Recolhimento do Bom Jesus: até à ruína total?

O abate das árvores da Rua do Bom Jesus tornou mais visível o estado de profunda degradação do Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira. Este imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, reconhecido pelo Governo Regional, nos anos 90 do século passado, como instituição da Diocese do Funchal, não tem merecido a atenção devida, nem do seu proprietário nem da entidade que tutela o património regional.

Depois de realizado o levantamento arquitectónico, artístico e do mobiliário pela DRAC, o Governo Regional manifestou, publicamente, em 1992, a intenção de apoiar a sua recuperação. Mas, desde então, apenas se realizaram, em 1995, obras de restauro na igreja, que ainda hoje se mantém aberta para cerimónias religiosas e concertos nos Festivais de Órgão, apesar de a torre ameaçar ruir.

Foto Rui Marote

 

O edifício longitudinal, que serviu de residência das recolhidas, e que se desenvolve, em vários corpos, ao longo da Rua do Bom Jesus, encontra-se devoluto e, progressivamente, vai caminhando para a ruína, pela degradação das suas coberturas e estruturas, muitas infiltrações de águas pluviais e falta de arejamento.

Instituído nos meados do século XVII pelo arcediago da Sé do Funchal, Simão Gonçalves Cidrão, o Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira já estava em actividade em 1666, com 25 recolhidas. Tendo por padroeira Nossa Senhora do Carmo, como lembra o registo de azulejos do século XVIII, da fachada nascente, esta casa abrigava «fêmeas arriscadas a enganos do mundo e moças pobres arriscadas», segundo documento daquele ano.

Não se tratava de um convento, mas de um recolhimento, com fins filantrópicos, dirigido por uma regente, eleita cada triénio. Pelos respectivos Estatutos, as recolhidas tinham, diariamente, diversas obrigações religiosas, que cumpriam no coro da capela. Todavia, estas mulheres devotas e recolhidas não estavam afastadas da vida secular.

Com a implantação da República, alterou-se o governo do Recolhimento, passando a depender de uma comissão administrativa nomeada pelo governador civil. Manteve-se, no entanto, a figura da regente, sendo agora nomeada pela comissão. Creio que um dos últimos presidentes desta comissão administrativa foi Luciano Sales Correia, também comandante dos Bombeiros Municipais.

Nos finais do século XX, ainda funcionava como Recolhimento. Lília Bernardes (1956-2016) publicou na revista do Diário de Notícias (31-03-1991) uma reportagem intitulada «Uma casa chamada solidão», que constitui emocionante retrato de uma instituição agonizante: «Trinta e quatro mulheres entre os trinta e os oitenta e muitos anos vivem repartidas por quartos sem o mínimo de condições. Num imóvel nu. Que cai aos bocados. Que range. Que transpira solidão. Medo. Abandono. Fim. O perigo iminente de um incêndio assusta-as. Dorme-se com botijas de gás à cabeceira. O frio gela. Arrepia.»

O Recolhimento sobreviveu por mais de três séculos. Já há alguns anos que não vivem ali mulheres marginalizadas pela família ou pela sociedade. Extinguiu-se a instituição de solidariedade social. Contudo, ainda figura no capítulo Obras de Acção Sociocaritativa, na secção Outras, do Anuário da Diocese do Funchal: 2018.

Foto Rui Marote

É agora um edifício abandonado. Testemunho de um tempo em que a protecção da mulher desamparada ou fragilizada passava por instituições desta natureza.

Exemplar singelo da arquitectura barroca no centro histórico, em avançado processo de degradação, constitui zona de risco do Funchal, susceptível de ser afectada por um incêndio, com elevadas possibilidades de propagação urbana.

Parte importante do acervo artístico do Recolhimento está hoje à guarda do Museu de Arte Sacra e da Diocese do Funchal, tendo já figurado em exposições como, por exemplo, A Madeira na rota do Oriente (Naveta de prata, séc. XVII; Dormição de São Francisco Xavier, em madeira estofada, policromada e dourada, séc. XVII; Virgem com o Menino, em marfim, de inícios do séc. XVI) e As ilhas do ouro branco: encomenda artística na Madeira: séculos XV-XVI (Anunciação, pintura atribuída a Joos van Cleve, c. 1512-1520). No entanto, ainda se conservam peças com inegável significado artístico na Igreja do Recolhimento.

Virgem Maria com o Menino. Marfim, início do séc. XVI. Igreja do Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira. In: A Madeira na rota do Oriente, Funchal, 2000, p. 85.

A propósito da construção, com uma verba do orçamento regional, de uma réplica da Capela das Babosas, no Monte, destruída pela aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, o bispo do Funchal considerou ser tal a «vontade e um grande desejo de todo o Povo de Deus» (26-08-2018). Ora a Diocese do Funchal possui diversos edifícios arruinados, como por exemplo, no Funchal, a Capela de São Paulo, o Recolhimento do Bom Jesus e o Seminário da Encarnação. Não merecerão também estes imóveis amor e projectos de recuperação da parte do Povo de Deus?

Acredito que a Igreja não dispõe de orçamento para recuperar todos os edifícios que detém. Mas talvez o problema maior seja a inércia. Candidaturas a fundos da União Europeia e a outros patrocínios, parcerias, alienações, concessões de exploração a prazo podem constituir estratégias para gerir património que ameaça converter-se em ruínas.