Sejam bem-vindos!

Fugidos duma situação desesperante, que se agrava dia a dia, estão a chegar à Madeira muitos venezuelanos, nossos parentes ou amigos.

O Governo Regional e a Venecom têm dado o seu contributo para minorar o sofrimento destes seres humanos e apoiar as suas iniciativas para sobreviver. Desconheço se a diocese do Funchal está a fazer o mesmo. Gostaria de pensar que o povo madeirense, sempre solícito para colaborar nos peditórios de organizações de solidariedade social (Caritas, Banco Alimentar, Liga contra o Cancro, etc…) e compadecido dos refugiados que vindos de África estão a chegar às costas da Itália, da Grécia e da Espanha, está a acolher com carinho e a ajudar particularmente aqueles nossos parentes ou amigos que aqui vão chegando. E, no entanto, devo confessar que nas notícias a que tenho acesso e em conversas particulares que vou tendo, tenho ficado horrorizado com atitudes de desprezo e de chacota dos venezuelanos e de críticas aos apoios que lhe são prestados, com a justificação de que farão falta aos madeirenses.

A memória do povo é curta! É um velho problema que nesta nossa sociedade egoísta e consumista se tem agravado. Sou filho, irmão, primo, vizinho e amigo de emigrantes na Venezuela e recordo-me de que foram os “venezuelanos”, esses “miras”, como são depreciativamente referidos por alguns madeirenses, que nas décadas de 1950, 1960 e 1970 mataram a fome a muitas famílias, forneceram algum conforto nas casas pobres e animaram a economia madeirense.

É hora de mostrarmos a nossa gratidão e de certo modo pagarmos a nossa dívida, para além do acto de solidariedade humana dum povo que se confessa católico e diz reger-se pelos valores do Evangelho. E apraz-me verificar como são dinâmicos e empreendedores, prontos a desempenhar qualquer trabalho, muitos desses “venezuelanos”, que vão à luta em vez de chorarem pelas esquinas desta vida.

Se o Brasil e outros países da América Latina, com grandes dificuldades económicas e sociais também e a própria Espanha estão a recebê-los de braços abertos, faz algum sentido a Madeira não o fazer igualmente?