Crónica de viagem: Madeirense terá sido negociante de escravos no Benim

Eugénio Jean, ex-professor e gerente de um hotel no Benim, é descendente de um madeirense.

Viajar tem destas coisas: por vezes depara-se com histórias verdadeiramente curiosas e intrigantes. Esta fascinou-nos, sem dúvida, mesmo que haja um elemento de lenda à mistura. Mas, dada a realidade do Benim, não é difícil que tenha, verdadeiramente, sido verdade.

600 anos depois da Descoberta da Madeira, continua por escrever a história da emigração madeirense. E não faltam exemplos curiosos a acrescentar à diáspora. No Benim, país da África Ocidental onde nos encontramos, deparámos por acaso com uma narrativa que, achamos, bem merece a atenção do leitor.

Tomava tranquilamente o meu “petit dejeuner” no hotel em Cotonou quando o gerente do mesmo me abordou só com uma pergunta: “Funchal?” Respondi naturalmente que “oui”, convidei-o a sentar-se, e a reportagem caiu mesmo ali, na mesa do pequeno-almoço. O gerente do hotel é um ex-professor, de nome Eugénio Jean Baptista. Com 52 anos e cidadão do Benim, corre-lhe todavia o sangue português nas veias.

O seu bisavô, Francisco José de Medeiros, era não só português, mas madeirense, e natural do Funchal. Chegou em 1850 ao Benim. Antes disso, já teria estado em Angola.

Segundo o gerente, tornou-se comerciante em Ouidah, no Benim (localidade a que os portugueses chamavam Ajudá, e onde mantinham uma fortaleza). Perguntei-lhe que comerciava o bisavô. A resposta surpreendeu-me: “Escravos”.

Francisco de Medeiros, o seu bisavô, ter-se-á dedicado ao comércio de escravos no séc. XIX. O seu avô foi Eugénio de Medeiros e o seu pai, Alberto de Medeiros.

Francisco José de Medeiros estabeleceu-se em Ouidah, como já dissemos, onde veio a ter um filho de nome Eugénio José de Medeiros. Faleceu em 1874, quando a escravatura já tinha sido abolida.

Consequentemente, seu filho Eugénio já não pôde seguir a duvidosa profissão do pai. Eugénio José teve muitos filhos. Reza a história familiar que foram vinte, embora quatro deles tivessem falecido. Dedicou-se ao comércio, mas de outras mercadorias.

Um dos seus filhos, Alberto de Medeiros, tornou-se enfermeiro. Actualmente já falecido, era o pai do actual gerente do hotel Saint Jean, em Cotonou. O bisneto do dito comerciante de escravos ainda tem uma casa em Ouidah, que pertencia ao pai.

É caso, de facto, para dizer: quantas histórias há ainda por contar sobre os emigrantes da Madeira, os lugares para onde partiram e as actividades a que se dedicaram, com os nossos historiadores sem meios suficientes para investigar. Passaram 168 anos que este madeirense aqui chegou e fez descendência, e já lá vão 144 anos que Francisco José Medeiros faleceu.

A história pode parecer algo rocambolesca, mas não duvido dos seus contornos de verdade. O gerente do hotel exibiu-me um documento assinado por Miguel Maria Pupo Correia, capitão de infantaria e governador, entre 1932 e 1938, da Fortaleza de São João Baptista de Ajudá (ou seja Ouidah, no Benim). O papel atesta que o pai do gerente, Alberto de Medeiros, era filho de Eugénio José de Medeiros e tinha direito a cidadania portuguesa, devendo a mesma ser reconhecida pelas autoridades portuguesas ou estrangeiras.

Também me mostrou um documento da Associação dos Descendentes de “Don Francisco José de Medeiros”, designada também por “Alliance Omo Alakpa Fuja”. Alakpa era a designação deste português na língua local. Este documento mostra bem o interesse dos cidadãos do Benim pela sua genealogia e ancestralidade europeia.

Esta é, de facto, uma das características das elites do país: o facto de terem tido antepassados esclavagistas, alguns dos quais de origem europeia ou brasileira. O Benim foi durante séculos um importante entreposto de comércio de escravos. Daqui partiram milhões de seres humanos para a América do Norte, o Brasil e o Haiti, entre outros lugares. Os próprios africanos escravizavam outros africanos para os venderem aos europeus, que depois ali acudiram em força, entre eles os portugueses, tanto vindos de Portugal como do Brasil.

Os africanos de hoje no Benim continuam, como pode inclusive ler-se numa interessante reportagem do jornal americano Washington Post, disponível online, a ter uma relação dúbia com o seu passado. Por um lado, envergonham-se de terem escravizado outros seres humanos, originários da mesma terra que eles. Por outro, sentem um orgulho mal disfarçado pelas suas raízes europeias. Neste caso, portuguesas. A lenda familiar ajuda ao resto. Formam-se grupos genealógicos de descendentes, para manterem viva a memória dos seus “ilustres” ancestrais. No caso deste Francisco de Medeiros, chegam mesmo a investigar a origem do nome Medeiros, traçando a sua origem desde Medeiros, na paróquia de Vila Chã, em Montalegre, no distrito de Vila Real, e levando-o até Rui Vaz de Medeiros, um fidalgo que se estabeleceu na Madeira no século XV, mais precisamente na Tabua, e que consideram antepassado directo de Francisco José de Medeiros. É isto que se pode ler nos boletins da já referida “Associação dos Descendentes”.

O gerente do hotel, Eugénio Jean, mostrou-me fotografias dos seus antepassados mais próximos pela linha paterna, seu pai, seu avô e seu bisavô. Mostra-se orgulhoso da sua origem portuguesa e quer discuti–la com um estrangeiro, madeirense ainda por cima, natural da terra do antepassado que para ali emigrou.

A ideia de que o bisavô deste simpático ex-professor pudesse ter traficado escravos poderia, à partida, ser considerada absurda, se não estivéssemos no Benim. Convém ter em conta todo o historial deste país. Escravos, no séc. XIX? Podemos duvidar. Mas convém recordar que a escravatura, embora abolida nos territórios portugueses pelo Marquês de Pombal em 1761, demorou a desaparecer. Esta abolição apenas atingiu o tráfico de escravos, mas muitos prosseguiram o mesmo, que não era ilegal, para as Américas. O comércio de escravos foi novamente proibido por Portugal no princípio do século XIX. Mas só em 1854, por decreto, foram libertos os escravos que restavam, e apenas em 1869 se verificou de facto a abolição “prática” no império Português. Por outro lado, no Brasil, a escravatura só foi efectivamente abolida em 1888. Nos EUA, foi abolida em 1865.

Portanto, este nosso conterrâneo hoje celebrado pelos seus antepassados, como “Don Francisco José de Medeiros”, que alguns deles acreditam mesmo poder ser “descendente de Vasco da Gama” – aqui a lenda já parece excessiva – pode bem mesmo ter traficado escravos em meados do séc. XIX, por estas paragens do Benim.

Em todo o caso, fica a história, que nos surpreendeu e fez pensar. Este madeirense terá nascido em 1817, faleceu no Benim em 1875, a 15 de Julho, e encontra-se enterrado no cemitério paroquial de Agouè. Em 2005, foi publicado um anúncio num jornal local, assinalando 130 anos desde a sua morte em Ouidah.