Um Olhar Crítico Sobre a Mostra de Artes de Palco

O palco do auditório do Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos, recebeu uma vez mais, nos passados dias 27, 28 e 29 de abril a Mostra de Artes de Palco, que já vai na sua 16.ª edição, numa feliz organização da casa do povo local.

Este ano o evento artístico teve novamente um assinalável êxito, tendo em consideração a quantidade e qualidade das propostas de artes de palco apresentadas. Acrescenta-se, também, que tal êxito deveu-se, igualmente, a um excelente público heterogéneo que ocorreu ao Centro Cívico do Estreito, para assistir livremente às catorze manifestações artísticas, de artistas individuais e grupos culturais da Madeira. Isto só prova que na RAM temos artistas individuais e coletividades que apresentam performances artísticas com uma grande qualidade. Lá foi o tempo em que – segundo alguns – só o que vinha de fora, em termos de arte, é que tinha qualidade – embora, ainda hoje, existe resquícios nas cabeças de alguns “geniozinhos” que valorizam
primeiramente os projetos que surgem de fora da ilha.

Por vezes fico boquiaberto com algumas programações de certos eventos culturais que se realizam nesta terra, onde chegam a pagar balúrdios, – disse bem: balúrdios – para trazerem grupos de fora da ilha, nomeadamente na área do teatro, da dança ou da música, para apresentarem unicamente um ou dois espetáculos, numa das nossas pequenas salas que não levam mais do que duzentas pessoas – à exceção do Teatro Municipal Baltazar Dias ou a Sala de Congressos do Casino. Julgam que “fica bem” que “é chique” e assim disponibilizam todas as mordomias e as melhores condições: caché, viagens, estadia e refeições à fartança.

Que fique claro! Não sou contra a vinda de grupos de fora, muito pelo contrário, sou
mesmo a favor, desde que haja um certo peso, conta e medida. Que não se venha com
aquela velha história que esses grupos de fora é que enchem salas, pois os de cá também
enchem os auditórios, e com menos apoios ou investimento. Por vezes fico com a ideia,
que para alguns, o que interessa é parecer que se faz alguma coisa ou que se fazem
coisas mais relevantes que os outros.

Voltando à Mostra de Artes de Palco, que é o verdadeiro foco desta crónica, realça-se
que tem desde o início entrada gratuita, como uma aposta cultural da organização. A aposta tem recaindo e bem, nos grupos regionais, mas também não vejo problema que em próximas edições procurarem convidar pelo menos um grupo artístico de fora da região – caso exista condições financeiras para tal. Pois tal facto pode contribuir ainda mais para o enriquecimento e a diversificação da oferta cultural no domínio das artes de palco na freguesia de Estreito de Câmara de Lobos, que é onde se centra esta iniciativa.

Ao debruçarmos sobre o programa desta 16.ª edição da Mostra de Artes de Palco, deduzimos que houve um interessantíssimo e saudável trabalho em rede entre várias instituições, que resultou num evento de boa qualidade e que foi bem acarinhado pelo público. Esta cooperação entre instituições surgem com o sentido de contribuir para uma descentralização cultural ativa e minimizar os custos, sem perder a qualidade dos eventos. Este evento cultural que se realiza desde 1999, insere-se no programa de atividades da Casa do Povo do Estreito, e tem por objetivo, disponibilizar ao público momentos culturais e motivar o aparecimento de novos grupos de artes cénicas, no sentido de contribuírem para a formação sociocultural da comunidade local. Nas últimas edições,  a iniciativa realizou-se sempre no Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos, juntando em palco várias vertentes artísticas, nomeadamente, o teatro, a música, a dança e a animação, visando a partilha de experiências pessoais, sociais, artísticas e culturais entre todos os grupos envolvidos.

Julgo que a Casa do Povo do Estreito, com este evento, pretende contribuir para a
continuidade da oferta cultural na freguesia, pois a Mostra constitui uma oportunidade
de reflexão e fruição sobre práticas culturais, através da apresentação e cruzamento
entre linguagens artísticas. É de realçar que todos os grupos que estiveram presentes nesta mostra artística, além de um excelente convívio após as apresentações, receberam um certificado e um troféu original de participação – construído em pasta Eva.

A XVI Mostra de Artes de Palco contou, novamente, com o apoio do Município de Câmara de Lobos, que disponibilizou o auditório do Centro Cultural do Estreito para a apresentação das performances artísticas. A edição deste ano, teve realmente, uma programação marcada pela diversidade artística. Também foi curioso verificar que ao longo dos três dias de apresentações
houve, claramente, uma “incidência do feminino” quer no palco, como na plateia. É um facto muito admirável, mas também merece uma reflexão sobre esta maioria de mulheres criadoras e protagonistas, deixando na Mostra um bom traço feminino.

Na minha humilde sugestão, acho que a Mostra de Artes de Palco, poderá evoluir se souber apostar na diversidade e inovação de propostas e de linguagens artísticas, que existem na Madeira, que abarca o teatro, a dança, a música, a animação. Mas também, deve abrir-se a outras propostas vindas de fora da ilha, sem nunca descurar as produções regionais, como referi anteriormente. Viva as artes e a cultura que estão ao verdadeiro dispor de todas as comunidades locais, pois “ a cultura não é um luxo ao serviço de poucos, é, ao contrário uma necessidade
central do desenvolvimento individual e coletivo posta ao serviço de todos, de múltiplas e variadas formas e intensidades.” Fonte: htt://www.jornaldenegocios.pt

Finalmente e tão importante como tudo o supracitado, deixo uma palavra de grande apreço a toda a equipa que trabalha e coordena o Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos, pelo excelente trabalho que fizeram na Mostra e que têm feito ao longo dos anos em prol da arte e da cultura – nas suas mais variadas vertentes.