Crónica de viagem: Por terras do Benim

A minha escolha… o porquê do Benim!
Tenho o continente europeu praticamente concluído nas minhas viagens. Os países que me interessa visitar, na Europa ou Médio Oriente, oferecem dificuldades na obtenção dos vistos. É o caso do Iraque, Síria, Irão e algumas antighas repúblicas soviéticas. Mas não desisto.

No continente asiático, tenho o puzzle praticamente concluído, acontecendo o mesmo com a América do Norte e do Sul. Da Oceânia,  por percorre resta somente uma meia dúzia de ilhas.
O Continente Africano é grande, cheio de conflitos, nada convidativo e pejado de dificuldades, que “afugentam” muitas pessoas. Só agora, numa fase avançada da minha vida, me apeteceu lançar-me nesta aventura .Conheço alguns países  como a Namíbia, a África do Sul, Angola, Moçambique, Gâmbia, Cabo Verrde, Quénia, Tanzânia, e recentemente a Etiópia… E isso levou-me a voltar a África…

A escolha não é fácil e as dificuldades encontradas esbarram quase sempre com dificuldades a obter o visto de entrada, já que a maioria dos países africanos não tem representação diplomática em Portugal.
Já há alguns anos que deixei de comprar as minhas viagens nas agências da especialidade.
Quem idealiza, escolhe os trajectos, efectua a compra dos transportes aéreos e trata das estadias sou eu.
Quando arranco, já levo a história do país na bagagem, sabendo o que me espera, deixando somente 20% a cargo da aventura.
Desta vez a escolha caiu no Benim, um país da África Ocidental de língua oficial francesa. Também se fala ali ,fon, fariba, fulani e ioruba. A população atinge cerca de 8.078.314 almas nesta República,onde a moeda é franco CFA (Communauté Francaise Africaine ).

As coisas aqui não são rosas. Sessenta por cento da população não tem acesso a água potável, o país é o 163º no ranking da ONU e a esperança média de vida de 55.44 anos.
Para chegar ao Benim, a viagem é geralmente feita com escala em Paris. Não é o meu caso: utilizo o aeroporto de Istambul viajando na Turkish Airlines, companhia” familiar” na maioria das minhas viagens, a preços  convidativos. E é sempre agradável ver a Mesquita Azul, de passagem.

O Benim tem a ver com a História de Portugal: foi rota de escravos, ali há um forte português dos tempos da Expansão. Outra atracção é a sendo a designada Veneza africana, onde vive o “povo da água”: Ganvié, uma aldeia construída sobre estacas no lago Nokoué, a cerca de uma hora de bartco da cidade de Cotonou. Tudo isto é a ementa forte que vos irei descrever ao longo das minhas crónicas.
Conseguir o visto não foi tarefa fácil. Como já disse, não há representação diplomática desta republica africana em Portugal. A maneira mais rápida seria através da França-Paris. Mas o envio do passaporte não oferece garantias de que o documento não se perca, e o seu desaparecimento apagaria por completo a minha história gráfica de viagens… Acarinho todos aqueles carimbos.

Tentei obter o visto através da Embaixada do Benim em Pretória, África do Sul, por via de um amigo naquele país. Este contactou os serviços consulares do Benim em Pretória, mas sem sucesso. Optei pela embaixada em Bruxelas e aguardo até hoje informação. Por ultimo, recorri à embaixada parisiense e o meu correio electrónico foi finalmente correspondido. Em menos de 24 horas foi-me concedida essa “carta de alforria”. A batalha foi vencida, toca finalmente a fazer as malas.

Aterrei em Cotonou num voo da Turkish  Airlines após 06h35. O aeroporto não tem grandes requintes, a bagagem não causou dificuldades e eis-me com passaporte com carimbo de entrada. No ar da cidade, sente-se uma névoa clara e quente. No exterior  do aeroporto, uma carrinha do hotel aguardava-me. Estou na cidade de Cotonou com os seus 700 mil habitantes, bem próximo de Porto Novo, capital política do país, para onde regressaram aqueles que voltaram após a abolição da escravidão no Brasil.

Já no hotel, ao ligar a televisão, deparei-me com uma curiosa atracção comum: a telenovela. Pois é, a população do país assiste dedicadamente às novelas, por entre diversos outros programas nacionais de música e entrevistas que percorri, cujo foco era a educação.

Um duche e uma muda de roupa e estou operacional para explorar o centro da cidade. O comércio está voltado para a venda de tecidos coloridos e alegres. Os automóveis são comprados ainda no porto. Há muita propaganda de serviços e salta-me à vista a fotografia de Cristiano Ronaldo, algures entre a paisagem urbana da cidade. Nos centros comerciais, há salões de beleza, bares, restaurantes, e a população consome os bens da chamada civilização ocidental. Cá fora, vê-se pouco luxo.
A higiene não é o aspecto mais apreciável de Cotonou…
Em Cotonou é marcante a presença de inúmeras construções com mão de obra estrangeira, principalmente chineses. Sou surpreendido pela presença maciça de motos e mototáxis. São os chamados ZM, diminutivo de zemidjan ,que significa ,”leve-me depressa”. Os condutores envergam coletes amarelos, que os identificam. Capacetes, pouquíssimos. Os táxis são todos pintados de verde e amarelo.

Já estou familiarizado, já tenho o cheiro de África no meu rosto salpicado da poeira e suor de uma tarde passada entre o bulício da cidade. Com o corpo pegajoso do calor e humidade, anseio por um segundo duche.

Durante o meu passeio, não resisti a uma espreitadela nas ementas dos restaurantes: tenho em mente o que vou jantar, “frango  à bicicleta”, o legítimo prato beninense. Tem bom aspecto, com os frangos dispostos de pernas para o ar e acompanhados de batatas fritas, arroz ou cuscuz marroquino.

Frango à bicicleta é o nome dado aos frangos que vivem em liberdade e quando correm, dão a impressão de estar de bicicleta (não são de aviário…!) Com uma cerveja bem geladinha, é um mimo .Esta noite vou preparar o roteiro dos próximos dias. Acordo todas manhãs com o pensamento de que algo curioso está a ponto de acontecer. Bom dia, boa tarde, boa noite, caros leitores do Funchal Notícias. Até à próxima crónica.