É da idade. Só pode ser – mas há coisas bonitas!

No quadro daquela velha separação das pessoas entre as que exercitam um optimismo militante, porventura absurdo, e as que ensaiam, temerosas, um pessimismo persistente, penso ter estado situado, quase sempre, do lado das primeiras; nunca próximo do exagero, como nos avisa a anedota – a do cavalo e da ferradura, lembram-se (?) – de, eufórica e ingenuamente, transformar em sinais positivos tudo o que de mais insignificante e anódino me aconteça, mas deixando sempre aberta a porta da concretização ansiada face a tudo o que me é possível antever no conjunto dos meus desejos mais razoáveis.

É da idade, por isso, – só pode ser (!) -, que me sinto a claudicar. Começo a descrer com frequência, com sentidas e apaixonadas razões, das notícias que me vendem como boas, dos comentários que me impingem como sendo isentos, sérios e fundamentados, de muito do que me (nos) vai chegando dito por quem deveria ter a obrigação da sinceridade, da verdade e da procura de uma relação de confiança cívica assente na cumplicidade e no compromisso. São tantos, tão profusos e tão contraditórios os sinais do engano, da trapaça, da mentira, da impunidade, da falta de vergonha, do oportunismo, do recurso ao insulto, do descaramento e da exibição impúdica de não-valores que passou a ser um acto de difícil compreensão manter uma postura optimista, face ao que quer que seja, ainda há bem pouco tempo, porém, considerada compreensível e saudável.

E, claro, estou a falar (também) de política, e do seu exercício, tal como a percepcionamos, bem como daqueles que lhe dão rosto e a quem, de entre outras responsabilidades óbvias, incumbe a assunção de princípios desejavelmente partilháveis, a pedagogia de valores, como a verdade, a formação para a cidadania e o exemplo cívico de que têm de ser obrigatoriamente portadores e agentes inquestionáveis.

Uma sociedade tendencialmente sã e decente, vive e estimula-se no quadro de um relacionamento civilizado, tolerante e, para lá das divergências que os cidadãos naturalmente assumem e esgrimem numa lógica que a democracia induz, harmónica e voltada para o que se revela essencial na satisfação do interesse colectivo. Quem preside, quem governa, quem legisla e quem administra a justiça a que o exercício das funções de soberania a que cada instituição de per si está obrigada, – mas também a família, a escola, a comunicação social e todas as outras entidades com responsabilidades para com a sociedade -, tem de responder com rigor e exigência a esta convocação, a este desígnio, a esta louvável e nobre missão; falhá-la, é viabilizar o individualismo, o egoísmo, a falta de coesão, a desconfiança, o desrespeito pelos Direitos do Homem, é estimular a conflitualidade e, de algum modo, desarticular os mecanismos que titulam o espírito com que se preserva o presente com os olhos postos no devir.

A agressividade que se pressente no relacionamento entre as pessoas, no cumprimento dos seus quotidianos, é a ilustração de um certo estado de deslaçamento, de cada-um-por si, da irrelevância dos outros, do sentimento de impunidade, do crime sem castigo, do desinteresse face ao colectivo no cotejo com o que de individual se impõe na complicada vida de cada um.

As televisões de forma mais impressiva, os jornais de forma menos evidente, as redes sociais concludentemente, dão-nos diariamente perturbadoras imagens de uma agressividade verbal sem limites, de uma disponibilidade total para a violência física ao mais insignificante pretexto, da conflitualidade como regra, da deseducação como norte, do desrespeito como norma; as sociedades fortalecem-se na tolerância, na entreajuda, na compreensão, na harmonia possível. Os sinais de desagregação preocupam, inquietam e devem alertar-nos para as dramáticas consequências possíveis.

A propósito, e porque os exemplos, diz-se, “vêm de cima”, não é possível ignorar o modo como, do cimo da carroça, o presidente do mais poderoso país do mundo vai desactivando e desarticulando, na Casa Branca, em Davos, em Londres, em Helsínquia e um pouco por todo o lado, as regras que devem presidir a um comportamento passível de aceitação, compreensão e respeito, induzindo a necessidade social de um quadro de referências assente em valores que se não diluam na mera conquista e manutenção do poder, a qualquer preço, que, esperamos, em democracia, se mantenha circunstancial e efémero.

Também na Europa lhe vão, já, seguindo o exemplo e, infelizmente, começam a fazer o seu perigoso percurso práticas e discursos truculentos que os seus autores liderantes propositadamente associam à mentira, à meia-verdade, à pós-verdade (?), à insinuação, à suspeição, à desconfiança, ao medo, à intolerância e à impaciência, carreando as suas impúdicas e “miríficas” receitas para a “cura de todos os males” de que os cidadãos, no exercício legítimo da sua liberdade, se queixam.

A política, a que interessa, tem de reflectir lucidez, decência, sentido de oportunidade, equilíbrio, verosimilhança; e tem de saber aproveitar o que é bonito, elegante, exemplar e, assim, impulsionar novos desafios, novas esperanças.

Há dias, num programa de entretenimento de um canal televisivo sobre culinária, uma Chef, ainda nova, bonita, com ar jovial e a energia de quem quer conquistar o mundo, conversava, em Paris, com um homem, também ainda jovem que, por detrás de uma bancada cheia de moluscos em que exibia uma múltipla variedade de ostras, era sobre estas que falava com a tal senhora. Depois de, perante a explicação dele sobre as características de cada uma das qualidades d’ huitres que tinha para venda, a senhora fez uma compra, despediu-se e, naturalmente, afastou-se; o vendedor, olhando para a câmara de televisão, disse que todos os dias, ao longo dos anos e inúmeras vezes, lhe perguntavam se, nesta sua actividade, já alguma vez tinha encontrado uma pérola… olhando para a senhora que se afastava, o simpático senhor dizia: acabei de encontrar a primeira!

E foi assim, com esta deliciosa tirada que, sem se dar conta, o (ainda) jovem profissional do sector, contribuiu para que a porta de uma saudável vida em sociedade se não vá fechando completa e irreversivelmente.

—-

PS

Este texto, pelos sinais que sublinha, pelas preocupações que evidencia, pela para-pedagogia que tenta fazer, afigurou-se-me ser plausível agora que, naquele tempo a que se convencionou chamar de rentrée, todos nos preparamos para “nova corrida, nova viagem”…

Funchal 30 de Agosto de 2018

 

___

Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.