Funchal, uma cidade bela… mas também cheia de obras, betão, esplanadas, árvores cortadas e prédios devolutos

Fotos: Rui Marote

Cidade cinco vezes centenária, o Funchal é uma urbe à qual não faltam atractivos. Quem nele vive pode, em muitos casos, reclamar uma qualidade de vida que falta a muitos habitantes de grandes centros urbanos. O mar fica perto (apesar dos poucos acessos), a montanha também… Para os amantes do desporto, é possível estar a praticar natação, vela, mergulho, windsurf ou snorkeling, e no mesmo dia estar a fazer parapente, escalada, canyoning. Para o cidadão menos radical, mesmo assim a cidade oferece zonas agradáveis para passear de bicicleta, caminhar ou fazer jogging. Também conta já com uma oferta cultural razoável, que faculta escolhas desde a música clássica ao jazz (albergando neste caso um festival de renome internacional), desde o teatro às artes plásticas. Isto apesar da falta de espaços culturais e expositivos condignos e da ausência de uma grande sala de espectáculos multiusos. Também possui espaços museológicos que, inclusive, se têm distinguido ao nível nacional e internacional.

Tudo isto merece ser lembrado no Dia da Cidade do Funchal. Mas a urbe que serviu em tempos de plataforma de ensaio à expansão portuguesa sofre também, hoje, de vários problemas que a afectam, que suscitam discussão e debate. A construção desenfreada e a especulação imobiliária em certas áreas, uma zona turística assoberbada por hotéis em cima de hotéis em cima de hotéis, a proliferação de esplanadas no espaço público, a destruição de pontes históricas, a betonização das ribeiras, escondendo grande parte das muralhas construídas, em tempos, pelo brigadeiro Oudinot têm levantado celeuma e polémicas entre Governo Regional e Câmara Municipal do Funchal, entre cidadãos interventivos e forças políticas. Porém, mais que a politização destas e de outras matérias essenciais, interessa sobretudo agir no interesse substancial da cidade e dos cidadãos. Sabendo-se, claro, que não há soluções fáceis numa multiplicidade de matérias a que quem de direito tem de prestar atenção, ao mesmo tempo que se esforça por que a cidade não estagne e continue a atrair empreendimentos e visitantes, a apoiar a abertura de negócios e a criação de postos de trabalho.

O Funchal Notícias procura hoje lançar um olhar atento sobre alguns dos assuntos que mais preocupam hoje os funchalenses, ao mesmo tempo que dá voz a residentes, visitantes e figuras públicas capazes de um olhar descomprometido e crítico, dificilmente formatável às conveniências de um ou de outro lado. Não se trata de assacar responsabilidades, mas de promover uma meditação sobre certos aspectos essenciais da vida quotidiana do Funchal do século XXI.

Nelson Verissímo
Foto: Celso Caires

O académico, historiador e nosso colaborador na rubrica de opinião “Fórum”, Nelson Veríssimo, identifica alguns dos problemas de que, no seu entender, o Funchal de hoje padece. Um deles já foi abordado por uma outra personalidade que não se escusa de exercer uma cidadania activa, o engenheiro Danilo Matos. Uma figura que até aceitou ser mandatário de Paulo Cafôfo na sua recandidatura à CMF, mas que nem por isso se sente obrigado a demitir-se de um espírito crítico quanto às coisas que quer ver melhoradas. E uma delas é a situação dos prédios devolutos existentes no Funchal.

Sobre este tema, Nelson Veríssimo entende que os mesmos constituem, nem mais, nem menos, do que “ uma ameaça à cidade, porque são zonas de risco, vulneráveis a incêndio e abrigo da delinquência”.

Para o historiador, esse problema, comum em outras cidades, deve-se, na maioria das vezes, ao facto de os herdeiros não chegarem a consenso sobre a venda ou não terem capital para o investimento necessário tendo em vista a rendibilização do imóvel. Há também casos em que é difícil identificar e reunir todos os herdeiros.

Por outro lado, a crise do comércio tradicional e a proliferação de bares e restaurantes em zonas onde outrora havia residências, descaracterizam, em seu entender, o Funchal, que se apresenta como uma cidade cada vez com menor número de moradores “e um maior número de tascas ou bares”.

“Há que inverter esta situação para travar o despovoamento da cidade”, alerta Nelson Veríssimo.

Para este estudioso, não interessa uma cidade de esplanadas movimentadas, mas sem residentes. “A animação da cidade tem de contar com os que habitam no espaço urbano, e não com prédios apenas, ocupados nos pisos térreos com restaurantes e esplanadas a ocupar a via pública, parcial ou totalmente”, opina.

Por outro lado, toda a intervenção na cidade deveria ter em conta a sua memória histórica. “Caso contrário o Funchal mostrar-se-á uma cidade pouco atractiva, desinteressante mesmo. A zona de Santa Maria, por exemplo, hoje é um mau exemplo do que é uma zona histórica, embora para ali confluam diariamente muitas pessoas e ali se façam bons negócios. Mas como zona histórica é um logro, pois a memória histórica vem sendo ocultada por inestéticos toldos, mesas e cadeiras”, critica.

Esta é uma crítica recorrente ao Funchal da actualidade, também já expressa por Danilo Matos em posições públicas geralmente assumidas na sua página do facebook, onde tem denunciado vários atentados contra o património. Danilo já se manifestou contra o que considera ser a “esplanidificação” do Funchal, a proliferação descontrolada de mesas e cadeiras de negócios privados sobre os passeios, nalguns casos dificultando ou mesmo impedindo, quase, a passagem de peões. As zonas da Avenida do Mar, da Zona Velha, da Rua da Carreira e da placa central da Avenida Arriaga são disso exemplo.

O engenheiro técnico florestal e antigo vereador do Ambiente na Câmara Municipal do Funchal, Henrique Costa Neves, aborda por outro lado outras questões que já foram também insistentemente criticadas publicamente por ambientalistas, como a pressão excessiva exercida sobre certos jardins do Funchal, como o parque de Santa Catarina, onde se realizam ao longo do ano múltiplos festivais e eventos.

 

Para Costa Neves, e apesar das críticas, não é aparente que os jardins “estejam assim tão desleixados”. No entanto, é evidente que, conforme reconhece, os eventos que atraem muitas pessoas “causam prejuízos”, principalmente sobre o relvado do Parque de Santa Catarina. Mas esta é uma área “de excelência” para este tipo de eventos, e, no seu entender, alguns cuidados e a própria natureza ajudam a repor as situações anteriores, principalmente se houver uma atenção redobrada sobre estes locais. “O Funchal é pequeno, a área de fruição pública é reduzida”, e há que “dar uma no cravo e outra na ferradura, e encontrar uma forma de equilíbrio”. Em seu entender, essa questão tem sido razoavelmente acautelada.

Mais preocupante pode ser, da sua perspectiva, uma questão essencial para os cidadãos, nomeadamente a da recolha do lixo. Nesse capítulo, admite que tem possa ter havido alguma “negligência ou descuido”. A recolha tem sido mais reduzida e menos eficiente, conforme cidadãos já fizeram chegar ao Funchal Notícias, e isso, na perspectiva de Costa Neves, deve-se ao facto de que o pessoal camarário que efectua esses serviços também diminuiu.

“Os efectivos dos cantoneiros reduziram… Penso que a CMF há pouco abriu um concurso público para a sua admissão. Durante alguns anos, erradamente (e dando eu próprio a mão à palmatória porque enquanto estive na CMF, embora contra a minha vontade) não se permitia a admissão de funcionários”. A recolha do lixo acaba por sofrer com o falecimento de uns cantoneiros e a aposentadoria de outros. São funcionários essenciais que não foram substituídos durante longos anos, enquanto “as áreas de recolha aumentam”.

Outro assunto particularmente caro a Henrique Costa Neves é a presença das árvores no espaço urbano. Paulo Cafôfo tem estado sob fogo por causa dos cortes de árvores e podas realizadas na sequência da tragédia que causou 13 mortos no Monte, e dezenas de feridos, com a queda do ramo de um carvalho alvarinho.

O nosso interlocutor avalia a atitude da CMF e dos cidadãos face ao património árboreo do Funchal. “Tem havido um exagero das pessoas, que pressiona a Câmara  a tomar acções mais drásticas. Penso que tem havido realmente um exagero em relação ao corte de árvores”, considera.

“Agora todos se intitulam especialistas em árvores, cirurgiões de árvores. E emitem opiniões muitas vezes fora de contexto. O que leva a pressão sobre o Executivo. Há árvores, como os plátanos da Estrada Monumental, que têm de ser avaliadas uma a uma, porque efectivamente havia lá umas que estavam ocas, mas não é apenas por esse aspecto que quer dizer que esteja em risco de queda… “, explica. “O plátano tem uma morfologia especial, que não põe em risco as pessoas só pelo facto de estar oco”.

A sua substituição deve ser decidida caso a caso, insiste. Ora, os cortes “têm sido um exagero”, consequência do “pânico generalizado”.

No Funchal, diz Henrique Costa Neves, não falta quem opte por soluções fáceis, que, no caso de dúvida, optam por cortar as árvores. “Não é para isso que existem técnicos. Eles existem para tratar as árvores e curá-las se for necessário. Agora, por sistema, cortar, como hoje em dia se constata com a paranóia da segurança, é errado”, opina.

No Monte, aponta, “há árvores multicentenárias que estão em perfeito estado vegetativo, e houve pessoas, nomeadamente o engenheiro Rocha da Silva, que a solução dele é o corte, a solução mais simples… Mas as árvores têm de ser vistas como um património importante para a cidade, e os técnicos existem para ir ao encontro delas e não para as destruir”.

Não foi assim que pensou a edilidade, quando cortou ou podou numerosas árvores no Funchal, entre as quais vários exemplares de árvores do fogo na Rua do Bom Jesus, que ninguém ainda bem percebeu porque se foram. Além da sua função decorativa, as árvores têm um papel muito importante na oxigenação do ar citadino, na sombra que oferecem perante o calor inclemente do sol estival. Até nas iluminações natalícias se revestem de importância, naquele que é um importante cartaz turístico.

Por enquanto, e apesar do que por vezes se passa em certas artérias e principalmente em túneis, ou no centro da urbe em hora de ponta, o Funchal não é visto pelos visitantes estrangeiros como uma cidade poluída. Foi o caso de um casal alemão oriundo de Berlim, com quem o FN ontem falou, e que foi encontrar na zona velha.

Frank Kirchen e a esposa deslocaram-se pela primeira vez à Madeira, ao Funchal, em especial, e estão a gostar bastante: “É uma cidade pequena, muito bonita e acolhedora”, consideram. Não têm críticas a tecer aos angariadores de clientes para os restaurantes, à forma como os empregados abordam as pessoas, nem em matéria de poluição sonora ou atmosférica. Na realidade, até se riem quando lhes falamos nisso, comparando o Funchal muito favoravelmente com a sua realidade quotidiana berlinense. Parece que nada incomoda este casal, como outros estrangeiros com quem falámos, menos comunicativos, porém, do que estes simpáticos germânicos. Mas há, contudo, algo de que confessam não gostar: da zona turística da cidade, nomeadamente, na Estrada Monumental e na zona até à Ajuda, que consideram excessivamente carregada de “hotéis, uns em cima dos outros, demasiado grandes, num espaço excessivamente reduzido e cada vez mais sobrecarregado por construção”. Não é disto que vêm à procura quando vêm ao Funchal, dizem. É por isso, explicam, que estão alojados no Caniço de Baixo, zona muito apreciada pela comunidade alemã e de cuja paz e sossego preferem desfrutar.

E é nesta esfera que os espaços verdes, arborizados, são tão importantes em contrabalanço ao betão galopante. A autorização, facilitada anteriormente pelo executivo de Albuquerque e depois por Cafôfo, à construção do ciclópico hotel Savoy tem sido muito criticada; a recente e anunciada criação do “Dubai na Madeira” na zona da Ajuda, tem sido considerada por não poucos como uma aberração. A cidade precisa de respirar, não apenas de prédios. Nesta perspectiva, e perante os exageros de construção, espaços verdes e árvores são fundamentais. E é nesse sentido que Costa Neves conduz, também, as suas críticas. Por outro lado, sente que a promoção da paz e do sossego são fundamentais.

“Uma coisa que me incomoda muito mesmo, é a perseguição que existe em quase todo o Funchal, às pessoas para entrar em determinados restaurantes ou esplanadas, numa pressão constante de funcionários para que as pessoas entrem no restaurante e consumam. Quando a mim”, denuncia, isso está-se a tornar-se uma situação insustentável, para desagrado dos consumidores, visitantes ou residentes.

Por outro lado, Costa Neves lamenta a “barulheira constante”, com músicas “a que muita gente chama de animação”. A cidade, na sua perspectiva, está demasiado ruidosa, principalmente na Avenida Arriaga. “É um barulho impressionante, que faz com que as pessoas se afastem”. Tudo isto é, avisa, registado em comentários em sites como o Tripadvisor. “Hoje em dia, no Funchal, não se consegue estar numa esplanada com calma. É barulho, são as músicas… Isso não é animação, é a deterioração de um destino”.

A concorrer também para essa denunciada poluição sonora estão as obras constantes que se verificam no Funchal. Se há quem ache muito bem que se mudem as condutas de águas pluviais e de esgotos em pleno Verão, pois é no Inverno que terão de estar bem operacionais, e já tardava a sua melhoria, também não falta quem aponte a constante presença de maquinaria, de obras que destroem o que entretanto foi feito e já estava asfaltado para descobrir antigas paralelepípedos que fazem estremecer os automóveis mas que são, efectivamente, característicos do Funchal de outros tempos.

É o que se passa, para exaspero dos comerciantes, na Rua do Bom Jesus. Por outro lado, nas ruas 5 de Outubro e 31 de Janeiro escavadoras abrem novos buracos no asfalto recente para criar, algo caricatamente, zonas de plantação de bungavílias, através de tubos dentro dos quais são enfiadas aquelas plantas ornamentais, com janelas para a ribeira, no intuito de criar apontamentos que recordem, pelo menos, as amplas coberturas que antigamente faziam daquelas ribeiras um espectáculo veranil.

Costa Neves é fulminante em relação a esta obra, da responsabilidade do Governo Regional. “A autêntica barbárie que se cometeu nas ribeiras não tem justificação plausível nenhuma. Não venham com a história de que já estava adjudicado e de que a obra teria de fazer-se. A obra, mesmo que já estivesse adjudicada, poderia ser repensada”, diz. Quanto ao que agora se está a fazer com as bungavílias, e que admite ainda não ter visto, imagina do que se trata: “São remendos à posteriori, que não vão resultar porque as margens das ribeiras foram todas lamentavelmente betonizadas e armadas em ferro. É um remendo ridículo para tentar repor uma composição vegetal excelente que havia sobre as ribeiras e que foi criminosamente destruída e erradicada”.