O planeta Terra tem futuro?

Ao contrário do que o cidadão mais desatento ou pouco informado possa pensar, a interrogação colocada no final do título do presente texto, não é destituída de sentido, antes pelo contrário, como adiante  procurarei comprovar, muito menos se inspira numa qualquer previsão à  laia de Emanuel Gimes (vulgo Lesagi Zandinga).

Ora, é sabido que, desde 1980, a temperatura média da terra subiu cerca de um grau Celsius por causa do aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, lançado na queima de combustíveis fósseis.
Por outro lado, desde o final da década de 1980, quando a expressão “efeito de estufa” ficou conhecida, e 2018, quando a concentração de CO2 na atmosfera subiu de 350 para mais 400 partes por milhão (ppm).

O facto de, entretanto, não ter havido, a nível mundial, a assunção de uma política efectiva para travar  a escalada das emissões de CO2, tem vindo a colocar à comunidade científica dúvidas sobre a capacidade do mundo estar ainda a tempo de travar o aquecimento global, ou de se ter de limitar a adaptar-se a um planeta cada vez mais quente.

Dúvidas colocadas, mesmo sabendo-se que os países que ratificarem o Acordo de Paris de 2015, comprometem-se a reduzir as emissões de CO2 a partir de 2020 para que o aquecimento global não atinja os dois graus e, preferencialmente, se mantenha abaixo dos 1,5 graus.

A questão decorre do facto de, segundo um estudo publicado no início deste mês de Agosto na revista científica PNAS, haver um risco de que os dois graus já não cheguem para evitar um cenário catastrófico, em que a temperatura média suba cinco ou seis graus e a Terra se torne numa verdadeira estufa, com desertos  e savanas em vez de florestas, fenómenos meteorológicos extremos, e um nível médio do mar que faria desaparecer muitas regiões costeiras, incluindo a zona ribeirinha de Lisboa.

De acordo com o referido estudo, a Terra está perante o risco de não retorno. Risco que, em declarações publicadas no jornal “Público” de 7 de Agosto, Johan Rockstron, um dos seus autores, explicou como sendo a perda de “resiliência da Terra, e de ela passar de um mitigador do aquecimento global, como acontece actualmente, para um agente activo do aquecimento global”.

Segundo este estudo científico, o aumento da temperatura tem consequências, sendo que uma das mais imediatas é o derretimento do gelo no Pólo Norte. Acresce que, hoje, é possível que já não se consiga impedir o desaparecimento do gelo da Gronelândia que, uma vez derretido, aumentará o nível médio do mar em sete metros de altura. E, tal como o derretimento da Gronelândia, estima-se que o branqueamento dos corais dos trópicos e o derretimento do gelo da região Oeste da Antárctica sejam irreversíveis se a temperatura aumentar entre um e três graus. Já o desaparecimento da floresta amazónica poderá acontecer quando a temperatura subir entre três e cinco graus. Acima dos cinco graus, os solos gelados do Norte da Europa e da América do Norte vão derreter-se e todo o material biológico concentrado vai apodrecer, libertando toneladas de CO2 e metano.

Evitar este cenário catastrófico implica, na opinião do já citado Johan Rockstron, “descarbonizar imediatamente o sistema mundial de
energia, e alcançarmos um mundo livre de combustíveis fósseis o mais tardar em 2040-2050”.

E se esta resposta falhar, o que sucederá? Se a “Estufa Terrestre” for uma realidade, “será provavelmente um mundo muito diferente – sem pessoas a viver nos trópicos, com uma concentração de pessoas no Ártico e na Antárctica, com formas completamente diferentes de gerar alimento, com escassez de água e uma normalização dos fenómenos extremos”.

Duvidando da aposta nessa necessária descarbonização da sociedade, há quem não duvide de que o pior vai acontecer. É essa a visão do climatologista português Ricardo Trigo, para quem corremos o risco de “parar todas as fábricas” e a Terra “continuar a aquecer”.

Que o fenómeno das alterações climáticas hoje já não suscitará grandes dúvidas ao comum dos mortais  –  com a excepção diga-se de sumidades científicas como Donald Trump – julgo ser evidente.

Não foi certamente por acaso que no início deste mês de Agosto quase 40% do território de Portugal Continental registou o valor da
temperatura do ar mais elevado desde que há registo. Ou que, em Junho do ano transacto, aquando do trágico incêndio de Pedrógão Grande, ocorreu a onda de calor mais intensa nesse mês, no Sul da Europa. Um calor extremo que, aliás, se verificou este Verão um pouco por todo o mundo.

Uma realidade que dois cientistas, em escrito inserto na última edição da revista Nature Communications, antecipam se irá repetir nos próximos quatro anos, que serão “anormalmente quentes”. Ainda mais quentes do que o esperado só com o actual aquecimento global.

Neste quadro, é óbvio que o risco de incêndios aumentará substancialmente.

Não é, com efeito, por acaso que, outrora, nas zonas temperadas do Hemisfério Norte, a época dos incêndios limitava-se tradicionalmente a Julho e Agosto, mas actualmente, na bacia mediterrânica, pode começar em Junho e prolongar-se até Outubro. E na Califórnia, os peritos já admitem que os fogos florestais podem começar em qualquer altura do ano.

As alterações climáticas aumentam a probabilidade de fogo florestal, mas também a sua intensidade. Ao ponto de Mike Flannigan, professor na universidade canadiana de Alberta, assumir que “se os fogos se tornarem demasiado potentes, como na Califórnia e na Grécia, não há medidas directas que os possam deter”.  Será, acrescentou, “como cuspir para uma fogueira para a apagar”.

Ainda a propósito desta temática, particularmente no que concerne à realidade portuguesa, vale a pena reter a opinião expressa por Mark Beighley, ex-director do Gabinete de Estudos Florestais dos EUA, em entrevista ao “Público” de 17 de Junho do corrente ano: “Os portugueses são largamente responsáveis pelas condições perigosamente inflamáveis das florestas, devido: aos vastos oceanos de monoculturas de eucalipto e de pinheiro, sem qualquer gestão; ao abandono das pequenas parcelas agrícolas que antes eram bem administradas e que agora estão repletas de invasores inflamáveis; e a uma mentalidade geral «longe da vista, longe do coração» de uma população predominantemente urbana e sub-urbana”.

Acontece que, para o Trump regional, nada disto tem importância. Então, não é que a criatura fez publicar no “JM” um arrazoado em que tece considerações sobre o que denomina de “Segurança Nacional”, aludindo à “frequência e dimensão de incêndios que outrora não sucediam”, sem mencionar as alterações climáticas, certamente porque, tal como o Donald, não acredita na influência dessas “invenções” dos ambientalistas.

A pouca vergonha é de tal ordem que o dito cujo adianta que, durante o seu longo e nefasto reinado, ocorreram somente o que classifica de “inevitáveis desastres naturais”, como se as dramáticas consequências do temporal de 29 de Outubro de 1993, no Funchal, do aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 e dos incêndios, também no Funchal, no Verão de 2016, não pudessem ter sido, eventualmente atenuadas, se tivesse sido dada prioridade ao ordenamento do território, evitada a excessiva hipermeabilização dos solos, salvaguardado o percurso natural do leito das ribeiras, não o ocupando com construções e protegendo as respectivas arribas.

O mesmo se diga da enésima tentativa de pretender transformar essa governação  numa espécie de obra virtuosa, sem mácula. Quiçá, a amnésia impede-o de recordar o caos em que deixou a saúde, os mais de 20% de desemprego que legou, a emigração a que forçou tantos conterrâneos e a famigerada dívida “oculta” que resultou na hipoteca da autonomia conquistada. Uma dívida contraída para pagar as loucuras despesistas e megalómanas das designadas “Sociedades de Desenvolvimento” que serviram para encher os bolsos de uns quantos empresários da construção civil.

Sem pés nem cabeça é também a posição assumida pela presidente da Junta de Freguesia do Monte que advogou, por, pasme-se, “razões psicológicas”, o abate de duas árvores no Largo da Fonte. É caso para dizer que, se a moda pegasse, às tantas, poucas árvores resistiriam.

A finalizar, e voltando à parte séria da questão, sublinhe-se que o estudo publicado na revista PNAS assume que aumentar a possibilidade de o planeta não se tornar numa estufa não passa apenas por reduzir as emissões de CO2. É necessário, por exemplo, melhorar a gestão das florestas, da agricultura e dos solos, bem como conservar a biosfera e apostar em tecnologia que remova dióxido de carbono da atmosfera, armazenando em zonas subterrâneas apenas o que for preciso.

* Por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Post Scriptum: 1) Safa! – Na Festa do Chão da Lagoa, o actual líder do PSD imaginou o que seria o interior do país com 4 ou 5 AJJ. Como não houve, ao que se saiba, qualquer controle alcoômetro, calcula-se que o grau seria já elevado no momento do discurso.
Vá lá que não houve consequências físicas, como  no ano em que o então anfitrião tropeçou no malte escocês e passou uns tempos de braço pendurado ao peito.
Enternecedor foi também ouvir Miguel Albuquerque dirigir-se ao “grande líder”. Faltou, porém, acrescentar “querido”, como na terra do defunto Kim-IL-Sung. Recomenda-se que, para a próxima, não se esqueça de o fazer.

2) Em grande –  A RTP/M noticiou que no dia 6/8, o dia posterior ao fim do Rali Vinho Madeira, houve um número anormal de atendimentos (346!) no Hospital. Motivo: o calor e os excessos do Rali. Viva o “povo superior”.


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