É imperioso cuidar do que é nosso

 

De televisão ligada, preparava-me para, silenciando-a, iniciar o texto que aqui deixo aos que, teimosamente, permanecem a querer lê-los, quando me apercebo de que, numa roda de conhecidos, actuais e mais antigos profissionais da comunicação na rádio e nas televisões, se falava de duas bandas de finais dos anos sessenta e início da década de setenta a saber, “A Filarmónica Fraude” e “A Banda do Casaco”, e das dificuldades que, particularmente a primeira, “nascida” em 1968, sentiam face ao modo como a censura da ditadura que vivíamos interferia autoritária e determinante na sua liberdade de divulgar, proibindo mesmo, em inúmeros casos, algumas das suas mais marcantes criações de serem objecto de reprodução via rádio ou televisão. Muitos de nós lembram-se disso – sem saudade, mas lembram-se desses tempos – e, tenho a certeza, se há episódios da nossa vida, enquanto cidadãos, que não queremos ver repetidos, os descritos figuram seguramente entre os primeiros.

Interrompida a sessão televisiva, e já sentado a preparar o meu portátil para a função a que me dispus, surge-me com algum destaque um título, “Relatório das secretas indica que extrema-direita regressou em força a Portugal” remetendo-nos para um Relatório Anual da Segurança Interna que, enquanto afirma que a criminalidade violenta e grave diminuiu 8,7% face a 2016, nos informa sobre o que parece ser o reforço organizativo da extrema-direita (em Portugal), da sua actividade interna e das suas ligações internacionais, sublinhando ser a violência “um traço marcante” dessa militância que radica, segundo a notícia, no combate aos movimentos migratórios e à (chamada) crise dos refugiados.

Não pude deixar de relacionar a informação assim obtida, em tão curto intervalo de tempo, e tentar reflectir sobre o que, ao longo dos tempos, se fez, mas sobretudo sobre o que se não fez, para prevenir e tentar evitar que estas ameaças, sabendo nós o que sabemos do passado e tendo nós as lições da História e o alarme da memória, não voltassem a ocorrer, não voltassem a ser notícia, não voltassem a ser motivo de preocupação e de angústia neste novo século que, ainda jovem, reunia todas as condições para ser o da liberdade, do desenvolvimento, do progresso e da harmonia.

Por que me não ocorre uma frase que, de forma tão lapidar exprima o que esta encerra, repito, uma vez mais, a do filósofo Santayana avisando de que “quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo” e, reconheça-se, em socorro deste, digamos, postulado, parece ter havido, e continuar a existir, uma inconfessável vontade de desvalorizar, de esconder, de escamotear, tudo aquilo que nos foi imposto pelos mais diversificados totalitarismos, de direita ou de esquerda, mas, neste caso com um particular enfoque no que constituiu para a Europa e para o Mundo a 2.ª Guerra Mundial com todo o seu cortejo de horrores, de perseguições, de xenofobia, de racismo, de atentados contra os direitos do Homem, de guerra, de crimes de guerra, de genocídio, de fome, de miséria, de luto e de tristeza, tendo ao leme o nazismo alemão do III Reich liderado por Hitler com os seus aliados fascistas na Itália do Duce, Mussolini, e no Japão, dando corpo ao que a História consagrou como sendo a Aliança do Eixo e a que nós nos referimos como sendo os Países do Eixo.

Porquê esconder o que só mostrado pode ser exemplar e pedagógico?

Era Tony Blair Primeiro-ministro britânico quando, li algures, que no Reino Unido havia sido tomada a decisão de retirar o ensino do holocausto do programa de História do ensino secundário. Não percebi, não ignorei, não aceitei. E, se isto cito, faço-o simplesmente por me parecer que há muitas e poderosas razões acessíveis e escrutináveis que militam no recrudescimento da extrema-direita, e não só em Portugal, de que, em nome da economia do texto, selecciono: a família, a escola, a comunicação social e a política.

Sem ser a conclusão de nenhuma investigação cuidada, mas antes o resultado empírico de uma observação interessada, afigura-se-me que, das conversas em família e da educação familiar não constam, na esmagadora maioria dos casos observáveis, conversas relacionadas com o tema. Por falta de tempo, de curiosidade ou pelo entendimento consensualizado do anacronismo da temática, o assunto deixa de o ser e, para as mais novas gerações, a liberdade é um adquirido que nada nem ninguém pode ou tem condições para questionar ou condicionar, não havendo, por isso lugar às reticências e à interpretação casuística de fenómenos como os que aqueles configuram.

Afastado há já muitos anos do ensino, fui tomando nota, – e vou-me apercebendo, porventura erradamente -, de que, de um longo e interessante programa da disciplina de História dos ensinos básico e secundário, os temas relacionados com as preocupações descritas são objecto de um distanciamento pouco pedagógico e contraproducente. Não é irrelevante a distância que nos separa dos factos históricos e do que eles significam, ou podem significar, para nós, hoje; ou seja, é inegavelmente mais entendível e interpretável à luz do nosso viver e das consequências possíveis o que aconteceu há cinquenta ou cem anos, do que o sucedido há mil e, por isso, o maior ou menor grau de adesão aos avisos expedidos pela formação.

Com uma postura longe da isenção, a comunicação social, nas mãos de grupos económicos que a entendem ao seu serviço e exclusivamente ao seu serviço, de uma maneira geral, – uma referência à informação da RTP 2 que, apesar de “traída”, por vezes, com peças editadas para os outros canais da empresa, continua a ser uma lufada de ar fresco no panorama da comunicação social nacional -, com uma orientação editorial de direita, ainda que salpicando aqui e acolá com uma pitada de pluralismo e de colaborações menos obedientes, abre portas, querendo ou não (?), a um discurso mais sectarizado e radicalizado à direita, promovendo e amplificando a defesa de valores que nada têm a ver com a democracia, com a sustentação, com a dignificação e com o prestígio que ela reivindica, ainda que o faça, a maior parte das vezes, em nome da liberdade que, reconheçamos, tem indiscutível direito a um uso mais compatível com os interesses dos cidadãos.

Também a política e o seu exercício, pelo que é feito e pelo que é passível de ser relatado, tem de evitar pôr-se a jeito dos contundentes ataques dos inimigos da democracia e defendê-la pelo exemplo, pela frontalidade, pela verdade e pela justiça. Esta será a única forma de lembrar aos portugueses e a todos os que prezam a democracia e a sua preservação que, como dizia numa célebre frase, já reproduzida milhares de vezes, Winston Churchill, “a democracia é o pior dos regimes com excepção de todos os outros”.

E… é imperioso cuidar do que é nosso.

 

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ort