José Tolentino Mendonça: “A arte antes era a eternidade. Hoje é um fósforo aceso sobre o instante”

O padre, poeta e académico José Tolentino Mendonça encheu hoje de público a sala do piso térreo do Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF), numa conferência na qual se debruçou sobre o tema das relações entre a Igreja Católica e o mundo da arte, nos tempos mais recentes.

Intitulada “Arte, Mediação e Símbolo: o sentido que vem”, a conferência começou por abordar um certo distanciamento hoje existente, entre os círculos da arte contemporânea e o Cristianismo, principalmente na sua vertente católica. Durante séculos, lembrou, a Igreja Católica foi das grandes impulsionadoras das obras artísticas, principalmente através da encomendas colocadas aos criadores, de que é um exemplo máximo a Capela Sistina, no Vaticano, pintada por Miguel Ângelo. Porém, considerou o orador, a arte contemporânea encontra-se hoje refém de si mesma, evoluindo um pouco, dir-se-ia, em circuito fechado.

Os simplismos nas explicações, todavia, não convencem facilmente. A análise tem de ser mais complexa, sublinhou José Tolentino Mendonça, prosseguindo para comparar obras clássicas como a Vénus de Milo ou a conhecidíssima obra “As meninas de Avignon”, de Pablo Picasso, procurando compreender como a arte evoluiu de um conceito de claridade e de beleza estética para um certo brutalismo e apresentação fragmentada que hoje a caracterizam, rivalizando com a integridade que, noutros tempos, toda a obra de arte tinha de possuir.

O palestrante referiu que, em seu entender, há culpas de parte a parte pelo afastamento entre a Igreja e a criação artística de hoje. Em certos casos, considerou, as criações artísticas de hoje estão reduzidas a um exercício banal. Por outro lado, nem sempre a Igreja compreende a arte.

Tolentino Mendonça prosseguiu para referir a reforma litúrgica do papa Paulo VI, e o modo como instou, na sequência da mesma, a um novo relacionamento com os artistas. Em prol da Igreja, referiu que a mesma nunca adoptou um estilo próprio, antes mantendo-se aberta às interpretações dos estilos de todas as épocas, razão porque existem hoje tantas manifestações diferentes de arte religiosa.

O orador falou ainda do papa João Paulo II, mencionando a carta que este escreveu aos artistas na passagem do milénio, reflectindo sobre o papel da arte na sociedade. Foi, disse, um momento muito importante. Por outro lado, lembrou, o papa Bento XVI também reuniu, durante o seu pontificado, artistas e criadores de todos os tipos na Capela Sistina, numa atitude de “respeito, de amizade, de escuta” no qual esteve presente.

Segundo afirmou, o Pontifício Conselho de Cultura tem feito de tudo para manter a aliança com os artistas. Pois, defendeu, a arte precisa da Igreja, porque precisa da transcendência. Não pode ser apenas imanente, pois corre o risco de perder-se em si mesma.

Sublinhando que a arte dos nossos dias tenta descobrir o que está oculto, escondido, o que é opaco, muitas vezes de forma fragmentada, desafiando o conceito de integridade da arte clássica e obrigando o fruidor a deslocar o seu olhar, José Tolentino Mendonça referiu: “A arte antes era a eternidade. Hoje é um fósforo aceso sobre o instante”.

Desenvolvendo uma perspectiva filosófica, inclusive a partir do pensamento de Heidegger, um dos que mais reflectiu sobre a arte, o orador referiu que a vida humana só se redime, só se sente cumprida através do êxtase, quando se liga, num assombro, a algo de transcendente. Sem esse sentimento, sentenciou, somos como animais a caminho do matadouro.

Descendo a algo de mais prosaico para analisar um conceito eminentemente filosófico e estético do belo, o palestrante mencionou o modo como os jornais desportivos se referiam a um golo recente de Cristiano Ronaldo, no jogo com o Juventus; questionavam se o popular jogador efectivamente é deste mundo. A noção do belo, prosseguiu, é qualquer coisa que recorda aos humanos a necessária procura de uma outra coisa, expressa na transcendência. A este respeito, socorreu-se dos escritos de Santo Agostinho, nas “Confissões”, que classificou como uma obra fulcral, que todos nós devíamos ler em alguma etapa da nossa vida. E concluiu a conferência citando o espaço artístico, no qual se situa inclusive o MASF, como um lugar de encontro privilegiado entre crentes e não crentes.

“Há uma aliança de amizade que é preciso restabelecer, entre a Igreja e os artistas”, disse. Pois, terminou, se há algo que a Igreja efectivamente entende, é a busca que todo o artista faz do seu próprio modo de entender a beleza.