Um olhar à Cidade

É o dia dela. Desta cidade onde nasci.

Vi-a ainda no tempo em que os barcos levavam jovens recrutados para a defesa da pátria distante, deixando madrinhas de guerra, mães e namoradas lavadas em lágrimas. Vi-a ceifando a força de trabalho levada a rodos para a terra de Bolivar ou para o extremo sul do continente africano.

Vi-a no alvoroço de uma revolução importada, saindo à rua desnorteada, gritando contra a colonia e acolhendo os provindos das colónias. Vi-a a chamar deserdados da agricultura do resto da ilha que nas corujeiras, nos lombos e nos picos se foram acomodando em precárias e ilegais construções.

Vi-a tanto no esforço de criar melhores condições sociais tentando nivelá-las da serra ao mar, como no investimento imobiliário, nem sempre enquadrado mas sempre ao sabor das facilidades de crédito e de relações privilegiadas. Vi-a rasgada de vias que rapidamente a ligaram a outras localidades e fizeram crescer empresas e empregos que mais tarde tremeram.

Vejo-a estimada por quem nos visita e também amaldiçoada por quem, pelos incêndios ou pela enxurrada, chegou à conclusão que não é aqui o paraíso.

Vejo-a vaidosa que puxa para debaixo da saia as suas vergonhas que a iliteracia, a miséria, o desvario do álcool ou do bloom lhe trazem.

Gostaria de olhá-la com outro horizonte. Onde no território se preserve mais do que se inove. Onde na economia se propicie mais do que se assista. Onde na população mais se valorize do que se iguale. Onde a política abandone a fachada e se preocupe com o miolo.

Difícil sem duvida. É um sonho de quem muito gosta de cá viver porque sente que é a melhor cidade para aqui ter a família.


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