Da escrita dramatúrgica de Éric-Emmanuel Schmitt à interpretação de Miguel Seabra no Teatro Baltazar Dias

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Leonor Coelho, professora universitária na UMa.

A encenação da peça de teatro do escritor Éric-Emmanuel Schmitt foi apresentada a 31 de março no Teatro Baltazar Dias. Em boa hora chegou ao Funchal depois de um circuito itinerante por outras cidades. O livro, publicado pela primeira vez pela editora Albin Michel, não é o primeiro texto dramático deste autor do “extremo contemporâneo”, terminologia utilizada pela crítica literária francesa para falar dos escritores dos últimos vinte anos. Para além de romances, novelas, ensaio, autobiografia e teatro propriamente dito, o texto apresentado agora ao público faz parte de um ciclo: “o ciclo do invisível”.

Em termos genológicos, este ciclo de Éric-Emmanuel Schmitt é diverso. Iniciado com um texto em prosa, Milarepa (1997), o escritor publica a peça de teatro Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran (2001), um livro de cartas, Oscar et la Dame Rose (2002), acrescenta, ainda, mais duas narrativas: L’enfant de Noë (2004) e Le Sumo qui ne pouvait pas grossir (2009). Neste ciclo, o autor expõe questões ligadas à diversidade religiosa, cultural e identitária.

Dedicado a Bruno Abraham-Kremer, O Senhor Ibrahim – e as Flores do Corão aborda identidades e interculturalidades por vezes compreendidas, mas quase sempre questionadas. Muitos amantes de cena não terão, por ora, a oportunidade de conhecer ou rever uma peça que prima pela sua qualidade. É pena. A interpretação a solo por parte do ator Miguel Seabra, fundador do Teatro Meridional, foi emocionante. A solo? Na verdade, trata-se de uma atuação a múltiplas vozes – a de Momo (judeu); a do Senhor Ibrahim (muçulmano – na voz do velho Ibrahim, ser árabe “é ter uma mercearia aberta todos os dias da semana, incluindo o domingo”!) -; a do pai de Momo, que pouco ou mal sabe amar (saber-se-á depois que os pais morreram num campo de concentração); a da mãe de Momo, que partiu e o abandonou ainda criança; a de Abdullah, ligado ao senhor Ibrahim pela amizade e raízes comuns.

O Senhor Ibrahim, um merceeiro da rua Bleue, acompanha a inquietude juvenil de Momo numa Paris multicultural e serena dos anos sessenta. Trata-se de um rapaz de onze anos que desconhece a razão pela qual o pai, advogado judeu, o desvaloriza para sobrevalorizar PoPol, o irmão do jovem, que não existiu (talvez represente a própria infância paterna perdida aquando da chegada da distopia nazi). Momo tenta, então, inventar-se e reinventar-se. Em primeiro lugar, aparece simplesmente como filho de um progenitor sisudo, que se suicidará. Depois de despedido, o pai de Momo parte para Marselha e lança-se para uma linha de comboio. É o desespero de um ser incompreendido que procura, desta forma, (re)encontrar os pais levados para a morte. Em segunda instância, Momo apresenta-se como filho adotado pelo velho amigo Ibrahim, que o levará a percorrer países diversos até chegar ao derradeiro pousio – O Crescente de Ouro. Por último, Momo regressa como Mohammed à rua Bleue e (finalmente) à mãe. Já adulto, falará sempre de Momo (Moisés) na terceira pessoa. Uma identidade anulada? Para a vizinhança, Momo passa a ser o árabe, o merceeiro do bairro. Trata-se, pois, de uma identidade reinventada, amada, fruto do seu apego filial ao sábio e tolerante Ibrahim.

A voz inconfundível de Miguel Seabra, com as suas múltiplas tonalidades – uma para cada personagem encenada –  sublinha uma cenografia da gramática da proximidade cultural. À direita do palco, o compositor e multi-instrumentista Rui Rebelo é responsável, também ele, por uma sonoplastia que apela à reflexão. Projetada a definição do vocábulo “sufi”, o espetador acompanha a corrente de um Islão que permite a aceitação das divergências da vida, do ser e da espiritualidade profunda. Todavia, nesse palco, projeta-se, por vezes, um muro. (In)capacidade (ou “claridade”) de se interligar ao Outro? Fica o aviso. Fica, sobretudo, a mensagem de esperança. É possível chegar ao Diverso e aceitar a Diferença. No palco, ergue-se, efetivamente, uma cor azul ondulante, a cor do mar, simbolizando a ligação circular dos seres. Levanta-se, por fim, a lua, redonda, pronta a dizer-nos que a vida pode ter várias facetas: façamos da existência uma aprendizagem pluricultural e acolhedora. O acompanhamento, quase sempre com tonalidades harmoniosas, e só por escassas vezes propositadamente dissonantes, do músico Rui Rebelo, também ele ligado ao teatro, segue o desempenho de Miguel Seabra. Gostaria de ter regressado uma vez mais ao espetáculo para apreciar ainda mais a simbiose entre texto e música, para perscrutar as nuances da linguagem gestual de Seabra, para revelar que, na reinterpretação desta escrita de Schmitt, pareceu-me ouvir dois brevíssimos momentos portugueses: a canção “Amar pelos dois” de Salvador Sobral e a “Desfolhada portuguesa” de Simone de Oliveira. Momentos de Afeto, de Amor, mas também de Liberdade e de reconhecimento pela Arte.

O Senhor Ibrahim – e as Flores do Corão apresenta-se com um texto de aprendizagem: a da passagem de Momo para a idade adulta, a da descoberta da intimidade com a meninas da rua do Paradis, a da tentativa de entender o pai, mas, e talvez sobretudo, a do entendimento da cultura do Outro. Uma viagem levá-lo-á até à terra de Ibrahim. Num espaço de diferenciação e de cruzamento cultural, Momo descobre a dança dos dervixes, rodopiando numa circularidade cósmica única. Aliás, o vestido que figura a mãe, pendurado num cabide no lado esquerdo do palco, gira, lentamente, no final do espetáculo, numa dança de aceitação do passado e de (re)conhecimento de um presente dialogante. Esta dança do vestido branco simboliza para Momo/Mohammed a paz com a infância e um renascer dual, miscigenado e desejado.

Em todo o caso, acompanhámos a multiculturalidade de uma época dicotómica e pacífica. O humor sarcástico (por vezes), cáustico (também) e irónico (quase sempre) de Éric-Emmanuel Schmitt continua a ser apelativo. No penúltimo dia do IX Festival AMO-Teatro, o público aplaudiu uma atuação que merecia ter tido mais divulgação.

Por último, fica(m) a(s) pergunta(s): somos uma única identidade, somos fruto de infâncias errantes, somos parte de um “ciclo do invisível”? Somos solilóquios da imensidão identitária? Quem somos? Somos a encruzilhada de seres que a viagem levada a cabo por Momo e Ibrahim representa? Somos uma gramática de (re)ligação identitária e cultural? Somos, certamente, parte integrante de um diálogo intercultural e inter-religioso nesta nossa contemporaneidade em mutação constante.