompendo com convencionalismos tolos, acorda de novo o silêncio a «GENTE NOVA» no intento forte e rasgado de a essa multidão desordenada de almas, que é a Academia do Liceu de «Jaime Moniz» dar unidade e dar beleza.».

Creio pois que esta ansiedade  desses estudantes de 1920- 1921, ainda hoje circula na nossa juventude actual, é a aspiração das almas conscientes e na verdade a roda da vida, não tem não tem evoluído tanto quanto agora se fala, pois os jovens com quem contacto diariamente, de há mais de 20 anos, trazem com eles o sonho da renovação que se processa num movimento cíclico.

Fala-se hoje muito no papel da família na educação da juventude, e aí está o que as Associações de Pais dos Alunos das Escolas Primárias, Preparatórias, Secundárias e por que não mesmo Universitárias cabe fazer; é necessário cada vez mais uma maior simbiose entre pais e filhos e não vimos ao extremo do “laissez faire, laissez passer”  que ruiu sobre os jovens nestes últimos 10 anos e que fez com que o jovem e o mestre não fossem mais um seguidor e um orientador, mas, nem tu -cá -tu- lá, sem o menor respeito e disciplina.

O jovem, quer ele tenha 12  ou 18 anos, gosta de copiar o que de bom ou mau ele lhe transmite, e por isso o professor tem que dar-se aos seus alunos, dar-lhes segurança ensinar sem impor, chamar na altura devida,  advertir, ser não apenas o professor, mas pai ou mãe ao mesmo tempo. O professor tem de saber para transmitir, tem de estar sempre actualizado, tem de evoluir e acompanhar os jovens ávidos do saber e da vida que se lhes abre; mal vai o professor que fica estagnado com a sua carta de curso e não vai mais além.

Não há alunos totalmente” destituídos “, mas há alunos “desfasados”, não há alunos  “maus”, mas jovens muitas vezes incompreendidos e, além de tudo, há professores que não se esforçam para ver o que neles há de aproveitável e a partir daí moldar, burilar e aproveitar o que presta.

E ainda  nessa GENTE NOVA, o Dr. Antonino Pestana, grande amigo que foi de meu avô Francisco Bento de Gouveia, e de meu pai Horácio Bento de Gouveia, dizia a certa altura num artigo também da 1ª página : (…) «Muito para desejar será que os” encarregados de educação e pais d’alunos ” se colocassem à altura da compreensão  deste empreendimento em ordem a nunca falecerem aos seus filhos e educandos os incentivos e todos os auxílios materiais necessários, no bom desempenho desta missão que, parecendo  minúscula, é muito grande».
Estas relações pais, professores, alunos, não são de agora, não são as Associações de Pais algo de novo, mas a mesma preocupação da missão a cumprir.

Esse “jornalinho” de 2 páginas é repleto de artigos de mestres e alunos, poesia, actualidades literárias da época, além duma coluna
dedicada  às  “Coisas do Mundo “;  com uma crónica de NATAL datada de 1920, de meu pai, cujo título é de uma beleza harmónica de sensibilidade de artista de letras, como ele o soube ser. O título era “Impressões Coloridas ” e o subtítulo–Elegia descritiva de um doente do ritmo.

É duma riqueza reveladora das suas qualidades de prosador, de um poeta da sua aldeia, a sua “Ponta Delgada”, sua única “amante” , e termina assim : «Agora a paisagem não tem cor no silêncio estático da noite bendita de meus olhos cheios de prazer, transbordantes de  emoções».

Ponta Delgada, Verão  de 2018
*A autora segue a antiga ortografia.


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