O grude

 

Meu avô era marceneiro. Um bom marceneiro, ouvi dizer. Não o encontrei. Morreu antes de eu ter nascido. Mas conheci móveis por ele construídos. Brinquei com ferramentas e objectos do seu ofício.

Havia um tacho com asa, creio que de cobre, onde, no fundo, persistia espessa camada de uma matéria glutinosa bem escura. Meu pai explicou-me que era o tacho do grude, a cola para as peças de madeira, que seu pai utilizava no dia-a-dia.

Mais tarde, aprendi com o Dicionário de Francisco Solano Constâncio que o grude se fazia com couro, ossos e bucho de quadrúpedes. Estranha fórmula. Contudo, bem resistente.

Hoje já não se usa essa cola feita com gelatina de matérias animais para unir peças de madeira em armários, mesas ou cadeiras.

No entanto, o grude não desapareceu. Metamorfoseou-se. Fez parceria com o mobbing.

Já não une pés ou braços ao assento ou ao espaldar da cadeira. O grude está agora nalgumas cadeiras. Fixa traseiros ao assento.

Em palavras simples: há pessoas em cargos políticos, sindicatos, clubes, associações, escolas e universidades que se agarram aos lugares e tudo fazem para neles permanecerem, criando uma espécie de barricada para firmarem o seu pretenso poder durante muitos anos.

Formam clientelas, arrogam-se de donos de vontades alheias, exigem, pela calada, temerosas fidelidades, argumentam com competências que fora da sua barricada ninguém lhes reconhece, avançam altivos a exigir que os subordinados não os apunhalem pelas costas, alimentam a bajulice e a bisbilhotice, exigem informações sobre os movimentos dos opositores, eu sei lá o que essa gente faz, por via do grude, no reino da carneirada.

O grude já não agarra somente o traseiro. Tornou-se uma espécie de alucinogénio. Tudo em nome do poder. E fazem-se carreiras assim. E destroem-se carreiras assim. E precipitam para o suicídio assim. Mas nada lhes acontece. Nem a consciência lhes pesa. Não a possuem.

A fornecer-lhes grude anda em azáfama um bando de serventes, de cima e de baixo. Para os de baixo, que Deus deles tenha compaixão, como dizia uma bondosa mulher, minha conhecida. Para os de cima, aprendi com velha vizinha que o diabo sempre ajuda os seus.

O grude não pode faltar. Quando a poção parece diminuir, mandam, apressadamente, vir de fora, em mão.

O grude derrama-se e aferra. O que estava na cadeira já não pode mais ali permanecer. Então pega no tacho do grude e desata a construir um pau-mandado, que fará o jogo da velha sombra, enquanto esta se mexer e dele precisar.

Nada disto me surpreende. É a perversão da democracia. O corporativismo salazarista que perdura nas instituições.

* Mobbing – qualquer comportamento abusivo (atitude, gesto, palavra) que atente, por acção ou omissão, contra a integridade psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego e prejudicando o clima de trabalho. (Infopédia: Dicionários Porto Editora)