Picacismos em papagaios

Um dos problemas mais comuns em papagaios é o picacismo, que é um comportamento anormal que vai desde o arrancamento de algumas penas, com o bico, até à automutilação, podendo esta levar a lesões severas da pele e tecidos adjacentes. Este problema, normalmente, insere-se num grupo de problemas designados comportamentais. Ou seja, normalmente, a ave arranca penas e mutila-se devido a um problema comportamental, mas por vezes existe uma razão física para o picacismo.

Exemplos dessas razões são o parasitismo (interno ou externo), carências nutricionais, devido a dietas incorretas como as misturas de sementes oleaginosas, infeções de pele, alergias, intoxicações (por substâncias como o chumbo ou o zinco). Apesar de ser muito normal os proprietários e os vendedores de loja suspeitarem de piolhos ou de outros parasitas externos como causas de picacismo, eles são, de facto, muito raros em papagaios. O mais comum é, portanto, o picacismo dever-se a problemas comportamentais. Existem vários problemas comportamentais e alguns podem ocorrer em simultâneo no mesmo papagaio.

Os mais comuns são os seguintes: bicar, gritos excessivos, territorialidade excessiva, ligação possessiva ao proprietário, fobias, picacismo. Existem vários motivos para estes problemas se desenvolverem. Para começar, basta pensarmos que estas aves são animais selvagens, “habituados” a territórios vastos e diversificados, percorrendo kms diariamente. Além disso, vivem em bandos, com muita interação e relações sociais complexas, nomeadamente de hierarquia e de emparelhamento.

Depois de desenharmos este cenário, se pensarmos na imagem de um papagaio isolado, dentro de uma gaiola, dentro de uma sala, onde só raramente surge uma pessoa ou um ruído, facilmente compreendemos porque são tão comuns os problemas de comportamento nestes animais. No caso do picacismo, a situação normalmente surge por alguma causa comportamental que leva o animal a arrancar penas e depois torna-se num hábito, ou num vício, como o de algumas pessoas têm de roer as unhas. Este vício, muitas vezes, é estimulado pelo próprio dono da ave, que quando observa estes comportamentos dirige-se a ele, berrando, batendo na gaiola, colocando esta num local mais alto, dando um amendoim, fazendo festinhas, ou tudo isto ao mesmo tempo. Ora, todas estas atitudes são bem-vindas para o papagaio. Até os berros são bem-vindos (costuma-se dizer que os papagaios têm atracão pelo drama).

Ele, que passa o dia sozinho, sem atenção e sem estímulos exteriores, aprende rapidamente como consegui-los: “basta-me arrancar uma ou outra pena, e o meu dono vem para a minha beira fazer coisas engraçadas!”. Assim, o melhor que um proprietário tem a fazer, quando vê a sua ave arrancar penas, é ignorá-la e tentar, antes, perceber porque é que o faz. Muitas vezes são causas simples, fáceis de perceber, como, por exemplo, a ausência momentânea do dono preferido. Outras vezes são causas mais difíceis de encontrar, sejam psicológicas ou físicas.

 

Como prevenir o picacismo

  1. Alimentação Oferecer ração de boa qualidade: devemos evitar o excesso de comida que conduz a obesidade, hiperatividade, cio contínuo, alterações de comportamento, etc.

Não oferecer uma grande variedade de fruta e verdura durante o dia (para não criar a sensação de superabundância). É preferível variar de um dia para o outro, do que oferecer uma grande variedade no mesmo dia. Restringir outro tipo de alimentos. Se a sua ave gosta de algo em particular (sementes de girassol, amendoins, bolachas, sumo, etc…) faça com que tenha de ganhar esse prémio, através de exercícios de educação, jogos ou incentivando o comportamento de procura de alimento.

Incentivar o comportamento de busca através de esconderijos de comida (caixas de cartão ou papel, onde se esconde alimento ou prémios) ou jogos que estimulam a procura de alimento; envolvendo os comedouros com papel de cozinha, papel ou cartão; fazendo “rebuçados” com comida ou prémios (nem todos os “rebuçados” deverão conter comida); misturando a comida com objetos não comestíveis (pedaços de papel por exemplo); Algumas vezes será necessário que se mostre à ave que “aí dentro há comida”.

Podemos fazer orifícios no papel ou cartão que envolve a comida ou retirar o prémio escondido e fingir que o comemos nós (não se deve oferecer à ave, para estimularmos a que o retire ela mesma).

  1. Cuidados com as penas e limpeza Pulverizar a sua ave com água limpa todos os dias. A pulverização suave estimula uma limpeza normal e melhora a qualidade das penas. Se o seu papagaio se assusta, pulverize primeiro para cima, enquanto fala com ele tranquilizando-o. Não é necessário apontar diretamente à ave, é suficiente pulverizar para cima deixando que as gotículas caiam sobre o papagaio. A pulverização poderá ser feita com a ave fora da jaula, enquanto está interagindo com os donos.

Estimulando ao mesmo tempo o comportamento social e de cuidado das penas. Podemos oferecer um objeto que possa imitar a plumagem de outra ave (que possa ser destruído pelo seu papagaio), por exemplo um espanador (não tingido). Alguns papagaios aprendem a cuidar das “penas” dos objetos, em vez de destruir as suas próprias penas.

  1. Interações sociais Estimular a aprendizagem. Na natureza as aves adultas ensinam o comportamento social adequado às aves mais jovens, em cativeiro devemos assumir nós o papel de professores. Além disso, os papagaios mantêm a capacidade de aprendizagem durante toda a vida e gostam de aprender coisas novas. Necessitam de companhia todos os dias.

Mostre-lhe objetos novos, jogos diferentes, fale com ele, conte-lhe o que vê em redor mencionando cores, texturas, etc… Os papagaios têm uma capacidade de entender a nossa linguagem oral surpreendente. Nestes casos, é importante um aconselhamento junto de um médico veterinário, que possa ajudar a identificar o problema o mais cedo possível, tal como: frustração reprodutiva, falta de estímulos externos, medo, limpeza anormal de plumagem, mudança de casa, saudades.

*Andreia Araújo, médica veterinária na Clínica Veterinária Santa Teresinha