Paulo Fontes acredita num Rali “competitivo” e diz que o futuro da prova pode passar pela aposta num “triângulo ibérico”

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Paulo Fontes aponta como possibilidade para o futuro do Rali Vinho Madeira a preparação de uma prova forte com presença de pilotos madeirenses, continentais e espanhóis. Fala num “triângulo ibérico”. Foto Rui Marote

Entrou pelo mundo dos ralis ainda nem tinha carta, por volta dos 17 anos de idade. Não parou mais. Já lá vão, mais coisa menos coisa, uma contagem aproximada aos 40 anos. Foi diretor do Rali Vinho Madeira, a primeira vez em 1985, foi depois presidente da Comissão Organizadora quando os ralis passaram a ter um modelo organizativo diferente. Foi e continua a ser. Olha para trás, a esta distância temporal, vê um ponto comum que lhe permitiu chegar até hoje, por entre um mundo de sucessos, mas também de alguns tropeções que muitos vaticinavam como podendo resultar no fim da prova de eleição do desporto automóvel madeirense, com dimensão internacional. O tal ponto comum foi “nunca deixar de acreditar”, tanto “quando estávamos lá em cima como quando estávamos cá em baixo”. O segredo da atitude para manter o “radar” ligado. Os grandes vencedores são assim, lutadores sempre. O Rali é Paulo Fontes. Paulo Fontes é o Rali. E uma “máquina” forte, muito forte e reconhecida internacionalmente.

Paulo Fontes “entrega” hoje a prova ao diretor

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O pódio na Praça do Povo fica “num espaço nobre, mais amplo” e prepara já a 60ª edição em 2019. Foto Rui Marote

Hoje, estamos na quinta-feira da semana de emoções. O dia em que o presidente da Comissão Organizadora entrega formalmente a prova ao diretor, Pedro Araújo, passa-se à parte executiva. E Paulo Fontes sente o dever cumprido, mas descomprimir mesmo só no final da competição e depois de ter a certeza que tudo correu bem, na segurança por exemplo, uma imagem de marca organizativa do Rali. É tensão até ao fim, tensão da boa, porque na estrada continua a estar a mesma prova de sempre, que mobiliza e “mexe” com a Madeira, independentemente do maior ou menor peso europeu que possa encerrar. Mas todos os pormenores, até os mais ínfimos, são importantes.

Rali é referência internacionalmente

“É muito mais fácil manter a ambição e a projeção quando estamos em cima. Quando baixamos as expetativas, é mais complexo. Mas também digo que quando temos um rali que é uma referência, o que é o caso, ainda que os tempos sejam difíceis e mesmo que por razões financeiras isso implique a saída do Campeonato da Europa, como aconteceu, é mais fácil segurar o que é referência internacional como uma excelente prova, com um património competitivo relevante, além de uma grande qualidade organizativa. As estradas continuam as mesmas, os madeirenses continuam a adorar esta prova, os pilotos gostam de vir cá, a nossa equipa de organização é excelente, temos tudo, tinhamos tudo para sustentar a ambição de continuar a fazer o rali”.

Apostamos em pilotos que já tenham vindo

Paulo Fontes lembra que, hoje, o espírito competitivo dos ralis mudou muito à conta da qualidade dos pilotos dos países e das regiões onde se realizam. “Há alguns anos, vinham cinco pilotos estrangeiros à Madeira e esses cinco andavam na frente. Hoje isso não acontece, os pilotos estrangeiros que vêm à Região têm que assumir um andamento forte se quiserem competir com os pilotos da Madeira ou do continente. Por isso é que apostamos em pilotos que já tenham vindo, que garantem a competividade à partida”.

Edição deste ano será “competitiva”

É por isso que o presidente da Comissão Organizadora garante que a edição deste ano do Rali “será muito competitiva”, até porque “os pilotos madeirenses, com os mesmos carros, a mesma mecânica e o mesmo equipamento, têm vantagem porque conhecem bem a Madeira comparativamente aos que participam pela primeira vez. E nunca houve um piloto que ganhasse o Rali da Madeira na primeira vez em que participa”.

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Paulo Fontes garante que a história do C. S. Madeira no contexto do Rali será sempre preservada. Foto Rui Marote

Antes, lembra, “tinhamos um Vatanen ou um Tabaton, que sabíamos que iam ganhar o rali, mas neste momento pode vir qualquer piloto de fábrica, de topo mundial, que na primeira vez na Madeira, não fará grande diferença e vai sentir dificuldade para andar na frente da prova”.

Paulo Fontes olha para o futuro do Rali Vinho Madeira quando questionámos sobre a eventualidade de um passo em frente e que passo seria esse. Vai direto ao assunto, conhece o automobilismo mundial como poucos, também sabe as condições que a Região dispõe: “Os ralis estão a sofrer grandes alterações precisamente pelo nivelamento, por cima, na qualidade dos pilotos. E por isso, será impossível haver provas de fórmula um em todos os países candidatos, da mesma forma que será impossível haver provas do mundial de ralis em todos os países que manifestem esse desejo. Tudo deverá ser ponderado e tudo deverá ser refletido”.

Futuro do Rali pode estar num “triângulo ibérico”

Paulo Fontes acredita que a operação do “ferry”, que vem minimizar os efeitos negativos que a inexistência de transporte marítimo correspondente tinha no Rali, pode permitir, no futuro, uma maior facilidade de transporte dos pilotos continentais e espanhóis. “É claro que tudo isso deve ser preparado com tempo, muito trabalho de preparação, uma vez que para atrair pilotos que fazem o campeonato de Espanha ou mesmo o de Canárias, que têm os seus compromissos e alguns até com carros alugados, tudo deve ser avaliado com muita antecedência. O que é que pode ser o futuro do Rali da Madeira? O futuro pode passar por uma prova que na prática represente um triângulo ibérico, com pilotos da Madeira, do continente e de Espanha. Se tivermos três ou quatro pilotos de cada uma dessas zonas, com viaturas competitivas, temos o Rali feito”.

Pódio na Praça do Povo com espaço nobre

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A qualidade organizativa é um dos pontos fortes do Rali Vinho Madeira.

A componente histórica pesa numa prova como o Rali Vinho Madeira. Para 2019 faz 60 anos, há já uma promessa de comemorações e uma prova de clássicos para lembrar e dar dignidade aos bons velhos tempos. E o Clube Sports Madeira é marcante na própria génese da competição. Manter viva essa imagem, é questão de honra, mesmo que os tempos, por força dos desafios que se colocam a uma organização, obriguem a alterações que possam, de algum modo, deixar algumas reticências quanto às fórmulas anteriores. O pódio na Praça do Povo, sendo este ano a primeira vez que não ocorre frente ao CS Madeira, garante uma outra dimensão de partida e de chegada, de concentração das milhares de pessoas que se concentram para ver pilotos e máquinas.

A história do “Madeira” será defendida

Paulo Fontes garante que “a história do CS Madeira será defendida”. Explica que “tudo na vida é dinâmico. Estávamos a enfrentar o problema do afunilamento do espaço em frente ao Clube Sports Madeira, hoje com todas as esplanadas, e bem, que ali estão a funcionar, tornava-se difícil manter o pódio. Temos hoje infraestruturas que permitem garantir um outro espaço para o pódio, sem problemas de trânsito e circulação, sem afetar o normal funcionamento de tráfego no Funchal e com outro cenário de fundo. Se as pessoas forem ver o pódio verificam que está num espaço nobre. Não podemos estar amarrados ao que devemos conservar, naturalmente, enquanto parte histórica que continuará a ser o CS Madeira. Temos que pensar, também, na evolução que é necessária”.